Europa hesita entre pressão de Trump e ameaça do Irã
Mesmo diante do apelo dos EUA por maior envolvimento, bloco revela posições variadas e falta de consenso sobre um apoio total a Washington.A União Europeia (UE), as principais potências do bloco e o Reino Unido apelaram ao respeito pelo direito internacional e condenaram o regime do Irã pela retaliação às ofensivas de Estados Unidos e Israel contra a república islâmica.
No entanto, até agora, os europeus não conseguiram articular uma abordagem comum. O continente se mostrou dividido e incapaz de agir no conflito do Oriente Médio, que pode ter consequências para a Europa e para o mundo.
A dúvida é se, após o ataque com drones do Irã ao Chipre - um território da UE - e as contínuas ofensivas da nação persa a ativos nos países do Golfo, a Europa poderá continuar em cima do muro?
Especialistas apontam que as potências europeias estão adotando uma estratégia defensiva, em vez de se envolverem militarmente.
Cornelius Adebahr, pesquisador associado do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP, na sigla em alemão), afirma que os países da União Europeia e o Reino Unido estão alinhados quando se trata de adotar medidas defensivas caso algum Estado europeu seja alvo de um ataque, além de apoiar as nações do Golfo com o que estiver ao alcance.
Ainda assim, ressalta ele, há divergências quanto aos objetivos de guerra de Trump e sobre até onde os europeus deveriam ir no apoio às ações dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
"Não haverá uma posição unificada sobre a guerra", diz Adebahr à DW. "Por outro lado, nenhum dos Estados-membros entrará diretamente na guerra. Eles não vão desempenhar um papel ativo ao lado dos EUA ou de Israel."
Europa sob pressão dos EUA
Na quarta-feira (04/03), a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, advertiu que o presidente dos EUA, Donald Trump, espera que "todos os nossos aliados europeus" apoiem EUA e Israel na guerra contra o Irã.
Segundo ela, o objetivo é "esmagar o regime iraniano desonesto que não só ameaça os Estados Unidos, mas também nossos aliados europeus". O comunicado veio após Trump ter demonstrado irritação com o atraso no apoio europeu à guerra.
"Não estamos lidando com Winston Churchill", disse Trump sobre o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, que havia afirmado antes que o Reino Unido não acreditava em "mudanças de regime a partir dos céus". Starmer expressou dúvidas sobre a legalidade da guerra, embora tenha permitido que os EUA usassem duas bases britânicas.
O Reino Unido não faz parte da União Europeia, mas é membro da E3, juntamente com a França e a Alemanha, que são cossignatárias do acordo nuclear entre os EUA e o Irã e arquitetas da política conjunta da UE em relação ao país dos aiatolás.
Em comparação, o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, recebeu elogios na visita à Casa Branca, na última quarta-feira (04/03). Trump descreveu o premiê alemão como um "excelente líder", que permitiu que as forças americanas usassem a Base Aérea de Ramstein, na Alemanha.
A França, por sua vez, autorizou a presença temporária de aviões americanos em algumas bases francesas. No entanto, a permissão só foi concedida depois que a França obteve garantias de que as aeronaves não seriam utilizadas para realizar ataques contra o Irã e operariam exclusivamente em "apoio à defesa de nossos parceiros na região", informou um funcionário francês citado pela Reuters.
Já a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou que ainda não recebeu nenhum pedido dos EUA para utilizar as bases no país. No entanto, a Itália disse que poderá fornecer sistemas de defesa aérea aos países do Golfo.
Para Antonio Giustozzi, do think tank Royal United Services Institute (RUSI) em Londres, permitir o uso limitado das bases foi "um compromisso sob pressão dos EUA para fazer alguma coisa".
De que forma o Irã representa uma ameaça para a Europa?
O ataque com drones iranianos a uma base da força aérea britânica no Chipre assustou os europeus, que correram em apoio ao país, com Itália, Grécia, Holanda e França enviando navios de guerra para a ilha no Mediterrâneo.
"O Irã está bem ciente de que se trata de um ataque a um Estado da UE. Mas parece ser esse o objetivo. Teerã parece determinada não só a expandir a guerra para os Estados do Golfo Pérsico, mas também para a Europa", afirma Trita Parsi, cofundador e vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft.
Ele citou o ataque a uma base francesa nos Emirados Árabes Unidos e disse que, do ponto de vista do Irã, "para que a guerra possa terminar, a Europa também tem que pagar um preço, esse parece ser o raciocínio".
Por outro lado, o chefe da Otan, Mark Rutte, apontou Teerã como uma ameaça não só para Israel, mas também para a Europa.
Ele descreveu o Irã como "um exportador de caos" responsável por "conspirações terroristas e tentativas de assassinato, inclusive contra pessoas que vivem em solo europeu".
Há outras preocupações, incluindo o aumento acentuado dos preços da energia e a potencial migração do Irã para a Europa através da Turquia. A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que, embora ainda não haja pressão migratória, o bloco deve se preparar caso a guerra se prolongue.
Alguns especialistas acreditam que a Europa poderá enfrentar uma ameaça ainda maior se decidir se envolver diretamente com o Irã.
"Se os europeus se envolverem, então poderá haver uma ameaça. Essa é uma preocupação britânica e francesa", explica Giustozzi, do RUSI.
"Essa não é a nossa guerra"
Para Adebahr, da DGAP, o bloco europeu carece de coerência, com os países perseguindo seus interesses nacionais e priorizando a opinião pública interna.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, opôs-se veementemente à guerra e recusou qualquer acesso dos EUA às suas bases para atacar o Irã. Desde então, Trump ameaçou cortar as relações comerciais com o país.
Alguns consideraram a posição da Espanha corajosa, mas Adebahr diz que o país está isolado em sua oposição total à guerra. Segundo ele, essa é uma postura relativamente fácil para o primeiro‑ministro espanhol, que lidera um partido socialista que critica as guerras de Israel - e onde apenas cerca de 15% da população tem uma visão favorável de Trump.
A política da Alemanha parece estar no outro extremo do espectro.
"Sentado na Sala Oval, o chanceler alemão parecia estar preocupado apenas com os interesses alemães. Ele parece estar focado em como a Alemanha pode se dar bem com os Estados Unidos", pontua Adebahr.
Especialistas afirmam que a maior parte dos países europeus está focada na Ucrânia e nas consequências econômicas do desgaste nas relações transatlânticas. "Há um sentimento de que 'essa guerra não é nossa, temos que nos preocupar com a Ucrânia'", acrescentou o pesquisador do DGAP.
Nesse contexto, Kallas, o chefe das Relações Exteriores da UE, afirmou que o conflito no Irã prejudica a Ucrânia, já que o equipamento militar necessário na guerra com a Rússia será transferido para o Oriente Médio, como os sistemas de defesa aérea.
Além disso, ela alertou que, com o aumento dos preços do petróleo e a redução do fluxo de combustível fóssil pelos países do Golfo que estão sob ataque, a Rússia encontrará mais compradores para seu petróleo bruto. Esse dinheiro pode encher os cofres da Rússia, ajudando o país a manter os ataques à Ucrânia e a Europa em alerta.