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Entre mudanças de tom e contradições: como presidenciáveis mudaram o discurso na corrida eleitoral

Candidatos alteraram posições sobre temas como urnas, vacinas, alianças e ataques aos adversários em busca de ampliar apoio na disputa

9 ago 2026 - 04h58
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Lula, Flávio, Renan, Zema e Caiado, candidatos à Presidência da República
Lula, Flávio, Renan, Zema e Caiado, candidatos à Presidência da República
Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto / Estadão

A menos de dois meses para o primeiro turno, os principais candidatos à Presidência vêm ajustando os discursos adotados na pré-campanha para responder ao cenário eleitoral e ampliar o alcance junto ao eleitorado. Um levantamento do Terra comparou declarações e posicionamentos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) e identificou mudanças de estratégia e, em alguns casos, recuos em relação ao que defendiam meses atrás.

Os movimentos vão desde a escolha do vice e a abordagem sobre temas sensíveis, como urnas eletrônicas e vacinação, até a mudança dos principais alvos dos ataques e a reformulação das prioridades de campanha. Enquanto alguns candidatos buscaram moderar o tom para ampliar o diálogo com determinados segmentos do eleitorado, outros endureceram o discurso ou reposicionaram suas principais bandeiras na tentativa de ganhar espaço na disputa.

A análise considera os cinco candidatos mais bem posicionados na corrida ao Palácio do Planalto, de acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira, 5. O levantamento mostra Lula na liderança, com 39% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 30%. Na sequência aparecem Renan Santos e Ronaldo Caiado, ambos com 4%, e Romeu Zema, com 2%.

Lula

O presidente Lula durante convenção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), que oficializou sua candidatura à reeleição
O presidente Lula durante convenção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), que oficializou sua candidatura à reeleição
Foto: Daniel Teixeira/Estadao / Estadão

O governo Lula passou por uma mudança na estratégia de comunicação adotada nos últimos meses. Se antes o Palácio do Planalto costumava responder de forma mais reativa nas redes sociais --espaço em que grupos de extrema-direita consolidaram forte presença--, a gestão passou a buscar uma atuação mais rápida e imediata diante dos acontecimentos. Em um ambiente marcado pela velocidade da informação, a nova estratégia parece buscar antecipar debates e assumir a liderança em temas considerados prioritários, como a defesa da soberania nacional.

O próprio presidente sinalizou essa mudança de postura. Durante a convenção nacional do PT, realizada em 2 de agosto, em São Paulo, evento que oficializou sua candidatura à reeleição, Lula afirmou que, em um eventual quarto mandato no Palácio do Planalto, não adotaria mais a imagem do 'Lulinha paz e amor', mas a do 'Lulinha porreta'.

Outro movimento identificado foi a intensificação da comunicação voltada a segmentos específicos do eleitorado, principalmente as mulheres. Embora o governo já tivesse criado políticas direcionadas a esse público, a campanha passou a ampliar a presença do tema em discursos, eventos e materiais de divulgação, em um cenário no qual pesquisas eleitorais indicam maior apoio de Lula entre as eleitoras.

A estratégia, porém, ocorre em meio a cobranças de grupos ligados aos direitos das mulheres negras e de juristas pela ausência de uma mulher negra entre as indicações feitas pelo governo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o atual mandato, as três escolhas para vagas na Corte foram homens: Cristiano Zanin, Flávio Dino e Jorge Messias, sendo este último rejeitado pelo Senado e apontado como uma possível indicação futura.

Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro anunciou Alfredo Gaspar como vice na disputa à Presidência
Flávio Bolsonaro anunciou Alfredo Gaspar como vice na disputa à Presidência
Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

Se Lula mudou o foco do discurso, Flávio Bolsonaro tem alternado o tom das declarações ao longo da pré-campanha e da campanha. Desde que oficializou a candidatura, o senador passou a buscar um diálogo mais amplo com eleitores além da base bolsonarista, adotando uma postura mais moderada em temas que tradicionalmente geram maior rejeição. Um dos exemplos foi a defesa das vacinas. Em sabatina promovida pelo G4 e pelo O Antagonista, no início de agosto, Flávio afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua família tomaram todas as vacinas previstas no calendário, com exceção da imunização contra a covid-19. A declaração foi interpretada como uma tentativa de afastar a campanha da imagem antivacina associada ao bolsonarismo durante a pandemia.

