Estudante com paralisia cerebral se forma no Sertão de PE com pesquisa sobre IA
Daniel Antônio utiliza rastreamento ocular para se comunicar e levou a própria experiência com acessibilidade para a pesquisa acadêmica.
Com paralisia cerebral, Daniel Antônio da Conceição Silva, de 29 anos, formou-se em Sistemas para Internet no IFSertãoPE, em Salgueiro. Usuário de rastreamento ocular para se comunicar, ele transformou sua vivência em um TCC que avaliou cinco sistemas de inteligência artificial para síntese de voz em português. O estudo concluiu que a escolha ideal da ferramenta depende das demandas individuais de cada usuário, unindo rigor acadêmico à experiência prática em tecnologias assistivas de acessibilidade.
A experiência de se comunicar por meio dos olhos levou Daniel Antônio da Conceição Silva, de 29 anos, a investigar como a inteligência artificial pode ajudar outras pessoas a se expressar. Com paralisia cerebral, ele concluiu o curso de Tecnologia em Sistemas para Internet no Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), em Salgueiro, e dedicou o trabalho de conclusão de curso à síntese de voz. A apuração é do g1.
A formatura aconteceu em 20 de maio de 2026. Na cerimônia, o campus reuniu 32 concluintes dos cursos de Sistemas para Internet, Licenciatura em Física e Tecnologia em Alimentos, acompanhados por familiares, amigos e servidores da instituição.
Na graduação, Daniel transformou uma questão presente no cotidiano em objeto de pesquisa: as possibilidades de tornar mais natural a voz produzida por ferramentas de comunicação. O trabalho está disponível no repositório acadêmico do instituto.
Pesquisa compara ferramentas de voz
O estudo analisou cinco sistemas de síntese de voz com inteligência artificial e suporte ao português brasileiro: ElevenLabs, deAPI.ai, Google Cloud TTS, Coqui TTS e Piper TTS.
A avaliação combinou critérios técnicos e testes de compreensão da fala, incorporando também a experiência de Daniel como usuário de comunicação aumentativa e alternativa.
Entre os resultados, a pesquisa identificou vantagens diferentes nas ferramentas. Algumas oferecem maior naturalidade e personalização da voz, enquanto outras se destacam pela privacidade e pela possibilidade de funcionar sem conexão com a internet.
A conclusão aponta que não existe uma solução superior para todas as situações. A escolha depende das necessidades de cada pessoa, dos recursos disponíveis e do contexto de utilização.
Tecnologias ampliaram a autonomia
A parceria com o professor Marcelo Santos, orientador do TCC, começou antes da graduação, durante o ensino médio. Ao longo desse percurso, os dois testaram recursos para facilitar a escrita e o acesso de Daniel ao computador.
Uma das alternativas foi uma ponteira de cabeça, que não se mostrou adequada. Posteriormente, o uso de um teclado com sensor de piscadelas permitiu que ele escrevesse com maior independência.
Com novos testes, o tempo necessário para produzir uma frase caiu de aproximadamente dez para cinco minutos. Atualmente, Daniel utiliza rastreamento ocular para digitar, abrir programas e se comunicar sem depender de outra pessoa para falar por ele.
Apoio começou na educação básica
A trajetória escolar também teve a participação da professora Ana Maria dos Santos. Ela incentivou a matrícula de Daniel na rede municipal quando ele tinha nove anos e participou da mobilização para conseguir sua primeira cadeira de rodas.
Alfabetizado aos dez anos, ele seguiu os estudos até chegar à formação superior. Ao concluir a graduação, passou a reunir a experiência de quem utiliza tecnologias de acessibilidade e o conhecimento acadêmico para avaliar como elas podem atender diferentes usuários.
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