Mais que uma opção de carreira, empreendedorismo digital torna-se alternativa de sobrevivência no Brasil
As decantadas mudanças no mundo do trabalho, a crise da sociedade salarial e o enfraquecimento da CLT colaboram para que um número crescente de pessoas recorra a estratégias profissionais e de renda que passam pelo uso de plataformas digitais
Diante da crise do emprego formal e da informalidade histórica no Brasil, muitos trabalhadores recorrem ao empreendedorismo digital como sobrevivência. Ao combinar criativamente redes como WhatsApp e Instagram com apps de entrega e gestão, pequenos produtores evitam as taxas de grandes plataformas. Contudo, essa autonomia custa caro: sem fronteiras entre vida pessoal e trabalho, esses profissionais enfrentam jornadas sem fim, abrindo mão do descanso para viabilizar seus negócios cotidianos.
Um dos principais índices que mede a atuação dos governos, internacionalmente, é a criação de postos de trabalho formais. Este índice indica o lugar de destaque que o emprego ocupa na economia e na gestão das populações.
No Brasil, embora tal critério seja mobilizado nos embates eleitorais e nas avaliações de políticas públicas, a informalidade é historicamente parte fundamental do mundo do trabalho. E com frequência é apontada como central para a subsistência de indivíduos e famílias mais pobres, com menor escolaridade ou sem qualificação profissional.
Atualmente, 37,5% da população ocupada no país - números da PNAD/IBGE - desempenha trabalho informal. No Rio de Janeiro esta taxa não difere muito. Já os trabalhadores plataformizados, correspondem a 2% da população economicamente ativa.
Apesar da relação entre pobreza e informalidade ser uma generalização que em momento nenhum foi uma correspondência exata, a informalidade do trabalho perpassa os mais diferentes estratos e classes sociais. Isso ocorre por meio de bicos, biscates, trabalhadores freelancers ou micro empreendedores.
As decantadas mudanças no mundo do trabalho, a crise da sociedade salarial e o enfraquecimento da CLT colaboram para que um número crescente de pessoas recorra a estratégias profissionais e de renda que passam pelo uso de plataformas digitais
Sobrevivência, como aqui é empregado, não se refere à mera subsistência, e pode corresponder aos mais variados níveis de ganho financeiro.
Uma outra mudança que afetou o trabalho, assim como todos os aspectos da existência, é a expansão da internet e a centralidade do uso de computadores e smartphones.
Exemplos frequentemente citados são a difusão do home office, a expansão do telemarketing e as formas mais evidentes de trabalho plataformizado. Motoristas e entregadores de aplicativo são dois exemplos.
A digitalização adentrou o universo laboral de forma profunda. E impactou uma gama muito mais ampla de atividades. E estas, com frequência, misturam aspectos do trabalho remoto, marketing digital e plataformização.
Ferramentas digitais que, para a maioria dos brasileiros, constituem a infraestrutura cotidiana vão sendo adaptadas para o trabalho. Ao mesmo tempo, adaptam e transformam aspectos fundamentais da vida, da cidade e da economia.
Comprando e vendendo por zap
Em minha pesquisa sobre compra e venda por WhatsApp, estudei pequenos negócios do ramo alimentício e de serviços. Além disso, refleti sobre questões do urbanismo digital, informalidade e infraestruturas digitais. A pesquisa foi financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.
Realizei 30 entrevistas em profundidade. O objetivo foi compreender como aqueles indivíduos gerenciavam seu tempo e se deslocavam (ou os produtos) pela cidade. Esses indivíduos ocupam o espaço urbano e mobilizam variados recursos. Vale dizer que nem todos são digitais, mas servem para construir estratégias de sobrevivência, assim como sua autoimagem de empreendedores.
Os atores como cozinheiros, feirantes, manicures, faxineiras, costureiras, entre outros tinham em comum o uso do WhatsApp. Além deste, também utilizavam outras ferramentas digitais como o Instagram para organizarem seus negócios de maneiras variadas e criativas.
Uma análise do material coletado reforça algumas hipóteses iniciais. Ao mesmo tempo que surpreende pela criatividade, chama a atenção o quanto o trabalho é indiscernível da vida.
A ascensão do empreendedorismo como modelo de trabalho pós-salarial e horizonte subjetivo neoliberal já foi bastante discutida pelas sociologias do trabalho e econômica nas últimas décadas. Entretanto, a digitalização não pode ser apontada como principal explicação para a força do sonho empreendedor. As entrevistas deixam claro que o uso de smartphones, aplicativos de comunicação e mídias sociais teve outros efeitos. Ele reduziu o custo inicial, enxugou a mão de obra extra e simplificou processos essenciais.
A liberdade em relação ao "emprego CLT" é frequentemente referida como fator determinante para essa escolha. Mas essa opção requer principalmente, trabalho constante, além da criatividade no uso dos recursos digitais disponíveis.
Colonização do tempo
É comum discernir nas entrevistas que a identidade de empreendedor invade aspectos da vida aparentemente descolados da atividade laboral. Isso se reflete por conta da colonização do tempo por tarefas digitais sem fim, como comunicação, divulgação e planejamento logístico. Ao serem questionados sobre o início e o fim da jornada de trabalho, os entrevistados responderam "na hora em que acordo" e "até a hora em que vou dormir".
