Professor brasileiro é um dos que mais sofrem com intimidação e bullying

É o que diz pesquisa da OCDE com 250 mil docentes e diretores de 48 países ou regiões. No País, ainda se perde 1/3 do tempo de aula em tarefas administrativas ou com indisciplina; relato de casos de violência, física e verbal, fica no dobro da média

19 jun 2019
17h29
atualizado às 22h41
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SÃO PAULO - Os professores brasileiros são alvo de mais intimidações e lidam em proporção maior com o bullying entre os alunos do que a média internacional, além de perderem mais tempo com atividades não relacionadas ao ensino. É o que mostra a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com 250 mil professores e diretores de escolas de 48 países ou regiões.

Em média, os professores no Brasil passam só 67% do tempo em atividades ligadas ao processo de aprendizado. O restante é dedicado a tarefas administrativas, como a chamada de presença, ou disciplinares, como manter a ordem na classe. A relação entre alunos e deles com os professores também preocupa. No Brasil, 28% dos diretores escolares dizem ter testemunhado casos de intimidação ou bullying entre estudantes - o dobro da média da OCDE.

Semanalmente, 10% das escolas brasileiras registram episódios de intimidação ou abuso verbal contra educadores, com "potenciais consequências para o bem-estar, níveis de estresse e permanência deles na profissão", diz a pesquisa. A média internacional é de 3%.

Quando os ataques miram funcionários da escola, o Brasil é o segundo com a maior porcentagem - atrás apenas do norte da Bélgica. A estatística pode ser ilustrada pelo caso recente de dez alunos que atiraram cadeiras e livros contra uma professora na Escola Estadual Maria de Lourdes Teixeira, em Carapicuíba, Grande São Paulo, no fim de maio. O vídeo da agressão se espalhou nas redes sociais e nove envolvidos no episódio chegaram a ser detidos.

A professora Maria Carlota Galvão, que dá aulas de Artes em uma rede municipal no litoral do Rio, diz ver o contexto de violência influenciar na escola cotidianamente. "Os conflitos da escola vêm sempre um pouco de fora porque a sociedade está toda desmoronando ao redor, mas precisamos ensiná-los a conviver com todos esses relacionamentos que têm na família e entre si", diz ela, de 48 anos.

Relatos de intimidação não são incomuns, até fora do contexto escolar. "Nas redes sociais, alguns alunos esquecem que aquilo é um ambiente público e ofendem (em mensagens ao professor)", conta a professora Lidiane Christovam, de 41 anos, que deu aula de Matemática por mais de uma década em colégios particulares da capital paulista e leciona em universidade há cerca de dois anos.

Já a pesquisadora Luciana Lapa, do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral, ligado à Universidade Estadual Paulista (Unesp) e à Universidade de Campinas (Unicamp), diz que a mediação de conflitos e de casos de bullying nas escolas geralmente falha ao tratar o comportamento dos alunos. "Fica esquecida a parte da reflexão, que é muito mais trabalhosa do que o castigo, a suspensão. Você pune e não forma", afirma a especialista. "É preciso uma intervenção não apenas punitiva, mas que promova uma tomada de consciência."

Aprendizado

O relatório da OCDE destaca também o efeito cumulativo do desperdício de tempo no aprendizado do estudante - poucos minutos durante as aulas representam dias perdidos no fim do ano. O Brasil é o terceiro país com o pior aproveitamento de tempo em sala de aula, à frente apenas da África do Sul e da Arábia Saudita. Na média, nos países que integram a OCDE, os professores aproveitam 78% da aula com as atividades de ensino.

Especialistas dizem que o desempenho do País está relacionado à falta de preparo dos professores - o que envolve desde inexperiência em sala de aula até profissionais alocados em disciplinas fora de sua área de formação. E há a falta de compreensão das demandas de alunos, cada vez mais estimulados pela tecnologia.

A professora Lidiane Christovam vê uma sobrecarga nas responsabilidades de docentes. Ela diz que o tempo dedicado ao planejamento das aulas foi tomado por demandas como o relacionamento constante com a escola e os pais, o uso das plataformas digitais do colégio e a capacitação constante. Ao mesmo tempo, acha que atividades no contraturno da escola muitas vezes retiram o tempo que os alunos têm para socializar - por isso, usam o tempo da aula para isso.

"De maneira geral, o professor, hoje, tem demanda maior para fornecer material (didático) para portais escolares e, a grosso modo, ele ampara o aluno muito mais do que na minha época de estudante", opina ela.

Ao comentar os dados, o Ministério da Educação (MEC) disse que a pesquisa ajuda a o governo federal e as secretarias locais a abordarem a realidade do ensino e da aprendizagem de forma mais assertiva.

