Investimentos em Ciência: um antídoto contra infodemia, desinformação e negacionismo
Numa análise final de sua gestão, ex-presidente da Capes reafirma que compromisso com o investimento na Ciência é, nestes tempos de infodemia, desinformação e negacionismo, uma ação de sobrevivência dos países soberanos e comprometidos com a democracia
A retomada orçamentária da Capes e das agências de fomento impulsionou a pós-graduação no Brasil, reajustando bolsas em 40% e reduzindo assimetrias regionais, com forte avanço nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste. Novos acordos editoriais também ampliaram a visibilidade global da pesquisa nacional. Para a gestão, investir de forma contínua em ciência e educação é indispensável para combater a desinformação, garantir a soberania do país e fortalecer a democracia diante dos desafios globais.
Falta muito, mas temos muito a comemorar. Esta é a sensação com a qual termino meus quase três anos de gestão na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que é a maior agência de fomento da pós-graduação do nosso país e uma das maiores do mundo.
Vou um pouco além da minha gestão para falar da retomada do papel estratégico da CAPES como um projeto de país.
Quero, de saída, afirmar que esta foi uma decisão tomada ainda durante as reuniões da equipe de transição do terceiro mandato do Presidente Lula, quando a chamada PEC da Transição recompôs o orçamento da educação e, consequentemente, o da CAPES também foi recomposto.
O atual governo, que chega ao final de 2026 aos seus quatro anos de gestão, foi obrigado a reconstituir o Projeto de Lei Orçamentária enviado ao Congresso Nacional em áreas estratégicas. E colocar a pós-graduação nessa condição foi o reconhecimento do papel que teríamos na reconstrução desse país.
A falta de investimentos na pós-graduação no Brasil era apenas uma das estratégias para fazer do país um pária frente ao mundo.
Um país submisso, importador de tecnologias e exportador de commodities, uma colônia extrativista, como durante boa parte da nossa história fomos.
Mas esse definitivamente não é o lugar do Brasil no mundo e muito menos o lugar da pesquisa brasileira no mundo. Sorte temos de sermos um Sistema Nacional de Pós-Graduação forte e resiliente e de respondermos rápido quando há um projeto de país que depende do conhecimento gerado por nós. Além de entender, é óbvio, que não se faz pesquisa sem recursos.
Foi dessa forma que, já no início de 2023, uma das primeiras ações das agências de pesquisa brasileiras, cito aqui as duas nacionais, CAPES e CNPq, foi garantir o aumento de 40% no valor das bolsas de pós-graduação, que já vinham com uma década de defasagem.
Aumentamos também o número de cidades internacionais consideradas de alto custo. Pesquisadores aprovados ou que já estavam recebendo bolsas de pós-graduação para pesquisas nessas cidades passaram a receber um valor extra de custeio. Além disso, retomamos investimentos em custeio, por meio de editais como Programa de Apoio à Pós-Graduação (PROAP) e Programa de Excelência Acadêmica (PROEX).
Redução das assimetrias
Mas a pós-graduação também sofreu mudanças de gestão que impactam principalmente em algo que é marca em todos os governos do Presidente Lula: a redução das assimetrias.
E aqui podemos ressaltar mudanças na geografia da geração de conhecimento. Os resultados da última Avaliação Quadrienal mostram que houve crescimento dos programas de excelência em todo o país. E houve um especial destaque para o crescimento no Norte: +111%; Centro-Oeste: +44%; e Nordeste: +36%.
Isso pôde ser observado também no crescimento no número de programas: Norte: +12%; Centro-Oeste: +4,9%; Nordeste: +3,4%. E nas notas: na região Norte, 35,6% dos programas subiram, e no Centro-Oeste, 31,1%.
Outro importante investimento orçamentário que já rende expressivos resultados são os Acordos de Leitura e Publicação. Esses acordos são frutos de parcerias da CAPES com grandes editoras científicas que permitem aos pesquisadores brasileiros não apenas acessar artigos científicos, mas também publicar seus próprios trabalhos sem pagar individualmente pelas taxas de publicação.
A CAPES negocia e financia esses acordos, ampliando o acesso da ciência brasileira à produção científica mundial e dando mais visibilidade internacional às pesquisas realizadas no Brasil.
E isso fez com que quase dobrassem as publicações de brasileiros nessas revistas entre 2024 e 2025, quando os novos acordos foram firmados.
Em breve, vamos poder ver o número de citações de artigos brasileiros subir mundialmente, pois a pesquisa realizada no país é reconhecidamente de excelência.
Infodemia, desinformação e negacionismo
O compromisso com o investimento na ciência é, nos tempos de infodemia, desinformação e negacionismo, uma ação de sobrevivência dos Estados nacionais soberanos e comprometidos com a democracia.
A confiança no conhecimento científico também precisa ser vista como um ativo da produção científica e a sua divulgação, um aliado do pesquisador.
Construir espaços de referência e de legitimidade para a difusão de informações comprometida com a realidade e baseada em evidências tornou-se tão importante quanto produzir a própria evidência.
De acordo com documentos recentes da Unesco: "Os ecossistemas de informação devem proporcionar escolhas informadas, liberdade, privacidade e segurança para todos, ao mesmo tempo que apoiam todos aqueles que trabalham para compartilhar informações confiáveis em prol do interesse público, bem como as vozes vulneráveis ou marginalizadas que frequentemente sofrem o impacto da desinformação e das campanhas de ódio".
Todos esses compromissos citados só são possíveis em um país que investe na ciência, na educação e também em caminhos compartilhados de proteção mútua da produção científica e da integridade da informação.
Com o crescimento da esfera pública digital e, junto a ela, o crescimento do poder global das plataformas, não podemos pensar em soluções individuais para um problema coletivo que atinge toda a população mundial.
Vejo o Brasil não só como uma liderança nessa discussão, mas como um ator fundamental nesse tabuleiro. Um país do Sul Global que viu os seus investimentos na educação e na produção científica sofrerem ataques sistemáticos por quase uma década. E que, mesmo sem apoio do governo central durante a pandemia, foi capaz de produzir conhecimento, mapear o DNA da Covid-19 e produzir vacinas em tempo recorde, reerguer sua influência e elencar prioridades em quatro anos.
A educação, a Ciência, a tecnologia e a inovação demonstraram ser um setor resiliente e de respostas rápidas aos investimentos, mas isso só foi possível por uma conjunção de fatores e também por ainda existirem universidades e centros de pesquisa autônomos.
Não sabemos e não podemos pagar para ver se sobrevivemos a mais uma década de falta de investimentos, por exemplo. É certo que ninguém tira de um povo a soberania que a ciência constrói, mas pode-se tirar o investimento que constrói a soberania.
Denise Pires de Carvalho é ex-presidente da Capes e atual diretora-geral adjunta para Ciências da UNESCO.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.