Como as campanhas de Lula e Flávio estão se articulando no segundo turno
Campanha petista tenta reverter desvantagem com mobilização nas ruas e redes; Flávio aposta em angariar apoios políticos e revê estratégias
No segundo turno presidencial, as campanhas adotam estratégias opostas em meio a pesquisas que indicam empate técnico. Atrás no resultado, Lula foca em mobilização nas ruas, redes sociais e anúncios de benefícios pelo governo federal para reverter a desvantagem. Flávio Bolsonaro, que liderou a primeira etapa, priorizou consolidar apoios de caciques políticos do Centrão, mas, sob críticas de aliados por uma postura passiva diante do avanço petista, começou a rever seus planos para ir às ruas e debates.
Passados dez dias do primeiro turno da eleição presidencial, as campanhas do presidente Lula (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) têm avançado com estratégias divergentes.
Primeiro colocado na votação de 4 de outubro, Flávio gastou boa parte desta etapa consolidando o apoio de caciques políticos, incluindo de partidos do Centrão e de candidatos presidenciais derrotados no primeiro turno. Descrita até mesmo por aliados como uma estratégia de administrar a vantagem com "jogo parado", a escolha, porém, colocou o senador em diversos momentos numa posição reativa e defensiva em meio a uma contraofensiva lulista, levando Flávio a rever seus próximos passos.
Já Lula, que terminou o primeiro turno 1,87 ponto atrás de Flávio, tem apostado em mobilização nas ruas e nas redes e também usando o governo para fazer novos anúncios de "pacotes de bondades", tentando não só atrair eleitores que se abstiveram na votação de 4 de outubro, como também explorar a rejeição de Flávio.
Mobilizações e mais pacotes de "bondades" de Lula
Após o choque inicial do resultado do primeiro turno, que posicionou o presidente Lula na segunda colocação, a campanha do petista entrou em modo alerta. Na semana passada, o próprio presidente admitiu que o PT conduziu na primeira etapa da eleição uma campanha "desorganizada" que "poderia ter feito mais".
A campanha tem colocado em marcha uma nova estratégia de reorganização que envolve eventos com contato direto com a população, como atos de rua para reanimar a base, e uso mais intenso das redes sociais, deixando de lado comícios mais tradicionais e encontros fechados.
Em pouco menos de dez dias, Lula participou de três atos de rua, incluindo mobilizações e caminhadas em Natal, Ceilândia e São Paulo. Um ato no domingo (11/10) na Avenida Paulista atraiu milhares de pessoas. Na segunda-feira, foi a vez de um ato no Rio de Janeiro, desta vez sem Lula, reunir uma multidão.
Paralelamente, a militância petista e apoiadores do presidente têm participado de grandes atos nas ruas, incluindo em cidades dominadas pelo bolsonarismo, como Curitiba e Florianópolis. Mais de uma centena desses atos foram registrados pelo país. Os atos têm alimentado as máquinas de comunicação da campanha e de aliados com o objetivo de propagar uma imagem de força e que não há desânimo após o resultado decepcionante do primeiro turno.
Já no ambiente virtual, o setor lulista tem apostado tanto em vídeos "descontraídos" para se aproximar do eleitorado jovem quanto em ataques contra Flávio para tentar desconstruir a imagem do adversário. Na terça-feira, um vídeo mostrou o octogenário Lula segurando uma caixa de som. Já na frente de ataques inclui vídeos em formato "selfie" no qual Lula afirma que Flávio vai cortar programas sociais e entregar o Brasil ao crime organizado.
Ainda no segundo turno, o Planalto sob Lula tem redobrado anúncios de benefícios para a população, como subsídios para combustíveis, uma ampliação do Pé-de-Meia para universitários, desonerações e perdão de dívidas e até um repasse de R$ 5 mil para Microempreendedores Individuais (MEIs). Estimativas do próprio governo apontam que só essas medidas devem custar R$ 25,8 bilhões até 2027.
Parte da estratégia petista ocorre por falta de espaço de manobra. Enfrentando mais dificuldade que a campanha de Flávio para angariar apoios de caciques políticos do Sudeste, Sul e Centro-Oeste, a campanha tem se voltado para um contato mais direto com os eleitores e em usar a máquina federal. Lula viu boa parte dos partidos do Centrão declarando apoio a Flávio, e se limitou a conseguir angariar suporte de apenas parte do MDB, com dez diretórios, todos no Norte e Nordeste.
Apesar das imagens produzidas pelos imensos atos de rua, o cenário continua desafiador para Lula. Na história das eleições presidenciais desde a redemocratização, nunca ocorreu uma virada entre um turno e outro, e mesmo a redução de abstenção é incomum.
Flávio aposta em apoios locais e decide participar de debate
Terminando o primeiro turno com vantagem nas urnas, a campanha de Flávio Bolsonaro consumiu os dias que se seguiram à votação com uma estratégia mais "palaciana", procurando firmar ou consolidar apoios e alianças com lideranças políticas e já sinalizando como pretende governar.
