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Maia chama de "absurdo" pagamento a solteiras e cobra STF

Estado revelou que 194 filhas de ex-parlamentares e ex-servidores recebem pensão, a um custo anual de R$ 30 milhões

19 jan 2020
17h55
atualizado em 20/1/2020 às 07h21
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O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou neste domingo (19) ao Estado que continuará trabalhando para que o Supremo Tribunal Federal (STF) mude a interpretação da lei que garante o benefício para 194 filhas solteiras de ex-parlamentares e ex-servidores, a um custo anual de R$ 30 milhões. Maia chamou de "absurdos" os casos revelados pela reportagem, como a da pesquisadora Helena Hirata, que mora há 49 anos em Paris e recebe R$ 16.881,50 por mês apenas por ser solteira e filha de ex-deputado.

Uma auditoria do TCU, de 2016, apontou suspeitas de fraudes em 19 mil pensões para filhas solteiras pagas em diversos órgãos da administração pública federal, não apenas do Legislativo. O tribunal alterou a interpretação da lei e obrigou que as pensionistas comprovassem a dependência do benefício para manterem o privilégio.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) 
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ)
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil / Estadão Conteúdo

"Depois da interpretação do Tribunal de Contas da União, o STF deu infelizmente decisão garantindo o direito adquirido", disse Maia. "Todos os casos como esses mostrados são absurdos. Vamos continuar investigando, tomando as decisões e trabalhando para que o STF mude sua interpretação e tenha interpretação real daquilo que é o correto, para que não tenhamos privilégios e desperdícios desnecessários".

As solteiras passaram a reivindicar ao STF a manutenção das remunerações. O ministro da Suprema Corte Edson Fachin suspendeu o acórdão do TCU e determinou a aplicação do entendimento original à lei, o que foi respaldado pela Segunda Turma da Corte. Um integrante do STF classificou os pagamentos como "absurdo".

Câmara trabalha para identificar fraudes em pensões, afirma Maia

Maia destacou que as pensões para filhas solteiras não são pagas por opção da gestão dele e que a direção-geral da Casa vem trabalhando para identificar as fraudes. Até pesquisas nas redes sociais para identificar pensionistas em união estável — condição que suspende o pagamento — estão sendo feitas.

"Esse não é um assunto novo, que foi criado agora. Nos últimos anos a diretoria-geral da Câmara vem organizando isso, pesquisando, investigando e até usando as redes sociais para mostrar casos em que já há relação estável para mostrar as pessoas que casaram, têm família e estão burlando a lei", comentou Maia.

As pensões são garantidas por uma lei de 1958. Em 1990, outra legislação pôs fim aos pagamentos, mas quem havia adquirido o direito o manteve. Para não perdê-lo, basta permanecer solteira ou não ocupar cargo público permanente. Denúncias de fraudes não faltam. Em dezembro, por exemplo, uma mulher foi indiciada por estelionato pela polícia legislativa por ser casada e manter o benefício.

'É direito adquirido. É preciso esperar até falecerem', diz deputado

Congressistas ouvidos pelo Estado/Broadcast avaliam que não há como mexer em direito adquirido, mas cobram uma fiscalização para identificar pessoas que não poderiam mais receber a benesse. Ex-integrante da Polícia Militar, o deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) vê o pagamento das pensões como herança do militarismo no País, em que mulheres e filhas eram totalmente dependentes dos maridos militares.

"A sociedade evoluiu, então no mundo de hoje não cabe mais uma situação como essa. Mas, infelizmente, as 194 pensionistas estão amparadas por lei, é direito adquirido. É preciso esperar até falecerem", afirmou.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), por sua vez, defende um exame minucioso de cada caso. "Creio que é um direito adquirido, não dá para simplesmente tirar. Mas um pente-fino é interessante", disse.

O senador Lasier Martins (PODE-RS), 2º vice-presidente do Senado, também classificou os pagamentos de pensões a solteiras como "um absurdo". "Entendo que o funcionamento público é indispensável no Brasil, mas é notório que há muitos benefícios e cada vez se amplia mais direitos", declarou o parlamentar.

Em nota ao Estado, o Senado afirmou que fiscaliza, anualmente, a condição das beneficiárias por meio do recadastramento anual obrigatório, sob risco de suspensão ou cancelamento da pensão. O senador, no entanto, contesta o sistema de revisão de benefícios.

Lasier apresentou um projeto de resolução na Casa para revisar todo o orçamento no Senado. De acordo com ele, seria possível reduzir de R$ 4,5 bilhões para R$ 500 milhões os gastos anuais. O projeto está parado e não teve andamento. "O Senado não revisa nada. Isso é repudiar do dinheiro público segue a esteira do abuso com os recursos."

Amoêdo, do Novo, defende revisão benefícios no País

O presidente do Novo e ex-candidato à Presidência, João Amoêdo, também reagiu. Ele classificou a situação como um quadro de "distorções enormes" e defendeu uma revisão de benefícios no País.

"As distorções são enormes. Com tanta gente desempregada, o sujeito está buscando um salário mínimo e vendo pensões milionárias sendo pagas com dinheiro do bolso dele", comentou o dirigente partidário.

"É preciso repensar as coisas. Esse tipo de direito é justo, mas tem que ser condicionado à situação do País. Se não, se acaba criando uma série de benefícios sem saber como as contas estarão lá na frente", disse Amoêdo.

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Estadão
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