É possível prever terremotos?

Angela Joenck Pinto

Especialista aponta que ainda não é possivel prever terremotos como o que atingiu o Japão
Especialista aponta que ainda não é possivel prever terremotos como o que atingiu o Japão
Foto: Getty Images

Após os tremores que atingiram o Japão em março de 2011, basta digitar a palavra "terremoto" em qualquer site de busca para sermos bombardeados por informações desencontradas. Muitos pesquisadores chegaram a anunciar possíveis formas de prever abalos sísmicos, mas nenhuma se confirmou. Afinal, é possível prever terremotos?

"Essa prevenção não existe", diz o professor do Departamento de Geologia e Recursos Naturais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ticiano José Saraiva dos Santos. "O problema é a escala de tempo e o tamanho das áreas, que são gigantescas. Se traçarmos uma linha saindo do sul da Patagônia, subindo toda a América central, passando pela América do Norte e chegando ao Alasca, temos uma faixa grande de uma área que corresponde ao limite de uma placa tectônica. Ela está sob tensão há 20 milhões de anos, ou até mais. Você apontar um local e quantificar que lá está tendo mais esforço é impossível", explica o geólogo.

Segundo Saraiva dos Santos, o paralelo entre o tempo de estudo e o chamado "tempo geológico" também representa um empecilho. "Medir mudanças em 10 anos não é nada. O que são 10 anos em uma escala de 10 milhões de anos?", questiona.

Conforme o pesquisador, por conta das dificuldades, todos os avanços na área estão concentrados no monitoramento de terremotos, e não nas previsões. "Ao longo da falha de San Andreas, que vai bordejando o oeste dos Estados Unidos e passa por São Francisco, existem vários monitoramentos. Vi alguns trabalhos com equipamentos de GPS de alta precisão, em que eles conseguem ver deslocamentos. Os estudos têm procurado monitorar as fendas. Mas não existe previsão de um equipamento que aponte onde os tremores vão acontecer. A gente está vendo uma casquinha da superfície, mas em profundidade a coisa muda de figura", afirma o professor.

Em 2008, cientistas que trabalham na Falha de San Andreas, na Califórnia, publicaram estudos sobre um suposto método que seria capaz de detectar sutis mudanças geológicas que aconteceriam horas antes de um tremor. A pesquisa dizia que pequenas fraturas se formavam nas rochas antes de um terremoto, denotando o estresse na crosta terrestre. Utilizando poços de até 1 km de profundidade cavados no local, o equipamento usado pelos cientistas registrou ondas sísmicas antes, durante e depois de dois pequenos tremores. Mas as mudanças não se confirmaram como parte de um processo físico geral que ocorre antes de terremotos.

Outro estudo bastante criticado pela comunidade científica é o método "VAN", batizado com as iniciais dos sobrenomes de seus inventores, os físicos Panayotis Varotsos, Caesar Alexopoulos e Kostas Nomikos, da Universidade de Atenas. Para os teóricos, certos minerais emitem sinais elétricos característicos quando estão sob tensão. Estes sinais seriam detectados por estações de medição, que consistem em um par de eletrodos colocado embaixo da superfície, amplificadores e filtros. Novamente, os resultados não foram conclusivos.

Tsunamis
O professor da Unicamp explica que tsunamis causados como consequência de terremotos podem ser previstos de forma rápida e eficiente com a ajuda dos sismógrafos. "Isso sim. Você teve o terremoto, e consegue rapidamente definir o epicentro deste tremor, que é a projeção dele na superfície. Com esta intensidade você consegue fazer a modelagem com que essa onda vai sair, verificar a sua velocidade e checar em quanto tempo ela vai atingir vários locais", diz o geólogo.

O próprio terremoto de 8,9 pontos na Escala Richter que atingiu o Japão em 11 de março foi registrado a poucos quilômetros do campus da Unicamp, onde está instalado um sismógrafo horizontal amador. Além do sismo principal, outros 60 terremotos sequenciais, de menor magnitude - abaixo de 6 pontos - foram registrados por sismógrafos no Brasil.

Nos últimos três anos, o mesmo sismógrafo da Unicamp registrou centenas de eventos, de variadas magnitudes. O primeiro foi um tremor de 5,2 pontos ocorrido no Atlântico Sul, em abril de 2008, e que foi sentido nos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

"Tremores acontecem o tempo todo e a gente nem sabe, porque eles são de baixa intensidade. Já aconteceram no Ceará, no Mato Grosso e até no Acre, onde eles são muito profundos, porque a placa da África tenta entrar por baixo da Sul Americana. Não tem muito efeito na gente", diz Saraiva dos Santos. "Todas as placas estão sob compressão, mas onde que vai quebrar? Ninguém sabe. É muito complicado", afirma.

Saiba mais:
O observatório sismológico da UnB mostra a lista completa dos últimos tremores que aconteceram no Brasil.
O Serviço de Monitoramento Geológico do governo americano disponibiliza informações ao vivo sobre todos os terremotos do mundo.

Fonte: Bureau Assessoria e Conteúdo - Especial para o Terra Bureau Assessoria e Conteúdo - Especial para o Terra
publicidade