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Saber aprender e ser criativo é mais importante do que memorizar, diz analista da OCDE

Natalie Foster destaca o pensamento criativo, uma das habilidades do século 21 avaliadas pelo Pisa deste ano, e diz que é possível desenvolvê-lo enquanto se absorve o conteúdo

6 jun 2022 15h10
| atualizado às 15h26
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Ser capaz de se adaptar a mudanças e aprender é, hoje, mais importante que memorizar fatos, afirma Natalie Foster, analista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A especialista se refere às chamadas habilidades ou competências do século 21 - uma delas, o pensamento criativo, vai ser avaliada pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) deste ano, como mostrou o Estadão.

Natalie pondera que ter conhecimentos não deixou de ser importante, mas as capacidades de aprender e se adaptar ganham relevância em um mundo digital e de mudanças rápidas. "É menos sobre o que você sabe e mais sobre como você obtém esse conhecimento e como você o desenvolve. Como você aprende e continua a aprender", afirma.

A analista trabalha no desenvolvimento do "domínio inovador" - testes do Pisa que analisam aspectos além da proficiência em matemática, leitura e ciências -, que, em 2022, aplica teste cognitivo de pensamento criativo. Segundo Natalie, avaliar essa habilidade "é definitivamente muito mais complexo do que avaliar matemática". "A maioria dos problemas matemáticos tem uma resposta certa. No pensamento criativo, você não pode realmente definir qual é a resposta correta."

O teste de uma hora quer aferir a capacidade de jovens de 15 anos de gerar, avaliar e melhorar ideias em quatro domínios: expressão escrita, expressão visual, resolução de problemas científicos e resolução de problemas sociais. A aferição de resultados se dará em relação à adequação, flexibilidade e/ou originalidade das soluções apresentadas.

Natalie explica que a aferição de originalidade é particularmente complexa. Para medi-la, foi feita uma lista de respostas comuns com base nos testes de campo e estudos pilotos. Os avaliadores, então, terão de buscar respostas que não estejam nessa lista. "É uma abordagem oposta à pontuação de avaliações-padrão", afirma. "Não estamos procurando o comum. Se eles sugerem algo que não é o que definimos, consideramos original."

A especialista pôde analisar dados das aplicações em campo e de pilotos. "É divertido ver o que os alunos dizem. Eles são criativos. É gratificante", conta. Ela destaca, porém, que esse conjunto de dados ainda não é grande o suficiente para se ter resultados concretos. "Já fiz os testes desenvolvendo eles. Nós, adultos, sentamos em uma sala e pensamos o que seria um bom item. E os alunos seguem caminhos que você não espera", explica.

Leia abaixo a entrevista com a analista da OCDE:

O que o Pisa considera como pensamento criativo?

Nossa definição de pensamento criativo é bastante focada no processo de geração de ideias, ou seja, comparada com toda a literatura sobre criatividade, é uma definição bastante focada e há várias razões para isso. Para o Pisa, tivemos que ser um pouco mais concretos e focar em aspectos objetivos, para que pudéssemos contar e comparar dados entre os alunos de diversos países.

Qual o papel da escola no desenvolvimento do pensamento criativo? E como podem ajudar o aluno a desenvolvê-la?

A escola tem uma grande influência sobre todos nós. Passamos muito tempo na escola. Os mesmos princípios que se aplicam ao pensamento criativo valem para todas as habilidades do século 21. Quando falamos de resolução de problemas ou pensamento crítico, a literatura geralmente concorda que basicamente essas habilidades podem ser desenvolvidas envolvendo os alunos em experiências de aprendizagem mais ativas e significativas. Lendo um livro e completando alguns exercícios, os alunos não vão desenvolver esse tipo de habilidades transversais do século 21. Eles precisam se envolver mais em atividades que façam sentido para eles. E ter tempo para isso, porque é difícil ser criativo em um minuto. Você precisa de tempo para ter ideias e colaborar com outras pessoas. A principal mudança em termos de sala de aula é realmente o professor se tornar um facilitador dessas experiências e permitir que os alunos sejam mais ativos, com uma aprendizagem baseada em problemas e em projetos. Ao mesmo tempo, os professores estão sob muita pressão e muitas vezes têm prioridades concorrentes devido à forma como o sistema educacional foi criado.

Nesse sentido, o pensamento criativo compete com outras atividades ou é algo complementar?

É algo que é complementar. Às vezes, há essa percepção de que desenvolver atividades que promovam o desenvolvimento do pensamento criativo tira tempo do aprendizado de conteúdos. Mas, na verdade, as pesquisas mostram que envolver os alunos nesse tipo de atividade ajuda-os a aprender conceitos, a se lembrar das coisas e a sentirem-se mais empoderados na aprendizagem. Você pode definitivamente desenvolver esse tipo de habilidade enquanto desenvolve o conhecimento do conteúdo. É apenas reformular a forma como pensamos sobre isso e mudar as atividades que os alunos fazem em sala de aula. Não é algo prejudicial ao desenvolvimento de proficiência em matemática ou ciências.

Por que é importante desenvolver o pensamento criativo?

Acho que essas habilidades (do século 21) sempre foram importantes, porque a sociedade humana avançou tremendamente por causa do pensamento criativo. Mas, por causa da revolução digital - com as pessoas tendo conhecimento na ponta dos dedos - e de o conhecimento estar mudando tão rapidamente, saber fatos não é tão importante quanto costumava ser. O importante é ser capaz de se adaptar às mudanças, ser capaz de aprender, ser capaz de pensar fora da caixa e resolver problemas que agora estão mais interconectados. Acho que é aí está a diferença. Obviamente, o conhecimento sempre será importante, mas a maneira como acessamos o conhecimento mudou muito por causa do digital. É menos sobre o que você sabe e mais sobre como você obtém esse conhecimento e como você o desenvolve. Como você aprende e continua a aprender.

Estadão
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