Gentileza Planetária em Tempos de Barbárie: o que o filme Devorador de Estrelas tem a falar sobre nós?
*POR ALEXANDRE GOSSN
O cinema de entretenimento, em sua vertente mais industrial, costuma operar como um espelho narcísico das nossas piores pulsões. Sob o pretexto de projetar o futuro, Hollywood frequentemente limita-se a reciclar o passado colonial, inundando as telas com alienígenas que são, em essência, subprodutos culturais de uma cosmovisão hobbesiana e eurocêntrica. A lógica é perversamente simples: se somos herdeiros de um imperialismo que justificou a barbárie contra povos "descobertos" sob o bordão de que "civilizações avançadas subjugam as menores", então o espaço sideral deve ser, obrigatoriamente, um campo de extermínio.
Contudo, surge uma subversão deliciosa nesse cenário saturado de heróis monocórdicos da Marvel e do recém colorido estéril da DC. Refiro-me à adaptação de Project Hail Mary (Devorador de Estrelas), obra de Andy Weir conduzida pela dupla Phil Lord e Christopher Miller. Este não é apenas o melhor "filmão pipoca" desde Sinners; é um ensaio visual sobre a sobrevivência através da alteridade.
A Desconstrução do Inimigo Necessário
A ficção científica tradicional raramente escapa da armadilha do "alienígena malvadão". Essa figura serve para validar a nossa própria truculência. Se o "outro" é um predador implacável, a nossa violência deixa de ser escolha para se tornar uma legítima defesa antecipada (e inverídica).
Devorador de Estrelas rompe esse ciclo ao apresentar uma amizade improvável entre um astronauta terráqueo e um eridiano.
O que assistimos não é a celebração da força, mas a apologia da inteligência aplicada à colaboração. O filme nos recorda que a verdadeira sofisticação intelectual não se manifesta na capacidade de destruição, mas na propensão à gentileza. Em tempos tão "brucutus" como os atuais, onde a brutalidade é confundida com autenticidade, ver dois seres de sistemas solares distintos compartilhando humor e tecnologia para salvar suas respectivas espécies é um ato de resistência cultural.
O Neoliberalismo contra a Biologia do Afeto
É imperativo questionar a distopia ideológica em que estamos mergulhados. O neoliberalismo contemporâneo impõe uma competição desenfreada, vendendo a ideia de que a vida é uma soma zero onde o sucesso de um exige o aniquilamento do outro. Essa "meritocracia do salve-se quem puder" vai na contramão de tudo o que os grandes pensadores da nossa espécie nos ensinaram sobre a sobrevivência.
Charles Darwin, tantas vezes distorcido por defensores de um "darwinismo social" tacanho, foi enfático ao observar que as comunidades que possuem o maior número de membros simpáticos e cooperativos são as que mais prosperam. Da mesma forma, Sigmund Freud, ao explorar o mal-estar na civilização, apontava para a necessidade de o coletivo se organizar para conter as pulsões individuais em prol da preservação da vida.
O sistema atual, contudo, prefere o isolamento competitivo. Ignora-se que a colaboração não é um luxo ético, mas uma necessidade biológica.
Enquanto o mercado prega o conflito como motor do progresso, a história da evolução grita que o isolamento é o prelúdio da extinção.
O Espelho das Guerras Terrenas
Enquanto na ficção de Weir a humanidade é obrigada a colaborar para não ser extinta, a nossa realidade geopolítica parece caminhar no sentido oposto, ignorando o abismo. Olhamos para os mapas e vemos as cicatrizes abertas de uma incapacidade crônica de diálogo.
As tragédias na Síria e na Líbia, a estagnação sangrenta na Ucrânia, as tensões no Irã, o massacre contínuo na Palestina e a crise humanitária no Sudão são sintomas de uma civilização que esqueceu como construir pontes. Nestes cenários, a tecnologia não é usada para a preservação, mas para o aperfeiçoamento da morte. O "outro" — seja ele de uma nação vizinha ou de uma etnia distinta — é tratado com a mesma desumanização que os roteiristas medíocres reservam aos monstros espaciais.
Devorador de Estrelas nos coloca diante de um paradoxo educativo: no filme, a iminência do fim força a união. Na Terra de 2026, a iminência do desastre climático e nuclear parece apenas acelerar a busca por culpados e o fechamento de fronteiras.
A Lição que Vem das Estrelas
O fascínio desta obra reside na figura de Rocky, o eridiano. Rocky não é um humano em uma roupa de borracha; é uma forma de vida baseada em silício, uma "rocha" consciente que opera em frequências e necessidades biológicas radicalmente diferentes das nossas. E, no entanto, é nele que encontramos o ápice da virtude. Há uma lição profunda e quase humilhante no fato de que, em meio ao vazio interestelar, o ápice da empatia venha de um ser que sequer possui olhos. A relação entre os protagonistas é regada a uma gentileza que raramente se vê nas produções de grande orçamento, que preferem o cinismo ao afeto.
É impossível não se emocionar com Rocky. No silêncio do vácuo, ele nos ensina o que os ruídos da nossa política e economia tentam abafar: que a inteligência sem bondade é apenas uma ferramenta de obsolescência programada. A conclusão que nos assalta ao final da projeção é melancólica, porém necessária: é doloroso perceber que uma criatura feita de pedra, vinda de um mundo de trevas e pressões esmagadoras, é perfeitamente capaz de ser mais gentil, leal e ética do que a humanidade contemporânea em sua atual e caótica trajetória.
*Por Alexandre Gossn - paulistano radicado no litoral de SP, nascido em 1979, Pesquisador e Doutorando em autoritarismos contemporâneos pela Universidade de Coimbra, autor de Santo Adamastor, Fascismo Pandêmico, Chapados de Cloroquina e outros, Mestre em Direito e criador da newsletter Um olhar das Ciências Sociais.
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