Essas falas foram acompanhadas com autojustificativas que reconheciam o absurdo da situação. E a projetavam um futuro em que tanto as relações sociais quanto horas saudáveis de sono voltassem ao cotidiano.
Poucos foram aqueles que responderam ter alguma vez, desde o início do negócio, tirado férias ou viajado. Estas são atividades que envolvem, simultaneamente, tempo e dinheiro, ambos bens escassos para a maior parte da amostragem.
As longas jornadas de trabalho enfrentadas por motoristas e entregadores de aplicativo para cobrir suas despesas com os veículos ou garantirem sua subsistência ainda guardam uma fronteira que demarcam a atividade laboral da vida familiar e pessoal, mesmo que reduzidas, cada vez a menos horas do dia.
Apagamento da vida privada
No caso do empreendedorismo digitalizado, o apagamento de fronteiras entre trabalho e vida social não se limita à quantidade de horas trabalhadas, mas também às próprias atividades desempenhadas.
Os entrevistados apontaram que atividades que consumiam seus dias eram as mesmas que constituíam sua principal fonte de distração. A comunicação por WhatsApp e o consumo e produção de conteúdo em mídias sociais como Facebook, TikTok e, principalmente, Instagram.
Inclusive, o número de seguidores e o engajamento de suas postagens e stories foram temas que apareceram com frequência nas entrevistas. As horas intermediárias do dia são gastas tanto na circulação pela cidade em direção aos clientes, como na elaboração dos produtos que devem ser deslocados em direção aos consumidores. Trabalho executado pelos próprios produtores ou sob seu planejamento e gerenciamento. Isso sem interromper o trabalho digital, que penetra as frestas do dia e encharca as atividades realizadas.
O aspecto mais interessante do empreendedorismo digitalizado sobre o qual a pesquisa se debruçou foi o que chamei de logísticas amadoras pré-fabricadas. São cadeias de ação construídas a partir de um amálgama de infraestruturas digitais cujas possibilidades de uso são criativamente apropriadas.
Esses empreendedores misturam plataformas de e-commerce, serviços e entregas, com aplicativos e funcionalidades dos dispositivos voltadas a outras tarefas da vida cotidiana. E assim constroem logísticas para o funcionamento de seus negócios que abarcam produção, divulgação, relação com clientes, circulação, entrega, etc.
As logísticas amadoras pré-fabricadas são arranjos sempre específicos a cada empreendedor, que por vezes mimetizam os modelos das grandes plataformas ao mesmo tempo em que constroem alternativas a elas.
Exemplo é a divulgação pelo Instagram e a relação com cliente pelo WhatsApp (com ou sem ajuda de bots. Além da entrega por Lalamove ou UberFlash. O cálculo de deslocamentos é feito pelo Waze. E a compra de matéria prima pela Amazon. Já a gestão de gastos e receitas são realizadas pelo Excel. Com essas estratégias, o cozinheiro consegue que seus doces circulem pela cidade como se fossem vendidos pelo iFood. E sem a intermediação e as taxas das grandes plataformas.
Blocos pré-fabricados de códigos, a matéria-prima dos softwares, são combinados de forma criativa, baseado em alguma familiaridade com os apps e muita experimentação. E assim produtos e serviços são comprados, contratados e vendidos, sem os empreendedores se "plataformizarem".
Entre erros e acertos
A composição mais básica que identifiquei é a do Instagram com o WhatsApp, nas versões pessoal e business. O binômio é divulgação-venda. E a esses se somam apps de geolocalização, pagamento digital, fotos, delivery, transporte, gestão de finanças, comércio digital, controle do tempo e edição de imagens.
Além disso, muitos desses indivíduos da informalidade utilizam recursos como compra ou aluguel de bots. Além de outras formas de automação e impulsionamento de tráfego digital. Todo esse processo é construído e vivenciado num constante jogo de tentativa e erro.
Sem dúvida, a construção e manutenção dessas alternativas requer muito mais dedicação, criatividade e expertise (frequentemente leiga) do que exigiria simplesmente se cadastrar em grandes plataformas dedicadas, por exemplo, ao delivery de comida ou à contratação de prestadores serviço. E esperar clientes e consumidores chegarem por meio delas.
Não era incomum, inclusive, que entrevistados afirmassem também operar em paralelo por essas plataformas. No entanto, para esses trabalhadores que abrem mão do sono, dos amigos, de férias e do tempo livre, em busca de um sustento que chega suado e pouco abundante, prescindir desses grandes e poderosos intermediários e evitar a comissão que cobram é também uma estratégia de sobrevivência.
As logísticas amadoras pré-fabricadas com a extração do máximo de diferentes aplicativos, ao possibilitarem cadeias de ação alternativas sem as grandes plataformas como IFood e GetNinjas, almejam também uma distribuição mais justa dos pagamentos e possibilidades mais valorizadas de reconhecimento.
Bruno de Vasconcelos Cardoso recebeu financiamento da Faperj.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.