Polarização entre direita e esquerda no Brasil não significa 'americanização' da política, dizem especialistas
Redes sociais, crises econômicas e mudanças no comportamento do eleitor são fatores que ajudam a explicar a divisão entre direita e esquerda
O 2º turno da eleição à Presidência da República encontra, na disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ápice da polarização política entre direita e esquerda marcando o pleito de 2026. Diferentemente de outras eleições, no entanto, tal bipartição não só não restringiu-se à disputa pelo Executivo nacional, como também marcou as corridas pelos governos estaduais, bem como pelas vagas no Legislativo.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Terra rechaçam a ideia de um fenômeno de 'americanização' — dado que a disputa eleitoral americana é marcada pela concorrência restrita entre os partidos Republicano e Democrata, com outros correndo à margem — na política brasileira.
“O sistema americano é muito diferente do nosso. Na prática, os Estados Unidos funcionam como um sistema bipartidário [Republicano e Democrata]. Existem outros partidos, eles lançam candidatos à presidência, mas eles são muito pequenos e raramente têm impacto nas eleições. Então, nos Estados Unidos, não faria sentido ter dois turnos, numa eleição presidencial ou em qualquer outra eleição majoritária, porque são sempre dois partidos ali disputando aquele cargo”, explica Maurício Santos, doutor em ciências políticas.
Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ainda aponta que existe essa diferença com os EUA, especialmente porque lá eles têm a votação popular e o colégio eleitoral e aqui não.
Já o Brasil é um país multipartidário, com algo em torno de 20 partidos políticos representados no Congresso. Segundo o Santoro, o fato de o País ter um segundo turno faz também com que as legendas tenham uma estratégia diferente da adotada nos EUA, com as de pequeno e médio porte lançando candidatos à disputa do Executivo para divulgar mais o nome de um determinado político ou fazer um trabalho de construção de agenda.
“Os votos que eles ganharam no primeiro turno, podem servir para construir uma aliança no segundo turno e garantir a eles, por exemplo, um ministério, uma secretaria ou alguma coisa assim”, aponta.
Para exemplificar, Santoro usa o percentual de votos de Lula e Flávio no estado de São Paulo. Juntos, eles receberam cerca de 90% dos votos válidos, enquanto os demais candidatos não chegaram a 10%. No entanto, na avaliação do especialista, eles construíram algum capital político importante, que são disputados agora tanto pelo petista quanto pelo bolsonarista, porque, embora esse percentual não seja particularmente alto, “é ele que vai decidir a eleição agora”, pois o apoio se tornou bastante relevante.
Prando, inclusive, atribui a falta de outros candidatos competitivos à polarização. Para embasar, ele lembra o pleito de 2022, quando havia Jair Bolsonaro e Lula no embate, ambos com projetos diferentes, mas muito carismáticos.
“Eu imaginei que o Flávio Bolsonaro fosse ter mais dificuldades para se consolidar, porque falta o carisma que o pai tinha. No entanto, o sobrenome foi suficiente, somado ao sentimento antipetista, para colocá-lo na condição que ele está hoje, de franco favorito. Uma das questões é que essa polarização afetiva significa que os dois têm alta rejeição, só que a gente sabe que a rejeição do Lula é maior do que a do Flávio Bolsonaro. É isso que impede o surgimento de uma terceira via”, esclarece.
Motivo da polarização divide especialistas
Essa polarização não é bem uma novidade no cenário político brasileiro, já que ela acontece há pelo menos uma década. No entanto, ela é um pouco mais massificada e afetiva, na visão de Prando. Ele explica que a população têm levado a questão para além das eleições: para a família, a igreja, escolas e universidades e até para o ambiente de trabalho.
Outro fator que contribui também e é fundamental de se levar em consideração, conforme o especialista, são as redes sociais, que alavancam a divisão, sobretudo, entre os dois principais candidatos à Presidência.
“[É alavancada pela] força dos algoritmos que captam os sentimentos, raiva, ódio, angústia, medo, frustração, e torna isso ainda maior do que é”, pondera.
Já Santoro aponta que ainda não há um consenso, em termos de pesquisas acadêmicas, que atribuam a um único fator. O especialista explica que, essa divisão tão profunda, inclusive em termos regionais, nem sempre foi como é hoje.
Como exemplo, ele destaca que o Nordeste vota na esquerda, enquanto os estados do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste, vota na direita, atualmente, mas nos anos 1990 e 2000, em geral, o candidato que ganhava a presidência ganhava quase que no País inteiro.
“Tinha um ou outro estado que votava num candidato diferente. E agora não. Agora a gente tem algo muito mais fechado”, afirma. O professor diz que, provavelmente, esse fato tem alguma relação com as crises econômicas muito graves que o Brasil viu na década passada.