No País, falta de preparo dificulta inclusão de alunos com deficiência

Apesar da baixa taxa de inclusão de alunos com algum tipo de deficiência nas salas de aula, professores brasileiros são os que mais demandam treinamento e formação para dar ensino de qualidade a esses estudantes. Dados da pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis, na sigla em inglês), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que os educadores reconhecem ter dificuldade para atuar com turmas onde há crianças com deficiência ou transtornos globais do desenvolvimento.

Apenas 11% dos professores do 5.º ao 9.º ano do Brasil disseram atuar em salas de aula com ao menos 10% de alunos com alguma deficiência - a média dos países da OCDE é de 27%. Apesar de 73% dos docentes afirmarem que receberam algum tipo de orientação sobre como atuar com alunos com deficiência durante a graduação, 58% dizem que sentem muita necessidade de ter um treinamento voltado especificamente para o assunto - enquanto a média da OCDE é de 22%.

Nos últimos quatro anos, o Brasil registrou aumento de matrículas de alunos desse grupo na educação básica, com 90,9% deles estudando em classes regulares, como é recomendado. No entanto, não há levantamento que indique quantas crianças com algum tipo de deficiência ainda estão fora da escola.

"É um problema que ainda estamos enfrentando a passos lentos e não sabemos nem quão longe estamos de resolver. Além disso, há diferenças regionais preocupantes. Em Estados ricos, como São Paulo, a inclusão é maior. Em regiões mais pobres, essas crianças não chegam à escola", diz Maria da Paz Castro, a Gunga, que atua na formação de professores e é assessora de educação inclusiva em escolas particulares.

O baixo índice de inclusão também está ligado à prática ilegal de uma parte dos colégios particulares, que se nega a matricular crianças com deficiência ou cria "cotas" para um número máximo de estudantes desse grupo por turma. A arquiteta Karen Neves, de 42 anos, enfrenta há anos dificuldades para encontrar uma escola inclusiva para a filha Nina, de 8 anos, que tem autismo.

A família mudou para São Paulo para que a menina pudesse ter acesso a educação e tratamento de melhor qualidade. "Morávamos em Poços de Caldas (MG), ela passou por duas escolas e percebi que não tinham condições de dar a educação que minha filha precisa. Em uma das delas, foi 'convidada a sair' aos 2 anos de idade e na outra, por mais boa vontade que houvesse dos professores para incluí-la, não tinham conhecimento ou experiência."

Para Maria da Paz, escolas que sejam de fato inclusivas beneficiam a todos e deveriam ser uma demanda de toda a sociedade, não apenas das famílias de crianças com deficiência. "Educação inclusiva significa ensinar a todos os alunos, independentemente da dificuldade de cada um. Todos se beneficiam."

Segundo o relatório do OCDE, um primeiro passo importante para os sistemas educacionais é investir na identificação e no diagnóstico de deficiências e transtorno dos alunos. "O que professores percebem como problemas de comportamento podem ter outras explicações. O erro de diagnóstico é custoso para os estudantes, docentes e ao sistema educacional como um todo", diz a entidade.

A OCDE recomenda que a formação docente inclua uma preparação que ajuda a detectar possíveis transtornos entre os alunos.

Procurado, o Ministério da Educação (MEC) informou que uma proposta de revisão da política de educação especial foi encaminhada ao Conselho Nacional de Educação no fim do ano passado.

3 perguntas para Miguel Thompson

É diretor executivo do Instituto Singularidades

1. O que explica o pouco tempo dedicado ao conteúdo em escolas brasileiras?

Existem muitos aspectos, mas um deles é que somos muito focados na aula expositiva, e ela exige que o aluno fique ali imóvel, olhando. Há muitos atrasos entre uma aula e outra, muitos professores escrevem antes (da aula) na lousa, e tudo isso é dissipação de tempo. Além disso, a possibilidade de dispersão no cotidiano por causa da cultura digital é gigantesca.

2. Por que as escolas não atendem melhor às necessidades de especiais?

Nós, professores, saímos da universidade completamente despreparados para trabalhar as exceções. E isso não deveria estar a cargo só do professor. Se você trabalha de maneira cooperativa, o próprio grupo pode fazer o manejo dessa diversidade - às vezes nem chegam a ser patologias. Os alunos se ajudam e o professor faz a orientação desse processo.

3. O que explica a quantidade alta de bullying e intimidação a professores?

No Brasil, até 35% dos professores não são especialistas no assunto (do qual dão aula). Então entra um professor inseguro na sala de aula, e um jovem, quando está em fase de afirmação, vai testar. E há questões externas, do núcleo familiar do aluno, seja pobre ou rico. Muitas vezes o pai do aluno não está lá. O fator social também é importante.

Estadão
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