EUA: Pai é condenado por dar fuzil a filho que matou quatro pessoas em escola
Juiz apontou que americano de 55 anos "falhou como pai" e foi negligente ao presentear filho de 14 anos com fuzil de assalto AR-15, que foi então usado pelo jovem para matar quatro pessoas, entre alunos e professores.Um pai que deu ao filho um fuzil de assalto usado para matar dois alunos e dois professores numa escola dos Estados Unidos em 2024 foi condenado na quinta-feira (31/07) a 15 anos de prisão.
A sentença de Colin Gray, de 55 anos, foi proferida poucos dias após seu filho, Colt Gray, hoje com 16 anos, ter sido condenado à prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, pelo ataque na Apalachee High School, no estado da Geórgia.
Colin Gray foi considerado culpado de dois crimes: homicídio culposo, pela morte dos professores Richard Aspinwall, de 39 anos, e Cristina Irimie, de 53 anos; e homicídio em segundo grau, definido pela legislação da Geórgia como causar a morte de um menor de idade ao cometer crime de crueldade, pelas mortes dos estudantes Mason Schermerhorn e Christian Angulo, ambos de 14 anos.
Outro professor e oito estudantes ficaram feridos. Sete deles foram atingidos por disparos.
A Promotoria solicitara pena de 80 anos de prisão contra o pai. Esta foi a primeira vez no estado da Geórgia em que um pai foi judicialmente responsabilizado por um ataque a tiros cometido pelo filho. Nos Estados Unidos, outros pais já enfrentaram acusações criminais pelo mesmo motivo.
O juiz Nicholas Primm, que também sentenciou Colt, disse a Colin: "Está claro que você falhou como pai." No entanto, ponderou que punir crimes decorrentes de negligência é especialmente difícil, pois não houve intenção de cometer um crime.
"Meu coração sofre por todos que estavam lá naquele dia, por todos os que foram impactados por isso. Mas a lei exige que eu deixe as emoções de lado. Não posso sentenciar com base na paixão. Tenho a tarefa quase impossível de condená-lo sem paixão, apesar da imensurável dor que você causou."
Promotoria: Pai ignorou alertas
Segundo a Promotoria, Colin Gray deu ao filho o fuzil de assalto AR-15 como presente de Natal, junto com munição, uma mira e outros acessórios para tiro.
O jovem, então com 14 anos, teria levado o rifle semiautomático para o ônibus escolar com o cano envolto em cartolina, mas visível. Depois, ele teria deixado a sala de aula, foi a um banheiro, voltou armado e atirou contra pessoas no corredor e em uma sala de aula.
De acordo com testemunhos apresentados no processo, Colt vinha demonstrando sinais de deterioração da saúde mental nas semanas anteriores ao crime. Um investigador também afirmou que ele fazia parte de uma comunidade online voltada para casos de crimes violentos, na qual jovens discutiam sua obsessão por autores de massacres.
"Você foi condenado porque os sinais de alerta estavam ficando cada vez mais evidentes, e você não buscou ajuda para ele nem retirou seu acesso às armas", concluiu Primm.
A mãe do adolescente, Marcee Gray, separada de Colin, disse aos investigadores que havia discutido com o ex-marido semanas antes do ataque. Ela teria então pedido que ele guardasse adequadamente as armas e restringisse o acesso do filho a elas.
"Ataque poderia ter sido evitado"
A defesa do pai pediu ao juiz uma pena de dez anos de prisão, seguida de dez anos em liberdade condicional. Segundo seu advogado, Colt "escondeu ativamente a profundidade de seu envolvimento" na comunidade online obcecada por autores de massacres, e os sinais de alerta destacados pela acusação eram exceções entre momentos positivos.
A promotoria rebateu afirmando que Colin ignorou "um risco substancial e injustificável". "Esse era o risco que ele estava ignorando: a possibilidade de ocorrer um massacre em uma escola. E ele deu ao filho exatamente a ferramenta necessária para realizá-lo", afirmou um promotor.
Familiares das vítimas e sobreviventes do ataque, muitos dos quais também falaram durante a audiência de sentença de Colt, argumentaram que o ataque poderia ter sido evitado.
"Ele não puxou o gatilho, mas comprou e deixou uma arma acessível a um menor", disse Shayna Aspinwall, viúva de um dos professores mortos. Segundo ela, a sentença deveria levar em conta "as famílias que ficaram para trás e que terão de carregar o luto e o trauma pelo resto de suas vidas".
Casos semelhantes nos EUA
Num país onde centenas de ataques armados contra escolas acontecem ao ano, promotores têm atuado nos últimos anos para responsabilizar criminalmente os pais dos seus autores.
Jennifer e James Crumbley foram os primeiros pais dos EUA a enfrentar esse tipo de acusação. O filho deles, Ethan Crumbley, matou quatro estudantes e feriu outras pessoas na escola Oxford High School, no estado de Michigan, em 2021.
Assim como o pai de Colt, eles afirmaram não ter conhecimento dos planos do filho. Mas haviam lhe dado uma arma antes do ataque. Ambos cumprem penas de dez anos de prisão por homicídio culposo.
O advogado de Colin pediu ao juiz que utilizasse esse precedente como referência para a sentença, a fim de evitar a condenação mais longa solicitada pela Promotoria.
O magistrado classificou esses casos como "divisivos". Segundo ele, não teria havido crime por parte do pai se o filho não tivesse levado uma arma para a escola e atirado contra outras pessoas.Ainda assim, ressaltou que Colin poderia ter mantido as armas trancadas, retirado a munição de casa, deixado as armas sob os cuidados de terceiros e providenciado acompanhamento psicológico para o filho.
Segundo levantamento da K-12 Shooting Database, já ocorreram 102 ataques armados em escolas neste ano nos EUA. Houve uma alta de casos a partir de 2021, com 1.240 pessoas mortas ou feridas desde então. O pico anual de incidentes reportados alcançou 352 ataques em 2023.
ht (Reuters, AP)
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