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Houthis avançam no Iêmen e ampliam conflito com sauditas

11 set 2026 - 17h21
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Resumo
Rebeldes houthis intensificaram o conflito no Iêmen ao conquistar territórios estratégicos perto do Estreito de Bab el-Mandeb e trocar ataques aéreos com a Arábia Saudita. Fortalecido militarmente e apoiado pelo Irã, o grupo desafia o fragmentado governo iemenita e ameaça rotas vitais de petróleo. A escalada reacende o temor de uma guerra total, mobiliza a diplomacia regional e já provocou centenas de mortes, além de milhares de novos deslocamentos forçados em meio a uma grave crise humanitária.

Domínio de rebeldes apoiados pelo Irã em territórios próximos ao Estreito de Bab el-Mandeb pressiona iemenitas, sauditas e paquistaneses. População sofre com ataques e migração forçada.Os confrontos entre a milícia houthi e o governo do Iêmen, reconhecido internacionalmente, se intensificaram ainda mais nesta semana, à medida que o grupo apoiado pelo Irã conquistou território e trocou ataques com mísseis e drones com a Arábia Saudita.

Houthis ameaçam arrastar o Iêmen para uma guerra mais ampla entre EUA, Israel e Irã
Houthis ameaçam arrastar o Iêmen para uma guerra mais ampla entre EUA, Israel e Irã
Foto: DW / Deutsche Welle

Na quinta-feira, os houthis tomaram a cidade portuária de Mokha e, até sexta-feira (11/09), já haviam assumido o controle da cidade de Dhubab e da ilha de Perim, segundo informaram fontes do governo iemenita à agência de notícias Reuters. Mokha, Dhubab e Perim estavam sob o controle de forças alinhadas às autoridades iemenitas. Todos os três territórios estão estrategicamente localizados perto do Estreito de Bab el-Mandeb, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.

Com o bloqueio do vizinho Estreito de Ormuz pelo Irã, Bab el-Mandeb tornou-se cada vez mais importante como rota alternativa para as exportações de petróleo da Arábia Saudita. Como os houthis são aliados do regime iraniano, o controle e os possíveis ataques à navegação pelo Estreito de Bab el-Mandeb conferem à república islâmica uma vantagem adicional no conflito com os Estados Unidos e Israel.

As Forças de Resistência Nacional, alinhadas ao governo do Iêmen, anunciaram também na quinta-feira que as tropas estavam se reorganizando e consolidando as defesas em Mokha, em coordenação com outras forças anti-houthis.

O conflito também se espalhou para a Arábia Saudita, um aliado próximo dos EUA e rival regional do Irã. Nesta semana, os houthis lançaram dezenas de mísseis balísticos e drones contra quatro cidades na Arábia Saudita. Os houthis afirmaram que a monarquia saudita respondeu com dezenas de ataques aéreos em quatro províncias iemenitas.

"Na verdade, trata-se de uma guerra em grande escala", diz Farea Al-Muslimi, pesquisador especializado no Iêmen do think tank Chatham House, com sede em Londres, à DW. "[O conflito] ainda não recebeu esse nome [de "guerra"], mas estamos caminhando nessa direção a todo vapor", acrescenta Al-Muslimi.

A força dos houthis

A mais recente escalada, que teve início em julho, pôs fim a um período de relativa calma após anos de guerra. Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio para apoiar o governo do Iêmen em 2015, após a insurgência houthi de 2014. A guerra entre a milícia - que os Estados Unidos voltaram a classificar como organização terrorista estrangeira em março de 2025 - e o governo apoiado pela Arábia Saudita terminou em 2022 com um acordo de trégua mediado pela ONU. No entanto, o país permanece de fato dividido.

Os houthis controlam a capital do Iêmen, Sanaa, e a maior parte do norte do país, bem como partes do centro, e agora também grande parte do litoral ocidental, incluindo Mokha, Dhubab e Perim. O governo reconhecido internacionalmente, representado pelo Conselho de Liderança Presidencial, está sediado em Aden. Muitos altos funcionários atuam a partir da Arábia Saudita. Forças alinhadas ao governo controlam partes do sul e do leste, enquanto grupos tribais mantêm influência significativa em partes do leste.

