Para aumentar empregabilidade, universidades fazem parceria com o mercado

Uma das primeiras medidas é a reformulação do tradicional setor de estágios, que passa de mero banco de ofertas de vagas a departamento focado em promover a carreira dos estudantes, do estágio à efetivação

26 nov 2019
10h14
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SÃO PAULO - Botar o diploma embaixo do braço e sair à caça do primeiro emprego é, definitivamente, cena do passado. Em tempos de crise econômica e mercado profissional em constante mudança, a meta dos universitários tem sido - cada vez mais - conseguir um estágio logo nos primeiros semestres do curso e colar grau já com um contrato de trabalho assinado.

Não é uma missão simples, nem solitária. Para melhorar a empregabilidade dos alunos, as instituições de ensino têm diversificado as ações de aproximação com as empresas. Não vale mais somente aquele mural com vagas ou a divulgação dos processos seletivos de trainee. É preciso ter estratégia desenhada e até mesmo um setor dedicado a essa interface com o mercado.

Repaginação

Uma das primeiras medidas é a reformulação do tradicional setor de estágios, que passa de mero banco de ofertas de vagas a departamento focado em promover a carreira dos estudantes, do estágio à efetivação. Na Unip, a nova divisão surgiu há dois anos com o nome Carreiras & Mercados.

"Fazemos parcerias para que as empresas se envolvam nas atividades da universidade, por meio de ações como palestras e workshops nos quais gerentes e CEOs debatem com os alunos temas como a conjuntura econômica do País", explica Ana Paula Gonçalves, responsável pela área.

Para promover a ambientação dos alunos, também são desenhados eventos realizados no próprio espaço das organizações. Essas visitas monitoradas e workshops atraem especialmente aqueles alunos que nunca trabalharam.

"Eles têm a chance de ter uma primeira vivência do que é o mercado de trabalho", completa Ana.

Essa profissionalização da área que faz a interface da universidade com o mercado também deixa a instituição em uma posição privilegiada: no surgimento de vagas, é comum que a empresa procure primeiro as universidades que têm um setor dedicado ao assunto.

Parceria

Outra forma de aproximar os alunos do mercado é fazer com que as produções acadêmicas, além de manterem suas funções pedagógicas, também sirvam de experimentação dos desafios diários da vida real de uma empresa.

No Instituto Mauá de Tecnologia foi criado um órgão específico para essa interface: a Divisão de Inovação e Qualidade. Em 2018, o setor formalizou 75 novas parcerias com empresas, que proporcionaram a realização de aproximadamente cem ações, envolvendo mais de 1.200 alunos e 80 professores.

A atuação se deu tanto nos cursos de graduação - Engenharia, Administração e Design - como nas ofertas de pós. Na lista de ações de parceria entre empresas e escola, constam trabalhos de conclusão de curso, projetos de iniciação científica e tecnológica e pesquisas aplicadas.

Uma das atividades desenvolvidas foi o hackathon, maratona de programação na qual estudantes se juntaram a funcionários de uma companhia para identificar novos mercados para um dos produtos que ela comercializa. Os alunos foram divididos em equipes multidisciplinares. Cada grupo tinha um aluno de Engenharia, Administração e Design, além de um membro da empresa.

Durante a atividade, a equipe visitou diversos estabelecimentos comerciais e propôs suas soluções. No encerramento do hackathon, os resultados foram apresentados aos diretores e gerentes da empresa. Os três melhores grupos foram premiados com estágios de férias. Dois desses alunos foram chamados pela empresa.

Estudante do 2.º ano de Design, Nathália Araújo Bomfim, de 20 anos, foi uma das participantes da maratona que conquistou a vaga de estágio. Ela e os colegas Isabella Figueiredo e Carlos Eduardo desenvolveram uma plataforma de comunicação para shoppings que facilita a integração entre lojistas e a administração.

"Foi muito curioso porque nunca tinha feito nada parecido na minha vida. Passamos dois dias conversando com os comerciantes, que expuseram seus problemas específicos. Grandes restaurantes e lanchonetes têm demandas próprias e precisam de um atendimento diferenciado da administração do shopping. Percebemos essa carência e montamos nosso projeto, que obteve o primeiro lugar no hackaton."

Sintonia

No total, a instituição oferece 17 modalidades de relacionamento com o mercado. Parcerias com empresas como Mercedes-Benz, Ultragaz, Itaú, Toyota, Tramontina e Siemens resultaram em várias atividades acadêmicas e permitiram que as companhias identificassem talentos para processos de recrutamento.

"Nossa percepção de resposta do mercado tem sido positiva e algumas empresas já desenvolvem mais de uma ação simultânea conosco", afirma o engenheiro Claudio Foltran, responsável pela Divisão de Inovação e Qualidade. "O mais importante é formarmos engenheiros, administradores e designers qualificados, com experiências reais, para que sejam protagonistas de seu desenvolvimento profissional e pessoal, influenciando positivamente a sociedade."

