Encalhada? Não: seletiva! O estigma das mulheres solteiras após os 40 anos
Em uma sociedade que cobra relacionamentos como troféus, estar só ainda é visto como fracasso — quando pode, na verdade, ser um sinal de liberdade e autocuidado
"Você ainda não casou? Ah, está encalhada, com certeza!" — a frase, muitas vezes acompanhada de um olhar de pena ou surpresa, revela mais sobre os padrões sociais do que sobre a mulher que a recebe. Em pleno século 21, mulheres solteiras acima dos 40 anos continuam sendo vistas como "encalhadas", como se o fato de não estarem em um relacionamento as tornasse incompletas ou menos valiosas.
O termo "encalhada" carrega um julgamento silencioso, mas profundo. Ele sugere que existe uma idade-limite para amar e ser amada — e que, ao ultrapassá-la sem um par, a mulher teria falhado em sua missão principal. Por décadas, o imaginário coletivo reforçou que o sucesso feminino está ligado ao casamento, à maternidade e ao cuidado com o outro. Ser solteira, então, seria sinônimo de fracasso ou rejeição.
Ser seletiva com relacionamentos ainda significa estar 'encalhada'
Julgamentos à parte, a realidade é outra: muitas mulheres optam, consciente e livremente, por permanecer solteiras. Não por falta de oportunidades, mas por autoconhecimento. Elas se recusam a aceitar relações limitantes, desequilibradas ou tóxicas apenas para preencher uma expectativa social. A liberdade de estar só, em vez de temida, deveria ser respeitada — ou melhor, celebrada.
É preciso repensar o conceito de "desencalhar". Ele não deve se referir a conseguir um parceiro, mas sim a libertar-se de pressões externas, da necessidade de aprovação constante e da exaustão emocional que vem ao tentar atender a padrões inalcançáveis. A solteirice não é um castigo; é um estado de presença e, muitas vezes, de cura.
No livro 'Encalhada? Não! Eu escolho, a autora Adrielle Lopes dá nome ao incômodo e questiona as narrativas ultrapassadas. Com base em experiências pessoais dentro de um relacionamento abusivo, Lopes conduz uma conversa sobre autoestima, espiritualidade, maturidade e a liberdade de fazer escolhas conscientes. Segundo a especialista, nenhuma mulher precisa de outra pessoa para sentir-se plena. "O amor-próprio não é egoísmo, mas o reconhecimento de que você é digna de amor, cuidado e respeito. Sem isso, qualquer relacionamento será baseado em expectativas irrealistas ou carências, e não em um amor verdadeiro, que nasce da aceitação plena de quem você é", explica.