EUA vazam dados de sobreviventes da rede Epstein na internet
Autoridades prometeram revisar censuras após documentos revelarem informações que identificavam vítimas de abuxo sexual. Investigação da DW constatou que elas continuam disponíveis.Diante de parlamentares dos Estados Unidos, uma sobrevivente de abuso sexual contou como suas informações pessoais acabaram expostas publicamente em janeiro, quando o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) divulgou centenas de milhares de documentos relacionados ao financista Jeffrey Epstein.
"Não consigo viver sem olhar por cima do ombro", disse. "Só posso imaginar o impacto de longo prazo que esse erro terá na minha vida."
Segundo um advogado do DOJ, um "erro humano ou técnico" foi um dos fatores que levaram à publicação de informações pessoais, que permitiam identificar pessoas que sofreram abusos sexuais cometidos por Epstein e seus associados, junto com o maior de 12 conjuntos de dados sobre o caso.
Como resultado, o DOJ afirmou que removeria, revisaria e ocultaria as informações sensíveis dos documentos sinalizados antes de republicá-los.
A DW passou meses analisando milhares de documentos divulgados pelo DOJ. Nos seis meses desde a publicação, a reportagem identificou dezenas de arquivos que ainda continham informações, incluindo nomes, rostos e endereços de e-mail, que poderiam ser usadas para identificar sobreviventes, testemunhas e informantes, entre outros.
Biblioteca Epstein do DOJ
Em meados de fevereiro, a DW havia coletado mais de 800 mil arquivos da Biblioteca Epstein do DOJ. A tarefa era desafiadora porque o acervo estava em constante mudança: novos arquivos eram adicionados, outros removidos, e versões modificadas reapareciam após dias de ausência.
A DW obteve, então, um conjunto anterior de documentos, arquivados por um projeto público de preservação de dados no GitHub. Foi só então que percebemos que mais de 500 mil arquivos haviam sido removidos entre os primeiros dias da divulgação e o momento em que realizamos nossa coleta.
Para verificar o conteúdo da divulgação original, a DW gerou uma impressão digital única, conhecida como hash, para cada documento. Os hashes confirmam que um documento corresponde ao original e não foi alterado.
Ao comparar essas impressões digitais com documentos coletados do site do DOJ cerca de duas semanas depois, a DW conseguiu determinar quais arquivos correspondiam aos originais, bem como identificar documentos que haviam sido removidos do site do DOJ.
A DW também constatou que alguns arquivos haviam mudado, porque a impressão digital já não era a mesma: tinham o mesmo nome, mas estavam maiores ou menores que o original. Ao analisar esse subconjunto, verificamos que se tratava de arquivos que receberam ocultações adicionais ou aos quais foram acrescentadas informações.
Em um caso, uma sobrevivente descreveu em depoimento a advogados como Epstein a abusou durante anos quando ainda era menor de idade.
Seu nome havia sido ocultado em toda a transcrição, até a última página, quando um advogado agradeceu seu depoimento e mencionou seu nome, que continuava sem ocultação no momento da publicação desta reportagem. O caso dela não foi isolado.
Análise aprofundada de áudio
Para analisar arquivos de áudio, incluindo declarações de vítimas e denúncias, a colaborou com o grupo de pesquisa em Distribuição de Mídia e Segurança (MDS) do Instituto Fraunhofer de Tecnologia de Mídia Digital, em Ilmenau, na Alemanha. O MDS é especializado em autenticidade de áudio, detecção de manipulação e identificação de fala sintetizada.
Após remover arquivos duplicados tanto do projeto público de preservação de dados quanto da coleta realizada pela DW, restaram mais de 150 arquivos de áudio, analisados pelos pesquisadores forenses do MDS com ferramentas de última geração desenvolvidas pelo instituto. Eles detectaram vestígios digitais deixados por processos de produção e edição de áudio que, em alguns casos, são inaudíveis ao ouvido humano.
Isso incluiu a identificação de trechos de gravações que haviam sido modificados ou reutilizados, a determinação de se uma gravação era uma versão alterada de outro arquivo e a avaliação de se diferentes arquivos de áudio poderiam ter sido gravados com o mesmo microfone ou configuração de gravação.
A pesquisadora forense de áudio Milica Gerhardt observou algo incomum: os estilos de ocultação variavam entre os arquivos, assim como havia inconsistências na forma como as ocultações foram realizadas.
"Se observarmos o conteúdo desses arquivos de áudio, é possível ver que muitas informações pessoais não foram ocultadas", afirmou.
Em um caso, uma pessoa ligou para uma linha telefônica oficial de denúncias para fornecer informações que seriam usadas em uma investigação sobre os abusos cometidos por Epstein. Na versão editada, era possível ouvir o nome da pessoa, enquanto seu número de telefone havia sido encoberto por um sinal sonoro.
O mesmo conjunto de dados, no entanto, também continha uma versão diferente do arquivo de áudio, na qual era possível ouvir tanto o nome completo quanto o contato direto da pessoa. Testemunhas ou informantes em potencial aparentemente não foram incluídos nas proteções concedidas às vítimas.
"Eles poderiam e deveriam ter feito um trabalho melhor nas ocultações", aponta Patrick Aichroth, líder do grupo MDS no Instituto Fraunhofer, que já prestou consultoria sobre evidências de áudio para autoridades judiciais na Alemanha. "Existe uma razão para que esse tipo de material seja tratado com tanto cuidado em processos judiciais. Uma vez que informações sensíveis ou capazes de identificar alguém são divulgadas, o dano não pode ser desfeito."
Falhas do DOJ na proteção de dados
A DW confrontou o DOJ com suas conclusões, incluindo exemplos em que informações de identificação pessoal de sobreviventes continuavam presentes na Biblioteca Epstein oficial. O departamento não respondeu.
Em abril, o Escritório do Inspetor-Geral do DOJ, órgão independente responsável por investigar condutas irregulares dentro do departamento, anunciou que estava "iniciando uma auditoria sobre a conformidade do DOJ com a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein".
"Nosso objetivo preliminar é avaliar os processos do DOJ para identificar, ocultar e divulgar registros sob sua posse, conforme exigido pela lei", afirmou o órgão em comunicado.
Sobreviventes cujas informações foram divulgadas sem ocultação relatam episódios de assédio, humilhação e ameaças físicas. Como os dados divulgados publicamente continuam disponíveis em plataformas abertas e, em alguns casos, ainda permanecem no site do DOJ, o impacto segue afetando profundamente suas vidas.
"Enquanto os ricos e poderosos continuam protegidos por ocultações, meu nome foi exposto ao mundo", disse a sobrevivente de abuso sexual que prestou depoimento ao Congresso em maio.
"As provas estão aqui", afirmou. "Ainda assim, aqueles que estão no poder prefeririam que morrêssemos social, emocional e fisicamente a admitir a própria cumplicidade."
Em julho, parlamentares apresentaram a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein II, que permitiria a sobreviventes de abuso sexual e aos governos dos estados americanos processarem o DOJ por não cumprir as regras estabelecidas pela legislação original, a qual garantia a proteção das informações de identificação pessoal dos sobreviventes.
Colaboraram Andreas Giefer, Gianna Grün, Rodrigo Menegat Schuinski e Birgitta Schülke.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.