Empreender também é preciso

Os números mostram a dimensão do mercado: 38% da população brasileira empreende, em negócios formais e informais. Isso significa que 59,1 milhões de pessoas de 18 a 64 anos possuem um negócio ou estão envolvidos com a criação de um. Empreender é de fato tendência e as universidades também precisam contemplar esse público.

A área de Carreiras da Anhembi Morumbi tem no suporte ao empreendedorismo boa parte de sua atuação. Na Feira de Carreiras e Recrutamento, por exemplo, ocorre o que empreendedores buscam em eventos: networking. Pelos corredores, donos de grandes empresas e potenciais investidores conferem as ideias nascidas na universidade.

"Promovemos este encontro entre empresas e alunos, das mais variadas áreas do conhecimento, como forma de possibilitar interação e vivência para a construção de uma jornada de carreira marcada por muito aprendizado, além de apresentar ao mercado nossos talentos", explica Carla Klöckner, responsável pelo setor na universidade.

A instituição também criou a Anhembi Up, uma aceleradora de startups que oferece suporte integral a alunos e ex-alunos que tenham ideias empreendedoras e queiram criar um novo negócio. Os melhores projetos iniciam a aceleração com acompanhamento de profissionais qualificados do mercado, para a identificação de necessidades e aperfeiçoamento da ideia, realização de atividades em espaços de coworking construídos nos câmpus da universidade e a oportunidade de apresentar o projeto a investidores e empresas.

  • 38% da população brasileira empreende, em negócios formais ou informais
  • 59,1 milhões de pessoas de 18 a 64 anos comandam ou estão envolvidas com criação de um negócio

Ponte

Dentre os vários projetos monitorados está o SS Office, plataforma de colocação profissional criada pelo aluno Sandro Sanches, já graduado em Direito e atualmente no último semestre do curso de Marketing. Trata-se de uma ferramenta que busca exatamente colaborar na questão da empregabilidade.

"Ajudamos estudantes a fazer contatos com profissionais do ramo jurídico, proporcionando desde formações até parcerias para trabalhos freelancers."

Seu projeto é desenvolvido com o auxílio de uma equipe de 30 alunos da Anhembi Morumbi, de áreas como Marketing, Programação e Direito. A plataforma já atende cerca de 7 mil alunos, que tem a própria SS Office como referência de exemplo a seguir.

Hoje, a startup já tem negociações com investidor, participou de um torneio internacional e foi convidada pela Microsoft para fazer parte de um projeto em parceria com a Nasa.

"Meu projeto deu certo quando consegui dar a ele uma formação de time, com múltiplos talentos. Aprendemos que quanto mais diversa for a composição do grupo, mais fácil para o negócio dar certo."

Líderes têm desafios para enfrentar

Para executivos e profissionais em cargos de alto escalão, o termo empregabilidade se traduz em dois cenários: ter condições de progredir ou conseguir uma recolocação vantajosa. Cada atribuição traz os seus desafios e as mudanças na economia global exigem o desenvolvimento de novas habilidades e competências.

Para o especialista em orientação profissional José Augusto Minarelli, CEOs e outros dirigentes devem ter em mente como a dinâmica do mercado de trabalho dita os tempos das mudanças.

"Todos os executivos devem esperar uma transição na carreira entre três e cinco anos, seja ela gerada por ele mesmo ou pela empresa que, após ter o problema resolvido, pode dizer 'muito obrigado, problema resolvido'."

Precursor do conceito de empregabilidade, Minarelli definiu seis pilares que se popularizaram em formações ou publicações relacionadas a colocação profissional: adequação da profissão à vocação; competências; idoneidade; saúde física e mental; equilíbrio financeiro e relacionamentos. Segundo o autor, tratam-se de fatores que buscam constituir uma espécie de plataforma, proporcionando segurança, sustentação e visibilidade ao profissional.

Liderança

Em tempos de crises econômicas agudas, em que o lado emocional de um CEO pode ser afetado pela tensão, Minarelli considera tais pilares ainda mais necessários.

"Os profissionais comuns, em época de profunda recessão, são a commodity mal remunerada e nem sempre solicitada. As organizações precisam de líderes que façam mais, melhor, mais rápido e administrando menos recursos. Com recessão a economia não para, apenas muda de intensidade e volume, e é aí que surgem as questões que diferenciam as pessoas."

Apesar de considerar todos os pilares igualmente importantes - "como pernas de uma mesa, que devem estar equilibradas para não deixar o móvel ficar torto ou cair" -, Minarelli explica que eles se diferenciam na dificuldade de aplicação. Entre os mais fáceis de executar está manter uma rede de relacionamentos ativa, o conhecido networking.

Entretanto, o fomento do networking requer o que Minarelli define como netliving, que é prestar atenção nas pessoas, ser solidário e conhecido.

"É dar antes de pedir, ou seja, ser colaborativo. É algo que executivos deixam de lado e cobra seu preço no momento das transições."

Estadão
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