Matemática: a infraestrutura invisível do desenvolvimento
A matemática costuma ser associada a fórmulas, cálculos e avaliações escolares. Ela sustenta a capacidade de raciocinar, resolver problemas, interpretar informações e compreender o mundo ao nosso redor. São competências fundamentais para a vida em uma sociedade cada vez mais conectada, orientada por dados e marcada pela transformação digital. Já somos parte da elite mundial nesse campo, com instituições como o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e estratégias nacionais como a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). Para um país que busca ampliar produtividade, inovação e equidade, o desafio é transformar essa excelência em uma cultura mais ampla, baseada na ideia de que a matemática é para todos.
Os indicadores educacionais mostram que o país permanece longe desse objetivo. No PISA 2022, 73% dos estudantes brasileiros apresentaram desempenho insuficiente na disciplina. Já no Saeb 2023, apenas 16% dos alunos do 9º ano alcançaram níveis adequados de proficiência. Esse quadro começa a se formar muito antes, nas vivências e interações na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, quando as crianças exploram quantidades, medidas, formas, relações espaciais e padrões, entre outras experiências relacionadas à aprendizagem da matemática. Consolidar essas bases é decisivo para desenvolver o raciocínio lógico, sustentar trajetórias escolares mais consistentes e ampliar oportunidades ao longo da vida.
Esse diagnóstico aponta para um objetivo central, que é fortalecer quem está diariamente na sala de aula. O Compromisso Nacional Toda Matemática, política lançada em 2025, colocou a formação de professores e o fortalecimento curricular das licenciaturas entre seus eixos centrais de atuação. Como destaca a especialista e educadora Katia Smole, aprender matemática significa desenvolver formas de pensar, argumentar, comunicar ideias, resolver problemas e interagir no mundo. Essa perspectiva também marcou os debates do movimento Gente que Soma, realizado em junho, em São Paulo, e reforça a importância de professores preparados para despertar curiosidade, construir significado e desenvolver confiança nas crianças desde os primeiros anos.
Além de dominar conteúdos, os educadores precisam compreender como as crianças aprendem, identificar dificuldades, propor diferentes estratégias de resolução de desafios e transformar erros em oportunidades de construção do conhecimento. Isso exige formação inicial e continuada, articulada à prática escolar, numa lógica mais próxima da preparação de profissionais que exercem ofícios de alta complexidade, como a medicina, por exemplo.
Em uma sociedade cada vez mais orientada por dados, a matemática também é uma ferramenta de cidadania, pois ajuda a interpretar evidências, compreender estatísticas e tomar decisões mais conscientes. Essa dimensão ganha relevância diante das ambições do país em inteligência artificial, inovação, transformação digital e economia do conhecimento – agendas que dependem de pessoas capazes de atuar em cenários dinâmicos e têm o conhecimento matemático como um de seus alicerces.
Por isso, garantir essa aprendizagem em escala também é uma agenda de inclusão. As dificuldades acumuladas nessa área costumam limitar trajetórias acadêmicas e profissionais futuras, especialmente entre estudantes em situação de maior vulnerabilidade. Um processo de ensino e aprendizagem bem estruturados amplia oportunidades educacionais, profissionais e de participação na economia digital.
Nesse contexto, o Saeb 2025 será uma referência importante para avaliar se os esforços recentes de recomposição das aprendizagens e fortalecimento das políticas educacionais começam a produzir avanços. Mais do que medir desempenho, a avaliação pode ajudar a orientar prioridades e sustentar uma agenda educacional mais consistente e equitativa.
O futuro que queremos para o Brasil depende das bases que construímos desde os primeiros anos. Garantir que cada criança tenha a chance de desenvolver seu pensamento matemático é abrir caminhos para autonomia, participação e criação. Mais do que melhorar indicadores, trata-se de afirmar uma escolha de país e fazer da matemática uma possibilidade para todos.
* Lia Roitburd é gerente sênior de projetos educacionais da Fundação Telefônica Vivo
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