Entenda as causas e as funções biológicas das lágrimas emocionais humanas
Única espécie a chorar por sentimentos, seres humanos utilizam o choro como mecanismo de regulação interna e sinalização social de vulnerabilidade
O choro e as lágrimas motivados por estados afetivos — como tristeza, sobrecarga ou alegria — são uma característica exclusiva da espécie humana. Embora diversos animais emitam sinais sonoros de alerta quando filhotes, eles não possuem as conexões cerebrais necessárias para produzir secreções oculares em resposta a emoções complexas. Pesquisadores de diferentes centros globais buscam desvendar por que esse comportamento evoluiu e como ele impacta o organismo.
De acordo com a pesquisadora Marie Bannier-Hélaouët, do Instituto de Biologia Humana na Suíça, a lágrima é composta por água, muco, lipídios, eletrólitos e proteínas. Estas últimas atuam como agentes antivirais e antibacterianos, enquanto os eletrólitos garantem o equilíbrio mineral necessário para a saúde ocular.
A ciência classifica as lágrimas em três categorias principais:
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Basais: Camada contínua que lubrifica e protege a córnea.
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Reflexas: Produzidas em resposta a estímulos externos e irritantes, como poeira ou corpos estranhos.
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Emocionais: Ativadas por áreas cerebrais ligadas ao processamento de sentimentos, que enviam sinais ao núcleo lacrimal por meio de vias neurológicas específicas e sofisticadas.
Estudos conduzidos pela psicóloga clínica Lauren Bylsma, da Universidade de Pittsburgh, utilizam sensores cardíacos para monitorar as reações corporais durante o choro. Os dados preliminares indicam que, imediatamente antes das lágrimas, há um pico de atividade no sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de "luta ou fuga".
Com o início do choro, ocorre a ativação do sistema nervoso parassimpático, associado ao relaxamento e à recuperação do equilíbrio. Esse mecanismo explica por que muitos indivíduos relatam sensação de alívio após o ato. Contudo, o professor emérito Ad Vingerhoets ressalta que esse benefício depende da natureza do gatilho: situações sob controle individual tendem a gerar melhora no humor, enquanto quadros de depressão ou esgotamento (burnout) podem não apresentar o mesmo efeito.
As lágrimas funcionam como um ponto de exclamação nas interações humanas, servindo como um sinal visual de que o indivíduo necessita de auxílio. Pesquisas sugerem que essa sinalização reduz a agressividade em terceiros e aumenta a percepção de confiabilidade e empatia.
No que diz respeito à frequência, estudos indicam que mulheres choram, em média, de quatro a cinco vezes por mês, contra zero a uma vez entre os homens. Embora o comportamento aprendido influencie esses dados, especialistas apontam que traços de personalidade, como neuroticismo e altos níveis de empatia, além de fatores hormonais e neurológicos, desempenham papel determinante na reatividade emocional de cada indivíduo.