A definição da chapa presidencial também expôs um contraste entre o discurso e a estratégia adotada pela campanha. Durante a pré-campanha, Flávio afirmou em mais de uma ocasião que gostaria de ter uma mulher como candidata à vice-presidente, argumentando que essa composição ajudaria a ampliar o diálogo com o eleitorado feminino. Na oficialização da chapa, porém, escolheu o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). A campanha justificou a decisão pelo perfil do parlamentar na área da segurança pública, pela atuação na CPMI do 8 de janeiro e pelo potencial de ampliar a presença do PL no Nordeste. Integrantes da campanha também atribuíram a mudança à dificuldade de viabilizar uma candidatura feminina após a decisão de partidos como PP e Republicanos de permanecerem neutros na disputa presidencial.

Outro movimento ocorreu em relação ao tempo de permanência no poder. Em maio, Flávio afirmou que, se eleito, seu governo poderia durar até oito anos. A declaração destoou de sinalizações anteriores de que poderia exercer apenas um mandato e também da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada pelo próprio senador em fevereiro, que extingue a possibilidade de reeleição para cargos do Executivo. Na justificativa da proposta, Flávio argumentou que a reeleição cria um "estado permanente de eleição", incentiva governantes a subordinarem decisões administrativas à lógica eleitoral e enfraquece o princípio da alternância de poder.

Renan Santos

Renan Santos durante sabatina promovida pelo G4 e O Antagonista
Renan Santos durante sabatina promovida pelo G4 e O Antagonista
Foto: G4/Divulgação

Ao se apresentar como candidato à Presidência, Renan Santos passou a defender um programa baseado na diminuição da participação do Estado na economia, na valorização das liberdades individuais e na ruptura ao governo Lula. Parte das propostas reunidas no Livro Amarelo, documento que orienta o programa do partido Missão, no entanto, caminha em direção diferente e incorpora ideias tradicionalmente associadas à esquerda, como a regulamentação dos meios de comunicação, o fortalecimento dos países emergentes no cenário internacional e a redução da dependência do dólar.

Um dos exemplos é justamente a proposta de criar uma legislação para regular a imprensa. A medida remete a uma pauta defendida há anos pelo PT. Em 2014, Lula afirmou que a regulamentação dos meios de comunicação precisava ser atualizada e defendeu a chamada "democratização" do setor. Em 2018, o partido voltou a incluir, em seu programa de governo, propostas voltadas ao enfrentamento da concentração dos veículos de comunicação.

Algumas contradições também apareceram durante entrevista à GloboNews. Confrontado com um vídeo em que se definia como "machista", Renan afirmou que a expressão havia sido usada como figura de linguagem. 

Caiado

Ronaldo Caiado passou a mirar Flávio Bolsonaro
Ronaldo Caiado passou a mirar Flávio Bolsonaro
Foto: Taba Benedicto/Estadão / Estadão

Apesar dos atritos com Jair Bolsonaro (PL) nos últimos anos, Ronaldo Caiado (PSD) iniciou a pré-campanha defendendo uma pauta cara ao ex-presidente. Ao lançar sua então pré-candidatura, em março, afirmou que seu primeiro ato, caso fosse eleito, seria conceder uma "anistia ampla, geral e irrestrita", incluindo Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de janeiro.

Com o avanço da corrida eleitoral, no entanto, o foco da campanha mudou, mesmo ainda defendendo a pauta. Depois de concentrar as críticas em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Caiado passou a mirar diretamente Flávio Bolsonaro, adversário que considera seu principal concorrente na disputa pelo eleitorado de direita. A mudança ganhou força após o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e a reunião promovida pelo senador com embaixadores, em que voltou a questionar o sistema eleitoral.

Zema

No caso de Romeu Zema (Novo), a principal mudança ocorreu na relação com Flávio. O ex-governador de Minas Gerais chegou a ser cotado para ocupar a vice na chapa do senador e, no fim de abril, afirmou que o apoiaria em um eventual segundo turno. "Eu falo que eu estou junto para poder tirar o PT de lá", declarou na época.

Romeu Zema em sabatina em SP
Romeu Zema em sabatina em SP
Foto: Divulgação via G4 / Estadão

Nos meses seguintes, porém, Zema passou a endurecer o discurso contra o candidato do PL, especialmente após a divulgação de áudios e mensagens em que Flávio pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. O mineiro classificou a conduta como "imperdoável". Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou: "Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa."

Outro episódio leva à contradição um dos discursos mais recorrentes de Zema. Ao longo dos últimos anos, o candidato tem afirmado que nunca favoreceu familiares durante sua gestão no governo de Minas Gerais. No entanto, no começo do ano veio à tona que a Eletrozema S/A, empresa controlada por sua família, recebeu uma isenção fiscal de R$ 2,28 milhões concedida pelo governo mineiro em 2024, ainda durante sua gestão.

Fonte: Portal Terra
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