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Fugiu da ditadura, ajudou a transformar Ipanema e virou símbolo do Posto 9: agora, Milton Gonzalez recorre à vakinha para manter sua barraca

Exilado político, sobrinho de um campeão da Copa de 1950 e fundador da tradicional Barraca do Uruguai, Milton Gonzalez viu o tratamento após uma amputação consumir a reserva financeira que manteria o negócio funcionando Quem frequenta o Posto 9, em Ipanema, provavelmente já cruzou com ele

26 jun 2026 - 11h16
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Exilado político, sobrinho de um campeão da Copa de 1950 e fundador da tradicional Barraca do Uruguai, Milton Gonzalez viu o tratamento após uma amputação consumir a reserva financeira que manteria o negócio funcionando

Quem frequenta o Posto 9, em Ipanema, provavelmente já cruzou com ele.

Sempre de sorriso no rosto, pronto para uma conversa e cercado por clientes que se tornaram amigos, Milton Gonzalez faz parte da paisagem da praia há mais de quatro décadas. Para muitos cariocas, a Barraca do Uruguai não é apenas um ponto de encontro: é uma tradição.

Mas antes de se tornar um dos personagens mais queridos de Ipanema, Milton precisou lutar pela própria liberdade.

Ex-líder sindical no Uruguai, ele foi preso e perseguido durante a ditadura militar instalada no país na década de 1970. Diante da repressão, precisou fugir clandestinamente, deixando para trás a esposa, os filhos e a própria história.

Sem saber exatamente por quê, acabou desembarcando no Rio de Janeiro em 1981.

"Vim sozinho, de forma clandestina e tive de viver nas sombras durante mais de um ano", contou em entrevista à ESPN.

Meses depois, conseguiu regularizar sua situação e trouxe a família para o Brasil.

Do exílio nasceu uma das barracas mais famosas de Ipanema

Sem profissão e precisando recomeçar a vida, Milton enxergou uma oportunidade nas areias de Ipanema.

Ao lado da esposa, Glória, decidiu levar um pedaço da cultura uruguaia para a praia carioca. Assim nasceu a Barraca do Uruguai, famosa pelos tradicionais sanduíches de linguiça, carne e frango preparados na churrasqueira.

A escolha por Ipanema também teve um toque de romantismo.

Primeiro, o casal queria conhecer o bairro eternizado pela música "Garota de Ipanema". Depois, percebeu que a faixa de areia menor aproximava vendedores e clientes. Mas foi o pôr do sol, encerrado diariamente por aplausos dos frequentadores, que convenceu a família de que aquele seria seu novo lar.

Ao longo dos anos, a barraca virou ponto de encontro de artistas, jornalistas, estudantes, políticos, surfistas e turistas.

A história de Milton ultrapassou a areia da praia e virou tema de um documentário dirigido pelo cineasta Federico Bardini e também do livro Milton Gonzalez, o uruguaio de Ipanema, escrito pelo jornalista Bruno Azevedo.

Outro detalhe curioso ajuda a entender suas raízes.

Milton é sobrinho de Matías González, zagueiro titular da seleção uruguaia campeã da Copa do Mundo de 1950, protagonista do histórico Maracanazo.

Foto: Vakinha / Vakinha

Complicações de saúde mudaram a rotina da família

Agora, aos 72 anos, Milton Gonzalez enfrenta uma batalha diferente.

Após machucar o pé na praia, o ferimento foi agravado por complicações da diabetes e acabou levando à amputação do membro.

Além do impacto emocional, o tratamento exigiu uma série de despesas médicas que consumiram praticamente toda a reserva financeira da família.

O dinheiro estava separado para substituir o caminhão utilizado diariamente no transporte de toda a estrutura da Barraca do Uruguai.

Sem o veículo, o funcionamento do negócio, que sustenta toda a família há mais de 40 anos, passa a correr risco.

Vakinha busca manter viva uma tradição carioca

Para evitar que a história construída por Milton seja interrompida, familiares, amigos e clientes criaram uma campanha de arrecadação na plataforma Vakinha.

A meta é arrecadar R$ 50 mil para a compra de um caminhão seminovo, essencial para transportar equipamentos, alimentos e toda a estrutura utilizada diariamente na praia.

Na descrição da campanha, a família resume o momento delicado vivido pelo patriarca.

"Nosso caminhão está em fase final de vida útil. Já tínhamos a reserva financeira para comprar outro, mas o tratamento de saúde do Milton consumiu esse recurso. Queremos garantir que o trabalho da Barraca do Uruguai continue."

Mais do que ajudar um comerciante, a campanha busca preservar uma história que atravessou fronteiras, sobreviveu à ditadura, recomeçou do outro lado do continente e, há mais de quatro décadas, faz parte da memória afetiva de gerações de cariocas e turistas que passaram pelo Posto 9.

Vakinha
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