O cenário político ficou ainda mais fragmentado em dezembro, quando separatistas apoiados pelo Conselho de Transição do Sul (STC), por sua vez apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, tomaram o controle de áreas no sul e no leste. O conflito entre a Arábia Saudita, que busca manter o Iêmen unido, e os separatistas apoiados pelos Emirados Árabes culminou no rompimento do pacto de defesa conjunta do Iêmen com os Emirados e na retirada das forças emiradenses do país. O STC foi dissolvido em janeiro.

Elham Manea, especialista em estudos do Oriente Médio e do Golfo do Instituto de Ciência Política da Universidade de Zurique, explica à DW que a situação atual é muito diferente daquela de 2015. "O movimento houthi está muito mais forte, tanto militar quanto institucionalmente, enquanto o campo que se opõe a ele, ou seja, o governo reconhecido internacionalmente, continua mais fragmentado", ", aponta Manea.

O papel do Paquistão

Manea afirma que a Arábia Saudita mudou a abordagem. Em 2015, Riad entrou na guerra em apoio ao governo deposto do Iêmen. "Agora, está fornecendo maior apoio militar, técnico e logístico ao governo reconhecido internacionalmente e às forças aliadas a ele", diz a especialista.

A questão central é se a Arábia Saudita está se preparando para uma guerra com o objetivo de derrotar o grupo houthi ou se busca alterar o equilíbrio militar, restaurar a dissuasão e, eventualmente, negociar a partir de uma posição mais forte.

"No momento, considero o segundo cenário mais provável", diz a pesquisadora da Universidade de Zurique. Al-Muslimi compartilha de uma opinião semelhante. "Os sauditas gostariam de evitar a guerra a qualquer custo", diz ele.

O Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado recentemente pela Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, ainda não foi acionado. A Reuters informou na quinta-feira que autoridades paquistanesas afirmaram que, no momento, não estava sendo discutida nenhuma resposta militar no âmbito do acordo, mas que o governo agiria quando chegasse a hora.

Alice Gower, diretora de geopolítica e segurança da consultoria política Azure Strategy, com sede em Londres, diz à DW que duvida que o Paquistão venha a se envolver diretamente no conflito. "Mas a escalada no Iêmen colocará cada vez mais à prova sua capacidade de se manter à margem", acredita ela. "Islamabad não quer entrar em conflito com o vizinho Irã e tentará preservar seu papel de mediador, ao mesmo tempo em que cumpre seus crescentes compromissos de segurança com a Arábia Saudita por meio de inteligência, assessoria e outras formas de apoio militar que não envolvam participação direta."

Número de vítimas cresce

Hans Grundberg, enviado da ONU ao Iêmen, afirmou que o país está enfrentando a "dura realidade" de um retorno à guerra.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) estimou que 377 mil pessoas morreram em consequência do conflito no Iêmen entre 2014 e o final de 2021. Dessas, aproximadamente 154 mil mortes foram causadas diretamente por combates e violência.

O conflito atual já causou a morte de cerca de 200 pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A Organização Internacional para as Migrações (OIM) também alertou que cerca de 18,5 mil pessoas foram deslocadas. "As famílias estão chegando sem nada: sem abrigo, sem comida, sem saber se é seguro voltar", contou Abdusattor Esoev, chefe da missão da OIM no Iêmen, em comunicado. "Muitas dessas pessoas já foram deslocadas uma, duas ou até quatro vezes antes. Cada vez que os combates se intensificam, elas perdem o pouco que conseguiram reconstruir", alertou ele.

Essa opinião é compartilhada por Niku Jafarnia, pesquisadora especializada no Iêmen da Human Rights Watch. "Quando se tem um país em que quase dois terços da população precisam de ajuda, qualquer aumento na precariedade e no deslocamento terá um custo real para a população civil", indica ela.

"Milhares de civis foram mortos nos combates entre a coalizão liderada pela Arábia Saudita e os houthis entre 2014 e 2022, e as partes em conflito demonstraram repetidamente um desprezo extremo pela vida civil", diz ela. "A retomada dos combates ameaça agora repetir os eventos devastadores que causaram vítimas civis nos primeiros anos da guerra", acrescenta Jafarnia.

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