Furto de vírus na Unicamp: mais de 20 cepas foram levadas
Amostras de dengue, chikungunya, zika, herpes, coronavírus, H1N1 e H3N2, entre outros, foram transferidas indevidamente de laboratório de alta segurança, diz TV. Professora e marido são suspeitos pelo furto.Ao menos 24 cepas de vírus foram transportadas sem autorização de um laboratório de alta segurança na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em fevereiro, aponta investigação da Polícia Federal (PF).
Segundo apuração do Fantástico (da TV Globo) e do portal de notícias G1, entre as variantes de vírus envolvidas no caso estão o da dengue, chikungunya, zika, herpes, Epstein-Barr (conhecido por doença do beijo), coronavírus humano, H1N1 e H3N2 (causadores da gripe tipo A). Havia ainda 13 tipos de vírus que infectam animais.
As amostras pertenciam ao Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e foram retiradas sem autorização de uma área de alto nível de biossegurança.
Segundo a investigação, a pesquisadora argentina Soledad Palameta Miller, professora doutora da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), é suspeita de ter levado o material. Outro suspeito é seu marido, o veterinário e doutorando da universidade Michael Edward Miller.
O desaparecimento das amostras foi relatado pela primeira vez em 13 de fevereiro, por uma pesquisadora autorizada do laboratório de virologia que percebeu o desaparecimento de caixas com amostras virais. A Unicamp notificou a PF em 16 de março, que abriu investigação no dia 20.
Em 21 de março, a PF realizou buscas na casa de Soledad. A PF apurou que ela retornou à Unicamp e descartou num dos laboratórios parte do material biológico, para tentar destruir evidências.
No dia 23, a PF cumpriu mandados em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), onde a pesquisadora trabalhava, e encontrou os materiais descartados. Soledad foi presa em flagrante. No dia seguinte, após pagamento de fiança, a Justiça Federal lhe concedeu liberdade provisória, e ela agora responde ao processo em liberdade, proibida de acessar os laboratórios.
Furto qualificado e fraude processual
Soledad é investigada por furto qualificado, fraude processual, perigo para a vida ou saúde e manutenção ou transporte irregular de organismos geneticamente modificados. Michael Miller é investigado pelo furto do material.
Além da FEA, as amostras foram recuperadas em outros dois prédios da Unicamp aos quais a pesquisadora tinha acesso: Laboratório de Doenças Tropicais e Laboratório de Cultura de Células, ambos no Instituto de Biologia.
A PF não encontrou indícios de contaminação externa ou terrorismo biológico e segue investigando a motivação do furto. Segundo a corporação, todas as amostras foram recuperadas. A Unicamp conduz paralelamente uma sindicância interna.
Protocolos de segurança
O Laboratório de Virologia, de onde as amostras foram retiradas, opera com níveis 2 e 3 de biossegurança, numa escala que vai até 4. As amostras extraviadas estavam na área de nível 3 (NB-3), definida como um espaço com alto risco de contágio para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. Os vírus manipulados em espaços como esses podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento.
Soledad não tinha acesso ao laboratório, mas teria contado com a ajuda de colegas, segundo as investigações.
Em nota, a Unicamp afirmou que seus laboratórios NB-3 operam "em conformidade com protocolos rígidos de segurança" e que o episódio "foi um caso isolado".
Além da PF, a a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também foi acionada, "o que possibilitou a rápida localização e apreensão dos materiais subtraídos", diz a nota.
Segundo a universidade, não há organismos geneticamente modificados dentre os materiais envolvidos, que ficaram desaparecidos por cerca de 40 dias.
Há no Brasil 12 laboratórios habilitados para trabalhar com nível 3 de biossegurança. Esses espaços exigem rotina e equipamentos de segurança mais rigorosos, o que inclui monitoramento constante, acesso restrito, cabines de segurança biológica e sistemas de barreira, como câmaras pressurizadas.
Há registros de câmeras de segurança que mostram Michael Miller saindo do laboratório NB-3 com caixas, no fim de fevereiro, que reforçaram as suspeitas de que ele teria participado do furto.
O primeiro laboratório nível 4 de segurança está em construção, em Campinas, com previsão de conclusão em 2027.
sf/md (ots, Agência Brasil)