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Maiores projetos militares da Europa estão ameaçados

25 mai 2026 - 19h15
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Disputas entre França e Alemanha sobre liderança, prioridades e controle industrial ameaçam fragmentar projeto de caças de € 100 bilhões. Tensões agora atingem também um projeto franco-alemão de tanques.A Europa queria se unir para construir um caça de nova geração. Em vez disso, o maior projeto de defesa do bloco pode agora resultar em duas aeronaves separadas.

Modelo do futuro caça em exposição no Salão Aeronáutico de Paris 2025
Modelo do futuro caça em exposição no Salão Aeronáutico de Paris 2025
Foto: DW / Deutsche Welle

A Airbus, que representa o lado alemão e espanhol no sistema Future Combat Air System (FCAS), disse à DW que está aberta a reestruturar o programa após anos de disputas políticas e industriais.

Isso poderia incluir uma "solução de dois caças", permitindo que França e Alemanha desenvolvam aeronaves de combate separadas, ao mesmo tempo em que continuam cooperando em drones, sensores e nos sistemas digitais que conectam o campo de batalha em tempo real.

A reviravolta: o próprio caça pode deixar de ser a parte mais importante do projeto.

A proposta marca uma mudança significativa para um projeto que antes era visto como símbolo da unidade militar franco-alemã.

"No FCAS, o trabalho continua com os governos francês, alemão e espanhol para decidir o caminho a seguir", disse um porta-voz da Airbus à DW.

FCAS ainda pode ser salvo?

O presidente-executivo da Airbus, Guillaume Faury, afirmou que o programa mais amplo ainda faz sentido, mesmo que o caça — seu elemento central — permaneça travado.

"O impasse de um único pilar não deve comprometer todo o futuro dessa capacidade europeia de alta tecnologia", disse, acrescentando que a Airbus apoiaria uma solução com dois caças, caso os governos assim decidam.

A disputa levanta agora uma questão mais ampla: as principais potências europeias ainda conseguem desenvolver grandes sistemas de armas em conjunto?

A história por trás do FCAS

O FCAS foi lançado pela França e pela Alemanha em 2017, com a Espanha aderindo posteriormente. Avaliado em cerca de 100 bilhões de euros, o projeto pretende entregar um sistema de combate aéreo de sexta geração por volta de 2040.

Mas o programa vai muito além de um caça de nova geração. Ele inclui drones, plataformas remotas, motores e uma "nuvem de combate" projetada para conectar aeronaves, sensores e dados do campo de batalha em tempo real.

Mas o próprio caça se tornou a principal fonte de conflito.

Ambições nucleares dividem parceiros

A França quer que a futura aeronave possa operar a partir de porta-aviões e transportar armas nucleares. A Alemanha, que não é uma potência nuclear, não compartilha desses requisitos. Berlim já decidiu comprar caças F-35 de fabricação americana para missões nucleares no âmbito da Otan.

O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, reconheceu recentemente essa divisão. Segundo ele, a França precisa de um caça de nova geração com capacidade nuclear, enquanto a Alemanha não tem essa mesma necessidade para suas forças armadas. Caso essas diferenças não sejam resolvidas, alertou, "não será possível manter o projeto".

Conflito industrial trava o projeto

O desacordo político é consequência de uma disputa industrial. A Dassault Aviation, fabricante francesa do caça Rafale, quer liderar claramente o desenvolvimento da nova aeronave. Já a Airbus Defence and Space, que representa interesses alemães e espanhóis, busca um papel maior.

O resultado é um conflito prolongado sobre liderança, divisão de trabalho e transferência de tecnologia. Diversas tentativas de mediação não conseguiram produzir um avanço.

Agora, a Airbus sinaliza que a solução pode ser parar de tentar fazer uma única aeronave atender a todas as necessidades.

"Nuvem de combate" pode sobreviver

Para muitos analistas, a parte mais importante do FCAS pode já não ser o caça em si.

A chamada "nuvem de combate" — o sistema digital que conecta aeronaves, drones, sensores e armamentos — é vista como a área em que a cooperação europeia ainda tem maior potencial.

Especialistas destacam que a Europa continua fortemente dependente dos Estados Unidos nesse campo. Outros argumentam que drones, software e integração de sistemas podem avançar mesmo que o projeto do caça seja dividido ou reduzido.

Isso representaria uma vitória política menor do que a visão original, mas poderia evitar o colapso total do FCAS.

Futuro "supertanque" europeu também em risco

Os problemas do FCAS já começam a afetar outro grande projeto franco-alemão: o Main Ground Combat System (MGCS).

O MGCS deve substituir os tanques Leopard 2, da Alemanha, e Leclerc, da França. O projeto foi lançado junto com o FCAS, em 2017, como parte de um acordo político mais amplo entre Paris e Berlim.

A divisão era clara: a França lideraria o caça do futuro, enquanto a Alemanha ficaria responsável pelo novo tanque, devido à sua forte indústria de veículos blindados. A ideia não era apenas desenvolver armamentos, mas também reforçar a cooperação militar entre duas das maiores potências europeias.

Mas esse equilíbrio agora parece frágil. Se o FCAS for dividido, reestruturado ou enfraquecido, isso pode comprometer o acordo por trás do MGCS. O projeto do tanque já enfrentou atrasos. França e Alemanha concordaram em avançar para a próxima fase em 2024, mas o sistema não deve entrar em operação antes de 2040.

Um teste para a indústria de defesa europeia

A invasão da Ucrânia pela Rússia levou os governos europeus a aumentarem os gastos com defesa e a reduzirem sua dependência dos Estados Unidos. Desde então, a União Europeia tem defendido uma maior aquisição conjunta de armamentos e uma indústria de defesa europeia mais forte. No entanto, a incerteza em torno do programa FCAS demonstra o quão difícil essa ambição pode ser na prática.

Analistas de defesa da Carnegie Endowment for International Peace afirmam que o resultado do FCAS poderá moldar o futuro da cooperação europeia no campo da defesa nos próximos anos. Caso o programa fracasse, os governos poderão tornar-se muito mais cautelosos quanto ao lançamento de projetos multinacionais de armamento desta magnitude.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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