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IA não pode substituir profissionais de saúde mental, mas ainda pode fazer a diferença

À medida que mais pessoas recorrem aos chatbots em busca de apoio, novas pesquisas estão explorando um possível papel da IA na identificação dos primeiros sinais de depressão

4 ago 2026 - 11h25
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À medida em que as ferramentas de IA se tornam mais presentes na área da saúde mental, é cada vez mais importante entender onde a tecnologia pode realmente ajudar, e onde estão seus limites. Getty Images
À medida em que as ferramentas de IA se tornam mais presentes na área da saúde mental, é cada vez mais importante entender onde a tecnologia pode realmente ajudar, e onde estão seus limites. Getty Images
Foto: The Conversation

Uma pessoa acorda no meio da noite, se sentindo oprimida e precisando de alguém com quem conversar. Mas, em vez de ligar para um ente querido ou marcar uma sessão de aconselhamento, ela abre o ChatGPT.

Em todo o mundo, os chatbots de inteligência artificial estão se tornando companheiros, orientadores, ouvintes e, para um número crescente de pessoas, terapeutas não oficiais.

Estudos revelam que muitos usuários recorrem à IA para discutir dificuldades pessoais, buscar apoio emocional, refletir sobre seus sentimentos e compreender melhor sua saúde mental.

O apelo é fácil de entender. Os chatbots não julgam. Ao contrário dos serviços de saúde mental sobrecarregados em países como a Nova Zelândia e Austrália, eles não mantêm as pessoas em longas listas de espera.

Mas, à medida que as ferramentas de IA se tornam mais presentes na área da saúde mental, está se tornando cada vez mais importante entender onde a tecnologia pode realmente ajudar - e quais são seus limites.

A IA consegue reconhecer a depressão?

Os chatbots de hoje parecem ser capazes de fazer de tudo - desde responder a perguntas complexas até oferecer conselhos sobre relacionamentos -, tudo isso soando notavelmente humano e empático.

Especificamente no que diz respeito à saúde mental, pesquisas demonstram que os sistemas de IA podem fornecer informações úteis, estimular a autorreflexão e oferecer apoio emocional em algumas situações.

Alguns estudos sugerem até mesmo que ferramentas de saúde mental baseadas em IA podem ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade e depressão quando cuidadosamente projetadas e utilizadas de forma adequada. A IA também está começando a se mostrar promissora ao ajudar as pessoas a praticar o reenquadramento cognitivo, incentivando-as a considerar formas alternativas de interpretar situações difíceis.

Ao mesmo tempo, pesquisadores, profissionais da área clínica e órgãos reguladores têm levantado sérias preocupações.

Sistemas de IA podem gerar conselhos imprecisos — às vezes concordando com ou reforçando crenças prejudiciais, em vez de incentivar as pessoas a buscar ajuda adequada — e deixar passar sinais de crise.

Um sistema de IA pode parecer compreensivo, mas não consegue compreender verdadeiramente a pessoa por trás da conversa. Ao contrário dos profissionais de saúde mental, a IA não está sujeita aos mesmos padrões profissionais ou regulatórios caso algo dê errado.

Mais do que apenas fornecer informações, os cuidados de saúde mental dependem de confiança, empatia, julgamento clínico e conexão humana.

É por tudo isso que muitos especialistas veem a IA como uma ferramenta para apoiar os cuidados de saúde mental, e não como algo que possa ou deva substituí-los.

Então, onde exatamente a IA poderia ter um papel útil?

Nós, do grupo de pesquisa 2DN da Universidade de Auckland, temos investigado uma aplicação interessante: identificar sinais de depressão mais cedo.

A depressão costuma afetar a forma como as pessoas se comunicam. Mudanças na velocidade da fala, nas pausas, no tom de voz, na escolha de palavras e na expressão emocional podem fornecer pistas sobre o estado mental de uma pessoa.

Esses são exemplos do que os pesquisadores chamam de "biomarcadores digitais" - padrões mensuráveis em nosso comportamento ou fisiologia que podem fornecer pistas sobre nossa saúde. Os pesquisadores também estão investigando muitos outros, incluindo expressões faciais, padrões de sono e atividade física.

Nosso trabalho explora se a IA pode aprender a reconhecer padrões tanto na fala quanto no texto.

Em vez de diagnosticar pessoas ou substituir profissionais de saúde, o objetivo é desenvolver ferramentas que auxiliem na triagem e no monitoramento, ajudando a identificar pessoas que possam se beneficiar de uma avaliação mais aprofundada.

Isso é semelhante à forma como dispositivos vestíveis podem detectar atividades cardíacas incomuns sem substituir um cardiologista. Em vez disso, eles fornecem aos profissionais de saúde mais uma informação para ajudar na tomada de decisões.

A promessa e as armadilhas da IA

Mas a IA ainda pode ajudar nos cuidados de saúde mental de muitas outras maneiras.

Ela tem o potencial de ampliar o acesso a serviços, apoiar comunidades carentes, identificar problemas mais cedo e ajudar as pessoas a compreender e gerenciar melhor seu próprio bem-estar mental.

Ela também pode reduzir as barreiras para a busca de ajuda - e até mesmo personalizar terapias, adaptando o apoio às necessidades de cada indivíduo quando houver dados de alta qualidade suficientes disponíveis.

Mas, junto com essas oportunidades, vêm desafios óbvios.

Os dados de saúde mental estão entre as informações mais sensíveis que uma pessoa pode compartilhar. A privacidade, a segurança e o consentimento informado devem ser cuidadosamente protegidos. Os sistemas de IA também podem herdar preconceitos dos dados usados para treiná-los, o que pode afetar sua eficácia ao atender diferentes populações.

Há também o risco de dependência excessiva. Pesquisas recentes sugerem que as pessoas podem depositar confiança excessiva nos sistemas de IA, mesmo quando a tecnologia está errada.

Como a IA frequentemente responde de maneiras que parecem encorajadoras ou validantes, os usuários podem aceitar seus conselhos sem questioná-los ou procurar ajuda profissional. No contexto da saúde mental, essa confiança pode ter consequências graves.

Ainda assim, é inevitável que o papel da IA na saúde mental - assim como em várias outras áreas da vida - só venha a crescer nos próximos anos.

Seu maior valor pode estar em ajudar as pessoas a compreender melhor seu bem-estar mental e apoiar os profissionais de saúde a identificar riscos mais cedo.

A tecnologia pode reconhecer padrões. As pessoas oferecem empatia, confiança e julgamento clínico. O futuro dos cuidados de saúde mental provavelmente dependerá da combinação dos pontos fortes de ambos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Frederick Sundram recebe financiamento da Lottery Health Research, do Marsden Fund e do Health Research Council of New Zealand.

Partha Roop recebe financiamento do Health Research Council of New Zealand e do Google DeepMind para pesquisas sobre protocolos de rede.

Dushanthi Madhushika Manamalage e Reza Shahamiri não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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