Jiu-jitsu brasileiro enfrenta seu momento "#MeToo" nos EUA
Com a lenda André Galvão acusado de má conduta sexual, academias e atletas foram forçados a enfrentar uma cultura de silêncio, hierarquia e cegueira de gênero no esporte.
Um movimento semelhante ao #MeToo parece estar se desenrolando no jiu-jitsu brasileiro.
Em fevereiro de 2026, a lenda do jiu-jitsu brasileiro André Galvão foi acusado de má conduta sexual por várias mulheres, incluindo uma adolescente que treinava na Atos Jiu Jitsu, a escola que Galvão cofundou em San Diego em 2008 e que agora tem filiais em todo o mundo.
A reação foi rápida: Várias academias e atletas de renome afiliados à Atos romperam relações com a escola.
Galvão rebateu as acusações como "boatos falsos" e afirmou que está "tomando as medidas legais adequadas para proteger a integridade" da Atos.
Em 6 de fevereiro de 2026, no entanto, a Atos Jiu Jitsu anunciou que havia destituído Galvão de seus cargos de liderança. Muitas outras academias e atletas sem conexão direta com Galvão ou a Atos aproveitaram a notícia como uma oportunidade para publicar mensagens sobre seu compromisso com a segurança de seus membros.
Em um esporte que há muito tempo luta para lidar com assédio sexual e má conduta, vemos a condenação generalizada de Galvão como um momento decisivo. E isso vem na sequência de uma pesquisa que realizamos para entender melhor os desafios únicos que as praticantes de artes marciais enfrentam.
Um esporte baseado na confiança
Para aqueles que não estão familiarizados com o esporte, o jiu-jitsu brasileiro é uma arte marcial focada em luta agarrada e no solo — pense em luta livre, mas com técnicas de finalização como chaves de braço, chaves de ombro e estrangulamentos. É essencialmente a parte de luta no solo do UFC, sem os socos e joelhadas.
Embora quase todas as competições de jiu-jitsu brasileiro sejam divididas por gênero, o sparring e os treinos acontecem rotineiramente entre homens e mulheres. Normalmente envolve contato físico, geralmente entre duas pessoas com diferentes níveis de força e experiência.
Por esses motivos, confiança, moderação e respeito são essenciais.
Quando seu oponente aplica com sucesso uma técnica que limita seus movimentos e da qual você não consegue escapar, você "bate o tapete" para sinalizar que aceitou a derrota. Quando você se rende, seu oponente é obrigado a soltar imediatamente para evitar causar lesões ou inconsciência.
Grande parte da atenção dada ao assédio sexual no esporte tem se concentrado historicamente em incidentes de agressão. E uma análise da cobertura jornalística entre 1989 e 2018 identificou 177 incidentes de treinadores de artes marciais condenados por crimes sexuais.
Mas o tipo de assédio que pode não chegar ao nível de crime na maioria dos países — mais difuso e sutil, mas não menos insidioso — permaneceu amplamente ignorado no jiu-jitsu brasileiro.
Feliz ignorância ou algo mais insidioso?
Seja por meio de comentários inadequados ou sexualizados dentro e fora do tatame — ou de observações indesejadas sobre seus corpos ou aparência — as mulheres enfrentam um ambiente de treinamento muito diferente do de seus colegas homens.
Foi isso que quisemos explorar em nossa própria pesquisa.
Em 2021, realizamos um levantamento sobre a participação em artes marciais que gerou respostas de 289 praticantes de artes marciais — 209 homens, 77 mulheres e 2 pessoas não binárias — nos Estados Unidos e em todo o mundo. A maioria deles listou o jiu-jitsu brasileiro como sua arte marcial principal.
Na análise, 43% dos participantes da pesquisa — 51% das mulheres e 40% dos homens — indicaram que estavam cientes do assédio em sua comunidade de artes marciais, que variava de bullying a assédio sexual e agressão sexual.
Mas o assédio foi apenas uma das questões levantadas. A pesquisa revelou um problema mais amplo de "cegueira de gênero" nas artes marciais, que envolve simplesmente ignorar ou negligenciar o impacto que o gênero pode ter na participação, na prática e no desempenho.
