Na Globo, Augusto Cury fala em taxar bets, diz que 'mundo vai virar de ponta cabeça em 5 anos' e cita necessidade de investir em IA
Candidato do Avante é o sexto entrevistado da série de sabatinas promovidas após o Jornal Nacional com os presidenciáveis
O candidato Augusto Cury (Avante) é o sexto e último a participar da série de sabatinas com os presidenciáveis promovidas pela TV Globo na noite deste sábado, 29. Na entrevista conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, ele fala sobre taxar bets, afirma que 'mundo vai virar de ponta cabeça em 5 anos' e cita necessidade de investir em IA.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
A bancada da Globo começou a entrevista trazendo o assunto que foi tratado com todos os demais candidatos: a dívida pública do Brasil. Em junho deste ano, a Dívida Bruta do Governo Geral avançou para 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), alcançando R$ 10,4 trilhões no mês. Esse é o maior valor desde abril de 2021, quando a dívida estava em 82,62% do PIB. Esse montante engloba dívidas do governo federal, da Previdência Social (INSS), e dos governos estaduais e municipais. "Para qual percentual do PIB você se compromete a trazer essa dívida, se eleito?", perguntou Tralli.
Cury elencou uma série de estratégias: ter 10 milhões de microempresas financiadas para aumentar a massa de pagamentos de impostos; promover uma séria auditoria na gestão pública; reaver cerca de 50 mil cargos comissionados para cortar o que não é essencial; combater seriamente a corrupção; ajustar o Bolsa Família para possibilitar que a família tenha uma segunda renda sem perder o benefício; e "taxar seriamente as bets".
Os jornalistas apontaram que esses ajustes ainda passam distante da realidade do problema. Em resposta, Cury reforça a questão da taxação das bets e vê isso como a solução para desafogar a dívida brasileira. O candidato também cita a importância de "digitalizar toda a máquina pública" para economizar o suficiente.
Com relação a maiores detalhes sobre eventuais mudanças no arcabouço fiscal ou para onde seriam direcionados cortes, Cury diz que "não quer se antecipar" e que estudos serão feitos sem carater "eleitoreiro".
Pressionando o candidato, os jornalistas perguntam sobre a redução de ministérios que ele propõe em seu plano de governo -- um corte de 8 a 10 pastas. Ele não responde quais ele planeja cortar. "Não quero me adiantar a esse respeito", repete. O que explica é que, em paralelo aos cortes, planeja criar um novo ministério voltado a Robótica e Inteligência Artificial.
"O mundo vai virar de cabeça para baixo em 4, 5 anos", alega, justificando a importância de ter um ministério ou uma secretaria executiva voltada apenas para isso. Será uma forma de "neutralizar" problemas que aponta que serão enfrentados em um futuro breve com relação a inovações tecnológicas.
Sobre salário mínimo, ele diz que quer uma "classe média pujante". "Isso é tão caro pra mim. O dinheiro não garante a felicidade. Por isso, até, que há muitos miseráveis morando em palácios. Mas a falta de dinheiro garante a ansiedade. E há milhões de pessoas que não conseguem ter o mínimo de dignidade nesse pais", afirma.
Drone contra o feminicídio?
Renata pergunta para Cury sobre uma das propostas apresentadas em seu plano de governo voltada à proteção das mulheres: o uso de drones como parte da política. Nesse trecho, a jornalista e o candidato mantiveram um diálogo desencontrado. "Sabe quantas mulheres morrem no ano passado?", pergunta Cury. "Acabei de falar que 4 mulheres morrem todos os dias. Só ano passado mais de 1500", responde Renata.
O que o candidato do Avante explica é que o drone servirá como um método de ação rápida, mas que o foco é um aplicativo que permita que as mulheres acionem socorro com georreferenciamento. A jornalista então questiona sobre o valor disso, como isso seria distribuído em todas as cidades do Brasil, e como funcionaria com relação à conectividade, considerando que muitas áreas brasileiras carecem de acesso à internet.
"Nós somos um dos países mais digitalizados do mundo. Esqueça a questão do drone, por favor, pense em um aplicativo que possa ter uma resposta mais rapida", responde Cury, em tom de arrependimento pela citação do drone. "Mas o senhor prometeu drones", reforça Renata.
A bancada pergunta como isso funcionaria considerando que cerca de 70% dos casos de feminicídio acontecem em casas. Cury explica que a mulher acionaria o aplicativo, que alertaria a polícia. Nisso, o drone conseguiria chegar no local mais rápido que os policiais e tocaria uma sirene para "impedir o predador de matar" a vítima. "Mas esquece a questão do drone, você está se prendendo a um detalhe pequeno. Quero dizer que é possível um aplicaitvo que pode proteger as mulheres", suplica Cury. "Foi o senhor que prometeu", responde a jornalista.
Saúde e telemedicina
De cada 4 brasileiros, 3 são atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS). "O senhor defende que 80% das consultas básicas passem a ser feitas através da telemedicina. E, pela sua proposta, só os atendimentos mais complexos seriam feitos de forma presencial. Em que estudo, ou experiência concreta, o senhor se baseia?", pergunta Tralli. Na sequência, Cury responde: "Eu sou médico, esqueceu disso?".
Cury defende que o Brasil pode construir "a melhor telemedicina do mundo" e que esse projeto é revolucionário. "Não seria uma telemedicina privada, mas uma que o próprio governo criaria".