“Essas crises reposicionaram muitos eleitores, no impacto também dos escândalos de corrupção, da Lava Jato, do Mensalão, como isso fez, por exemplo, com que o PT perdesse muito apoio na classe média, em que nos anos 90 eram eleitores muito próximos do partido do que eles são hoje em dia”.
Isso também pode ter relação com as transformações sociais e “expulsão” das religiões evangélicas, como menciona.
“Isso também é voto desse eleitor, que tem sido bem mais conservador do que o voto dos católicos. Então, várias mudanças foram convergindo para essa posição que a gente tem hoje, em que para talvez 90% dos eleitores, esse voto está definido já de antemão. Não importa muito o que vai acontecer na campanha, não importa muito quem vai ser o candidato, aquele eleitor já decidiu que ele vai votar ou na direita ou na esquerda”, exemplifica com a chamada cristalização do voto.
Eleições para o Executivo Estadual bateu recorde de eleitos no 1º turno
Esse cenário também pode ser visto no pleito para governador, por exemplo, que bateu recorde de chefes de Executivo Estadual eleitos no primeiro turno. Das 27 unidades de federações, 20 definiram já no último dia 4, superando a marca anterior de 2010, quando 18 candidatos venceram sem necessidade de uma nova votação.
Mais um entrou para essa lista no último dia 10, quando o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) declarou a vitória de Douglas Ruas (PL) na eleição para o governo do estado após a retotalização dos votos do primeiro turno.
A decisão ocorreu depois que o TSE decidiu anular os votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos), permitindo que Ruas (PL) ultrapassasse 50% dos votos válidos e fosse eleito.
O PL elegeu seis governadores (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os três estados do Sul, além do Rio de Janeiro, Rondônia e Roraima). Enquanto isso, o PSD conseguiu quatro estados (Amapá, Maranhão, Pernambuco e Sergipe), seguido do PT (Bahia, Ceará e Piauí) e Republicanos, ambos com três (Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo).
O PP conseguiu dois (Paraíba e Mato Grosso do Sul), e os demais, MDB, PSDB e Podemos, apenas um cada (Goiás, Alagoas e Pará, respectivamente).
Grande parte deles se posiciona como direita e centro direita. Enquanto apenas o PT se diz de esquerda. Essa polarização, por si só, é muito negativa para a democracia, conforme aponta Prando, porque há, muitas vezes, de uma parte ou de outra, um ataque sistemático às instituições, à democracia.
“O adversário é transformado em inimigo e não apenas em adversário. Com o adversário eu convivo, com o inimigo, a partir de Carl Schmitt, da lógica bélica, eu tenho que eliminar, então isso é sempre um problema.
Investir mais no Legislativo traz mais retorno
Muitos partidos preferiram investir mais em candidaturas expressivas do Legislativo do que para o Executivo, justamente para ter uma bancada expressiva, conforme Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Isso ocorre por causa da cláusula de barreira, um dispositivo Constitucional que exige que os partidos atinjam um desempenho eleitoral mínimo nas eleições para a Câmara dos Deputados para terem direito a recursos financeiros do Fundo Partidário. Neste ano, por exemplo, a Federação PSOL-Rede e o PDT não atingiram a chamada cláusula de desempenho, também conhecida como cláusula de barreira.
A regra estabelece um desempenho eleitoral mínimo para que partidos tenham acesso a recursos do Fundo Partidário e ao tempo de propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão. Ela exige dois caminhos para um partido ou federação cumprir a cláusula.
A primeira é obter pelo menos 2,5% dos votos válidos para deputado federal em todo o país, distribuídos em pelo menos nove estados. Em cada um desses estados, a legenda precisa alcançar pelo menos 1,5% dos votos válidos. A segunda é eleger pelo menos 13 deputados federais, desde que eles estejam distribuídos por pelo menos nove estados.
Por sua vez, o PL conseguiu a maior bancada da Câmara após eleger 121 deputados federais, o que corresponde a um aumento de 23,47% ante os 98 parlamentares da atual legislatura. Com o resultado, o partido conseguiu uma eleição histórica e superou a do MDB em 1990, a primeira desde a redemocratização.
Além disso, a legenda conseguiu eleger 28 senadores, garantindo que o partido receberá, nas próximas eleições, o maior fundo eleitoral, em uma estratégia que já funcionou no pleito deste ano, quando o PL teve R$ 881 milhões. Isso também traz sinais claros da divisão política.
“Tem uma fragmentação político-partidária enorme no Legislativo, obrigando muitas vezes o Executivo. E agora, esse Legislativo empoderado com as emendas parlamentares, eu tenho até chamado de presidencialismo de submissão. O presidente, o chefe do Executivo, acaba se tornando submisso ao Legislativo pela força que eles passam a ter, manejando cada vez mais fatias robustas do orçamento”, finaliza Prando.



Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.