Quando questionados sobre "o que significa ser mulher nas artes marciais?", 62% dos homens responderam com afirmações que minimizavam ou ignoravam ativamente as formas como o gênero molda o esporte. Por exemplo, um homem observou que "a beleza das artes marciais" é que "qualquer pessoa pode praticá-las", independentemente da idade, habilidade, "gênero, forma ou tamanho".
Em contrapartida, quase dois terços das mulheres em nossa pesquisa indicaram que ser mulher nas artes marciais, de fato, importa. Elas disseram que tinham menos oportunidades de treinamento, revelaram que sentiam que precisavam se esforçar duas vezes mais para provar seu valor e destacaram preocupações com a segurança.
Não está claro se a cegueira de gênero entre os praticantes de artes marciais do sexo masculino refletia otimismo, ignorância ou outra coisa. Mas o impacto é o mesmo: as mulheres veem o gênero como algo central para sua experiência. Os homens geralmente percebem o gênero como algo irrelevante para o esporte e não percebem o que as mulheres enfrentam no dia a dia.
Infelizmente, a cegueira de gênero não se limita apenas ao jiu-jitsu brasileiro. Há muito estudada por sociólogos e estudiosos de gênero, é um padrão que estabelece as bases para abusos em todos os tipos de esportes . E quando a cegueira de gênero existe em combinação com hierarquias rígidas, ela possibilita abusos de poder e uma cultura do silêncio.
Quando as pessoas se recusam ou não reconhecem como o gênero molda as experiências das mulheres no esporte, torna-se muito mais difícil lidar com as condições que permitem que o assédio e a agressão ocorram. Por exemplo, quando o contato inadequado ou o apalpamento durante o treinamento são descartados como meramente "acidentais" ou minimizados como alguém sendo "apalpador", isso sinaliza que esse comportamento é trivial, em vez de prejudicial. E isso cria um ambiente em que mulheres — e homens — podem se sentir desconfortáveis em se manifestar ou falar abertamente.
Algumas figuras proeminentes da comunidade brasileira de jiu-jitsu estão fazendo essa conexão.
Em um discurso recente após a vitória, a campeã e treinadora de jiu-jitsu brasileiro Adele Fornarino fez um apelo à ação. Criticando a estrutura hierárquica do esporte, ela enfatizou que as pessoas em posições de poder estão se aproveitando dos vulneráveis e pediu que "não haja mais ignorância feliz".
O que vem a seguir?
No jiu-jitsu, os homens tradicionalmente ocupam posições de poder. Em geral, eles são os proprietários das academias, os instrutores que ministram as aulas e os detentores das faixas pretas.
Mas isso vem mudando: a divisão feminina adulta faixa preta no Campeonato Mundial da Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro de 2025 registrou um aumento de 40% no número de participantes em relação ao ano anterior. Em contrapartida, a participação na divisão masculina diminuiu 18%.
Mais mulheres estão ao lado dos homens na frente da sala de aula como líderes e especialistas. Como resultado, é possível que muitos praticantes de artes marciais do sexo masculino estejam mais propensos a respeitar, confiar e ver suas colegas do sexo feminino como iguais.
Quando vivem de acordo com o que podem ser, as artes marciais são um lugar onde homens e mulheres lutam juntos e se protegem mutuamente. Eles podem desenvolver amizades únicas, cultivar empatia e praticar o apoio mútuo.
Homens e mulheres tendo a oportunidade de treinar juntos na mesma academia podem levar ao que o sociólogo alemão Max Weber chamou de "verstehen": o tipo de compreensão que vem de trabalhar próximo o suficiente com alguém para entender os medos, aspirações e experiências que os motivam. Espaços que permitem essa profundidade de conexão são muito raros.
Vemos a rápida queda de Galvão, uma lenda do esporte, como um sinal de que o jiu-jitsu brasileiro pode estar progredindo em direção a uma cultura centrada no cuidado, na preocupação e na moderação, em vez de domínio e poder.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.