Tralli comenta que especialistas reconhecem o avanço da telemedicina, mas que isso não descarta a importância do atendimento presencial principalmente para acompanhamento de famílias e populações de áreas mais afastadas. "E os próprios especialistas apontam que nenhum país do mundo conseguiu implantar 80% dos atendimentos em telemedicina. Como fazer isso no Brasil?", perguntou o jornalista.
"Vota em mim que você vai.... desculpa a brincadeira", respondeu Cury. Sem detalhar como exatamente, ele afirma que isso será possível. Sobre o compromisso constitucional de garantir a assistência presencial -- evidenciado no Conselho Federal de Medicina --, Cury diz que o conselho precisa ser atualizado diante da "revolução tecnológica". Ele elogia o SUS, mas pede por renovação.
Cury é embaixador de uma empresa de telemedicina e, até 2023, aparecia como sócio. Questionado sobre isso representar conflito de interesse, o candidato diz que isso, na verdade, representa que ele já teve experiência na área. Ele alega que não é mais embaixador da iniciativa, por mais que a informação conste no site oficial da empresa.
'Desenvolvimento emocional'
Cury é questionado sobre o que a bancada da Globo aponta como mais um possível conflito de interesse: a proposta de medidas de aprendizado e programas de desenvolvimento emocional que ele mesmo criou e comercializa na iniciativa privada. Os jornalistas apontam, com base em análises de especialistas, que "não cabe a um presidente definir métodos de ensino"
Cury diz que "esse programa eu daria gratuitamente para todas escolas públicas do Brasil e do mundo" e que se trata de um "programa para a humanidade". Ele ressalta que "não há dúvidas" de que seguiria todo o processo legal de revisões para propor as mudanças.
O candidato sobe o tom e leva o assunto à sua realidade financeira. Ele diz que se "furar a bolha", abrirá mão do cartão corporativo para despesas pessoais. "Eu já tenho uma situação financeira privilegiada. [...] Pra mim é uma dor. Eu não amo o poder, não dependo do poder, não amo mesmo. Estou renunciando a minha tranquilidade porque pior do que a ação dos maus, é a omissã dos bons e daqueles que tem que contribuir".
Influenciadores digitais em embaixadas
Outra proposta de Cury é a de contratar influenciadores digitais para trabalhar nas embaixadas brasileiras pelo mundo. Como posto em seu plano de governo, seriam ao menos 10 em países com de ate 50 milhões de habitantes e pelo menos 20 contratados para países maiores ou estratégicos. "Na sua avaliação, o Itamaraty não cumpre atualmente a tarefa de representar e defender os interessses brasileiros no exterior?", pergunta Renata.
Cury diz que vai colocar a questão de outra forma, como um método de "vender o Brasil com dignidade". Ele diz que também não é algo que aumentará custos, pois sua ideia é treinar os próprios funcionários e embaixadores para serem influenciadores "para venderem melhor o Brasil lá fora".
Considerando o contexto de guerras e tarifas da política internacional, a bancada da Globo pergunta para Cury como ele avalia que o Brasil deve se posicionar diante de países como os Estados Unidos e a China. "Eu sou um pacificador", afirma. Nisso, na reta final da entrevista, Cury puxou a situação para falar sobre seu papel de "pacificar a guerra entre a direita e a esquerda" e não deu sua opinião sobre a questão geopolítica.
*Matéria em atualização
Outros candidatos
Foram convidados para as entrevistas na TV Globo os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest de intenções de voto, divulgada em 14 de agosto. A ordem das entrevistas foi sorteada e cada sabatina contou com 40 minutos de duração, com dois blocos, e um minuto para considerações finais no encerramento.
As entrevistas tiveram início na segunda-feira, 24, com Romeu Zema (Novo). O candidato defendeu anistia a Bolsonaro, disse ser contra a obrigatoriedade de vacina, e sofreu mais de 10 interrupções de Renata e Tralli.
Na terça-feira, 25, foi a vez de Ronaldo Caiado (PSD). O candidato evitou responder perguntas comprometedoras, detalhar planos econômicos, tentou se colocar como 3ª via e se comprometeu com um projeto de 'anistia ampla, geral e irrestrita' aos condenados pelo 8 de janeiro para pacificar o Brasil. A entrevista foi marcada por cerca de 40 interrupções ou tentativas de interrupções de Renata Vasconcellos e César Tralli, que muitas vezes foram ignorados pelo ex-governador de Goiás.
Na quarta-feira, 26, Renan Santos (Missão) foi entrevistado. O candidato defendeu o desenvolvimento de bomba nuclear para fazer do Brasil protagonista e soberano, se disse alinhado do entendimento "prendeu, matou", e reivindicou uma reforma da Previdência.
Na quinta-feira, 26, o entrevistado foi Lula (PT). O candidato começou sendo questionado sobre o seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que é investigado em três inquéritos pela Polícia Federal. "Vai ter que provar a inocência", rebateu. Além disso, polêmicas deram tom à noite, com casos do INSS, Master, dívida pública e crise em estatais sendo elencados.
Na sexta-feira, 27, foi a vez de Flávio Bolsonaro (PL). O candidato, que foi à emissora com uma "cola" na palma da mão, começou sendo questionado sobre o escândalo do Banco Master e defendeu o uso do dinheiro de Daniel Vorcaro para filme do pai, Jair Bolsonaro, citou ligação da Globo com Master e alfinetou Lula. Tarifaço do governo Trump, relação com Adriano da Nóbrega e dívida pública também foram assuntos da noite.

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