No segundo turno, o candidato recebeu apoios de Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e chegou a viajar para Goiânia para receber o respaldo pessoal de Ronaldo Caiado (PSD). Juntos, os três candidatos somaram 5,34% dos votos válidos no primeiro turno.
Flávio também recebeu apoio dos partidos União Brasil, Progressistas, Podemos, Republicanos e Novo. Nos últimos dez dias, a agenda do candidato foi dominada por eventos fechados com prefeitos, vereadores, aliados e lideranças evangélicas no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
Entre as exceções estavam a participação em uma motociata em São Gonçalo (RJ) e um comício em Porto Alegre (RS). Paralelamente, políticos locais organizaram eventos pró-Flávio, mas sem participação popular. Esse foi o caso de um jantar que ocorreu em uma cantina italiana em Curitiba na terça-feira, que reuniu o governador eleito do Paraná, Sergio Moro, e prefeitos do estado alinhados com o bolsonarismo. Flávio não compareceu, mas falou aos participantes por vídeo e foi representado por uma figura de papelão que o mostrava com a faixa presidencial.
O contraste com a mobilização de rua do PT, levou um articulista do jornal O Estado de S.Paulo, a argumentar que Flávio apostou numa "campanha de ar-condicionado" e "encastelada". Críticas sobre a estratégia de Flávio partiram do próprio campo bolsonarista, que se viu numa posição reativa em meio à ofensiva lulista e a falta de protagonismo pessoal do candidato do PL.
"É como se não existisse campanha. Sério", escreveu na terça-feira na rede X o influencer de extrema direita Paulo Figueiredo, que é especialmente próximo de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
A campanha de Flávio tem emitido algumas mudanças de rumo, após ver os lulistas ocupando as ruas e as redes. Nesta semana, o candidato anunciou que vai fazer no próximo domingo (18/10) seu próprio ato na Avenida Paulista, um dia após participar de uma homenagem feita por vereadores em Salvador (BA). E, após anunciar que não pretendia ir ao debate na Band no próximo domingo, Flávio voltou atrás cerca de 12 horas depois, após a confirmação da participação do presidente Lula.
Guerra nas redes
A disputa entre os dois candidatos também tem ganhado força neste segundo turno, com aliados de Lula e Flávio intensificando estratégias de circulação de conteúdos e mobilização de apoiadores, especialmente por meio do Whatsapp.
Boa parte da ação tem ocorrido por meio de dois canais, que servem de hub para que apoiadores repassem mensagens e material de propaganda, tanto de exaltação quanto para ataques, com o objetivo de alcançar eleitores indecisos.
O primeiro, Exército do Lula, é coordenado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) e já soma mais de 4 milhões de membros. Já o canal Tropa do Flávio, lançado em reação ao canal pró-Lula, foi criado no dia 6 e, até a tarde desta quarta-feira (14/10) somava 1,7 milhão de membros.
Mas a estratégia também teve desdobramentos fora do ambiente digital, gerando uma batalha jurídica. A campanha de Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para derrubar o canal pró-Lula sob inicialmente sob a acusação de disseminação de fake news, pedido que foi atendido pelo ministro Kassio Nunes Marques, que foi indicado por Jair Bolsonaro.
Depois, outro ministro suspendeu a decisão de Kassio, que na sequência mandou tirar o canal novamente, desta vez sob a justificativa de que ele precisava ser registrado junto à Justiça Eleitoral. O canal só voltou ao ar na noite de quarta-feira.
Já o canal Tropa do Flávio seguiu no ar normalmente, mesmo com sites de checagem apontarem que o canal tem disseminado regularmente conteúdos inverídicos. Inicialmente, a campanha de Flávio também não havia registrado o canal junto ao TSE. De maneira anônima, ministros do TSE criticaram a postura de Kassio, sugerindo que ele tem agido para dar uma mão à campanha de Flávio.
Pesquisas mostram cenário acirrado
As primeiras pesquisas divulgadas na fase do segundo turno continuam mostrando vantagem numérica para Flávio Bolsonaro, mas num cenário de empate técnico com Lula. Pesquisa Nexus nesta semana, por exemplo, mostrou Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos. Levantamento PoderData/Aya mostrou cenário similar, com o candidato do PL com 51% e o presidente aparecendo com 49%.
Segundo o Nexus, Flávio deve ser o maior beneficiário da migração de votos de Zema e Caiado, enquanto os votos de Renan Santos e Cury apareceram mais fragmentados.
Já uma pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira também mostrou cenário de empate, com Flávio aparecendo com 46% dos votos totais e Lula com 44%. "Alguns indicadores sinalizam uma relativa recuperação de Lula na comparação com a pesquisa de véspera do primeiro turno. "O medo da volta da família Bolsonaro ficou empatado novamente com o medo da continuidade do Lula", disse Felipe Nunes, diretor da Quaest. "São 11 dias para que o país decida seu futuro."
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