Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Acabou a fé? O que explica candidatos religiosos não conseguirem ser eleitos em 2026

Várias lideranças religiosas e parlamentares com décadas de atuação política e influência em igrejas do País não conseguiram se eleger

17 out 2026 - 05h00
Compartilhar
Exibir comentários
Entenda por que candidatos religiosos não conseguiram ser eleitos em 2026
Entenda por que candidatos religiosos não conseguiram ser eleitos em 2026
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Várias lideranças religiosas tradicionais e parlamentares com décadas de atuação política e influência em algumas das principais igrejas do País não conseguiram se eleger nas eleições de 2026. Mas o que explica isso? Quais elementos contribuíram para esse resultado? O Terra ouviu especialistas no assunto para explicar.

Como justificar a ausência na votação? Voto nulo cancela a eleição? Tire essas e outras dúvidas no Terra Responde

Alguns nomes que não conquistaram uma vaga neste pleito, por exemplo, foram: Gilberto Nascimento (Podemos), líder da bancada evangélica no Congresso Nacional; deputada estadual Edna Macedo (Republicanos), irmã do bispo Edir Macedo; deputado federal David Soares (Podemos) e seu irmão, deputado estadual Daniel Soares (União), filhos do missionário R.R. Soares; deputado federal Cezinha de Madureira (PL), pastor da Assembleia de Deus Ministério de Madureira; Padre Kelmon (PL), Padre Silvio Andrei (Avante), Mãe Su de Nanã (PSOL), entre outros.

De acordo com Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, de Belo Horizonte, esse cenário pode ser compreendido a partir de uma combinação de fatores políticos, eleitorais e sociológicos. O primeiro aspecto é que a influência religiosa, embora continue sendo importante na sociedade brasileira, não garante automaticamente a eleição de um candidato.

"Ter visibilidade dentro de uma igreja, contar com o apoio de lideranças religiosas ou representar uma denominação com milhares de fiéis não significa, necessariamente, conseguir transformar esse capital religioso em votos suficientes para conquistar um mandato. O eleitor não toma sua decisão exclusivamente com base na religião, mas também considera a situação econômica, o emprego, a segurança pública, a saúde, a educação, a corrupção e a capacidade dos candidatos de responder aos problemas concretos da população", explica o professor.

Outro elemento destacado pelo especialista é a diversidade existente dentro das próprias comunidades religiosas. "Não podemos tratar os evangélicos, os católicos ou qualquer outro grupo religioso como blocos políticos homogêneos", pontua Santos.

"Os fiéis têm diferentes condições socioeconômicas, experiências de vida, orientações ideológicas e expectativas em relação ao Estado. Um eleitor pode compartilhar a fé de determinado pastor ou reconhecer a importância de uma liderança religiosa sem, necessariamente, concordar com suas posições políticas. Isso demonstra que a identidade religiosa influencia a escolha eleitoral, mas não determina integralmente o comportamento do eleitor", acrescenta o cientista social.

Várias lideranças religiosas e parlamentares com décadas de atuação política e influência em igrejas do País não conseguiram se eleger
Várias lideranças religiosas e parlamentares com décadas de atuação política e influência em igrejas do País não conseguiram se eleger
Foto: Júlia Pereira/Estadão / Estadão

"Desgaste", bolsonarismo e outros elementos impactam

Para Santos, também é preciso considerar o "desgaste" que pode ocorrer quando lideranças religiosas acumulam mandatos e passam a ser avaliadas pela atuação parlamentar.

"Ao entrar na política, essas lideranças deixam de ser julgadas apenas por sua trajetória religiosa e passam a responder publicamente por suas decisões, alianças partidárias, propostas e resultados. Quando existe uma distância entre o discurso apresentado durante a campanha e aquilo que o eleitor percebe na prática, pode haver perda de confiança. Em um ambiente de forte polarização, o eleitor também pode questionar alianças políticas, posicionamentos ideológicos e a utilização de pautas morais como principal instrumento de mobilização eleitoral", afirma Santos.

Paulo Ramirez, cientista político e professor do curso de Ciências Sociais e do Consumo da ESPM, ainda cita que, nas eleições deste ano, houve uma supremacia do discurso de extrema direita e antissistema em relação às candidaturas religiosas. 

"O bolsonarismo como um todo, com um discurso mais radicalizado, acabou elegendo bolsonaristas não exatamente da bancada evangélica, mas, principalmente, os bolsonaristas mais próximos da 'bancada da bala' e de um radicalismo anti-institucional, antidemocrático", diz Ramirez. "O resultado dos bolsonaristas mais radicalizados foi tão bom que acabou ofuscando outras candidaturas, não só dos evangélicos, mas até mesmo de empresários, se a gente observar. Ou mesmo, outras candidaturas progressistas e de esquerda", completa o professor da ESPM.

Outro fator que também pode explicar muitas lideranças religiosas não conseguirem uma vaga neste pleito, conforme o professor Luciano Gomes dos Santos, é em relação ao sistema proporcional utilizado na escolha de deputados estaduais e federais, que depende não apenas da votação individual, mas também do desempenho dos partidos e federações e da distribuição das cadeiras.

"A fragmentação dos votos entre candidatos do mesmo campo político, a concorrência interna, a capacidade de financiamento, a presença territorial e a organização das campanhas influenciam os resultados. Portanto, uma liderança conhecida nacionalmente ou com forte presença em determinada comunidade pode não reunir as condições eleitorais necessárias para conquistar uma vaga", analisa.

Embora haja uma série de fatores que possa resultar nesse cenário, Santos lembra que é importante observar a trajetória de cada candidato individualmente, uma vez que cada um tem histórias, bases de apoio e experiências políticas distintas. "Não seria correto atribuir eventuais insucessos eleitorais a uma única causa ou afirmar que todos foram rejeitados pelo mesmo motivo."

Na avaliação de Santos, é possível que esteja ocorrendo uma mudança na maneira como a influência religiosa se converte em representação política. "A religião permanece relevante como fonte de identidade, solidariedade e participação social, mas não substitui a necessidade de construir uma candidatura competitiva, apresentar propostas consistentes e demonstrar capacidade de representação. O voto não é uma consequência automática da fé: é uma decisão política que envolve valores, interesses, expectativas e avaliações sobre o desempenho dos representantes", resume o professor.

Fonte: Portal Terra
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra