Estudantes ampliam protestos e pressionam governo francês
Há três semanas, dezenas de milhares de estudantes protestam na França contra a precarização do ensino, salas cheias e a repressão policial, bloqueando escolas e marchando em várias cidades. O movimento, marcado por confrontos e milhares de detidos, virou tema central da disputa eleitoral de 2027. Em resposta à crise, o governo prometeu reformas e um plano de emergência, mas as lideranças estudantis consideraram as medidas insuficientes e convocaram novos atos para os próximos dias.
As manifestações, que já duram três semanas, incluem fechamento de escolas e denúncias de repressão durante os atos. Governo promete medidas emergenciais.Dezenas de milhares de estudantes voltaram às ruas para protestar em diversas cidades da França nesta quinta-feira (08/10), ampliando uma mobilização que já dura três semanas e se tornou um dos principais desafios políticos para o governo a poucos meses da eleição presidencial de 2027.
Os manifestantes denunciam a falta de professores, salas de aula superlotadas, prédios escolares em más condições e um sistema educacional que, segundo eles, não consegue responder às necessidades dos estudantes. Também criticam o que consideram uma atuação excessivamente violenta da polícia durante os protestos.
Alunos bloquearam a entrada de centenas de escolas de ensino médio em todo o país, enquanto marchas foram realizadas em cidades como Paris, Lille, Rennes, Nantes, Toulon e Marselha.
Na capital francesa, dezenas de milhares de estudantes se concentraram na Praça da Bastilha. Alguns subiram ao monumento central, agitando bandeiras francesas e cantando o hino nacional.
Houve confrontos entre policiais e manifestantes. As forças de segurança avançaram sobre grupos presentes na praça, utilizaram canhões de água e recorreram a gás lacrimogêneo para dispersar os participantes dos atos.
Embora a maior parte das manifestações tenha ocorrido de forma pacífica, também foram registrados confrontos em Nantes. Em Rennes, a polícia utilizou canhões de água e dispersou manifestantes. Em vários pontos do país, houve episódios de vandalismo, com danos ao mobiliário urbano e incêndios de objetos.
Desde o início da mobilização, centenas de estudantes, professores e policiais ficaram feridos, enquanto mais de 6,5 mil pessoas, a maioria menores de idade, foram detidas.
Na segunda-feira, um estudante de 15 anos perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada de efeito moral utilizada pela polícia. Após o episódio, o governo suspendeu o uso desse tipo de armamento no controle dos protestos. A polícia abriu 18 investigações internas para apurar denúncias de abuso e má conduta.
Governo promete medidas urgentes
Diante da pressão, o ministro da Educação, Edouard Geffray, anunciou que lançará um plano emergencial para garantir a substituição de professores ausentes e revisar a carga horária dos estudantes.
Na França, não é incomum que alunos tenham aulas das 8h às 18h, além de uma quantidade significativa de tarefas escolares. O ministro também prometeu mudanças no Parcoursup, plataforma nacional de acesso ao ensino superior frequentemente criticada por estudantes por ser considerada complexa.
Na quarta-feira (07/10), o primeiro-ministro Sebastien Lecornu prometeu apresentar até o fim de outubro respostas às reivindicações dos estudantes, sem detalhar as medidas.
A promessa não convenceu as lideranças do movimento, que convocaram novos protestos para a próxima terça-feira. Também circulam nas redes sociais convocações para uma nova jornada nacional de mobilizações em 17 de outubro.
"Nossas reivindicações precisam ser ouvidas. Ontem, o senhor Lecornu nos ofereceu apenas palavras vazias", afirmou Ryad Rani, dirigente de um dos sindicatos estudantis. "A mobilização vai continuar. Não vamos recuar em nada."
Dados do Ministério da Educação, porém, indicam que o número de escolas bloqueadas pelos manifestantes vem diminuindo. Segundo o governo, 224 estabelecimentos estavam parcial ou totalmente fechadas pela manhã, número que caiu para 157 até o horário do almoço. A pasta afirma, porém, que 96% das escolas do país permaneceram abertas.
Protesto vira tema eleitoral
Os protestos expuseram uma tensão crescente entre a demanda por mais investimentos em serviços públicos e as restrições orçamentárias enfrentadas pelo governo francês, pressionado a reduzir a dívida e o déficit público.
O ministro da Economia, Roland Lescure, afirmou nesta semana que existe margem para atender parte das reivindicações por mais recursos para a educação, apesar das limitações do orçamento de 2027.
A onda de protestos ocorre a poucos meses da eleição presidencial que definirá o sucessor de Emmanuel Macron. A crise aprofundou a polarização entre os principais candidatos. A líder da ultradireita Marine Le Pen tem enfatizado os danos causados por uma minoria de manifestantes e defende cortes nos gastos públicos. Já o candidato da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon elogiou os estudantes e denunciou a violência policial.
O desempenho da educação francesa também tem alimentado o debate. Embora o país invista 24% mais por aluno no ensino médio do que a média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), aplica proporcionalmente menos recursos nas etapas iniciais de ensino. A França registrou ainda seu pior resultado histórico no Pisa, exame internacional que avalia estudantes de 15 anos, desde o início da série, em 2000.
gq/ra (Reuters, AFP, AP)
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