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Laerte defende esforço contra "horror" da homofobia

Cartunista diz que Brasil vive “período tenso”, mas encara avanços dos direitos LGBT com otimismo: “Hoje está havendo uma mobilização que não era possível dez anos atrás”

2 out 2014 07h37
| atualizado às 20h00
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A cartunista Laerte na exposição "Ocupação Laerte", em São Paulo
A cartunista Laerte na exposição "Ocupação Laerte", em São Paulo
Foto: Débora Melo / Terra

“Com horror, com espanto, com estupor. Com todo tipo de choque.” Foi assim que a cartunista Laerte definiu a forma como recebeu as declarações homofóbicas do candidato à Presidência Levy Fidelix (PRTB), dadas durante debate transmitido pela TV Record no último domingo. “E com a triste percepção de que essa coisa doentia é o que se passa na cabeça de muita gente. É uma boa demonstração de por que é preciso haver limites para esse tipo de expressão, porque ela incita a violência. Ela constrói a violência e as mortes”, continuou Laerte.

Relatório divulgado neste ano pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) aponta que o Brasil registrou 312 assassinatos de gays, lésbicas e travestis em 2013, o que significa uma morte a cada 28 horas, em média. Com esse número, o Brasil lidera o ranking mundial de homicídios de homossexuais. Segundo estimativa da entidade, 99% desses crimes foram motivados por homofobia. Apesar da queda de 7,7% em relação a 2012, quando foram registradas 388 mortes violentas, o levantamento mostra que o número de assassinatos cresceu 14,7% nos últimos quatro anos.

Para Laerte, a homofobia tem a ver com a nossa formação civil, que não cria regras de convívio social. “A questão é que sempre tem que haver gente massacrada e gente que massacre. As pessoas não respeitam a existência de situações de conflitos possíveis, então passa a ser sempre uma guerra de extermínio. O que acontece com a população LGBT, de um modo geral, é isso. Historicamente, são pessoas consideradas pervertidas, satânicas, escória, lixo”, disse Laerte.

Apesar do “período tenso” pelo qual passa o País, Laerte vê com otimismo a mobilização da sociedade na defesa dos direitos dos homossexuais e disse acreditar que estamos no caminho para vencer a homofobia. Para a cartunista, os avanços dos direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) dependem de um verdadeiro “esforço” da população.

 “É relativamente recente a ascensão dessas populações à condição de respeitabilidade. A gente vive um período muito tenso ainda e eu acho que, mais do que tempo, vai demandar um esforço das pessoas, um esforço de construir democracia. Construir democracia é isso: é construir respeito em situações de conflito, desarmonia e interesses diversos”, declarou Laerte.

Para ilustrar seu otimismo, a cartunista citou um caso recente de discriminação em São Paulo, no qual duas lésbicas foram repreendidas por um garçom quando se beijavam em um restaurante, com o argumento de que o beijo estava ofendendo os demais clientes. Com a ajuda da mãe de uma das garotas, o casal registrou queixa contra o restaurante por homofobia.

“Dez anos atrás essas meninas sairiam humilhadas, doloridas, iriam para casa passar remédio nas feridas. Hoje elas chegam em casa chateadas e humilhadas, sim, mas encontram ajuda e reação em casa”, afirmou Laerte. “Hoje o que está havendo é uma mobilização que não era possível dez anos atrás. Eu acho que a gente está vencendo isso. O que existe hoje de possibilidade de as pessoas reagirem é legal, tem que ser levado em conta. Isso aqui está mudando.”

Apoio a Luciana Genro
A cartunista comentou as declarações de Levy durante visita da presidenciável Luciana Genro (PSOL) à “Ocupação Laerte”, em exposição no Itaú Cultural, em São Paulo. A candidata e o partido acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o discurso de “incitação à violência” de Levy, que pregou na TV o “enfrentamento” à minoria LGBT. “Nós entendemos que o que ele disse é a maior prova da importância de se criminalizar a homofobia, a transfobia”, disse Luciana, para então emendar elogios a Larte, que é transgênero e passou a se identificar como mulher em 2009.

"Eu quis fazer esta visita para prestigiar a exposição da minha amiga Laerte, que é minha apoiadora e a quem eu admiro muito, pelo trabalho e pela coragem de se assumir e de mostrar como é importante que as pessoas tenham autenticidade e expressem livremente a sua orientação sexual, a sua identidade de gênero."

A candidata do PSOL à Presidência, Luciana Genro, visita a "Ocupação Laerte" ao lado da cartunista, em São Paulo; ambas criticam declarações homofóbicas de Levy Fidelix
A candidata do PSOL à Presidência, Luciana Genro, visita a "Ocupação Laerte" ao lado da cartunista, em São Paulo; ambas criticam declarações homofóbicas de Levy Fidelix
Foto: Débora Melo / Terra

Laerte, que já havia declarado voto na candidata do PSOL, reafirmou seu apoio. “Eu faço dela as minhas palavras. Isso é votar: fazer deles as nossas palavras, incorporar o discurso, abraçar o discurso. Esse é o sentido de votar, não essa besteira de quem vai ter mais bancada. É considerar o que vai no coração e na cabeça”, disse Laerte.

Antes, Luciana já havia feito um apelo para que os eleitores deem preferência ao voto “verdadeiramente útil” no próximo domingo, primeiro turno da eleição. “Voto útil é o voto nas propostas que representam as bandeiras que saíram às ruas em junho de 2013 e que não foram atendidas pelos governos”, afirmou. 

Durante a visita, Laerte explicou a Luciana cada parte da exposição, uma retrospectiva de mais de 40 anos de carreira. “Dá vontade de ficar só lendo as tirinhas”, disse a candidata. Ao final do encontro, uma mensagem de boa sorte da cartunista: “Bom debate amanhã (hoje), Luciana. Vai com tudo.”

Fonte: Terra
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