ONG OLÁ promove em Curitiba a autonomia de pessoas com deficiência intelectual

Grupo conhecido por ser o menos impactado pelas políticas para minorias tem no espaço atividades que vão de marcenaria a meditação

4 dez 2018
03h11
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Pegar o ônibus e lavar a louça eram tarefas fora do alcance de Gabriela Morzelli, de 19 anos. Mas não mais. A jovem, que tem deficiências intelectual e auditiva, é um dos seis integrantes da pequena ONG Lar Assistido (OLÁ), na capital paranaense. Graças à iniciativa, no último ano a estudante de ensino médio na Educação de Jovens e Adultos, a EJA, conseguiu ampliar suas funções cotidianas, dentro e fora de casa. O projeto ganhou forma em 2017 e promove atividades que estimulam a independência de pessoas com déficit cognitivo.

Os participantes, jovens em sua maioria, são acolhidos num centro dia, conhecido como "escola da vida". De segunda a sexta, fazem atividades como marcenaria, culinária, horta, exercícios físicos e meditação. Antes de descobrir a OLÁ, Sandra Morzelli, de 57, mãe de Gabriela, matriculou a filha em diferentes atividades extracurriculares. A jovem sofreu preconceito e era deixada de lado pelos professores. Na ONG, as atividades são adaptadas de acordo com suas capacidades. "Se começam um processo com ela e dá errado, o problema não é mais a Gabriela, é o processo", observa Sandra.

No Brasil, 6,7% da população têm algum tipo de deficiência, segundo o Panorama Nacional e Internacional da Produção de Indicadores Sociais de 2018, feito a partir dos dados do Censo do IBGE de 2010. Gabriela faz parte do 1,4% - cerca de 2,9 milhões de pessoas - com deficiência intelectual.

O déficit se refere a limitações no funcionamento intelectual e na adaptação em habilidades práticas e sociais. O dado é da Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento, organização dos EUA que fundamenta a pesquisa. Autistas e downs, por exemplo, são parte do grupo.

A especialista em transtornos globais do desenvolvimento Maria de Lourdes Batista, de 55, explica que é fora do espaço doméstico que esses jovens conseguem desenvolver autonomia. "Eles têm dificuldade de aquisição e retenção de conteúdos, diferentemente de outras deficiências. O ideal é fazer esse trabalho em escolas ou instituições."

Célia Ângelo, de 52, presidente e uma das fundadoras da ONG, alerta que essas pessoas são tratadas de forma infantil dentro de casa. Ela é mãe de Amon Ângelo Branco, de 28, autista. "Às vezes, me pego cortando uma fatia de pão, o que ele mesmo poderia fazer." A principal motivação para dar início ao projeto foi a preocupação com o futuro do filho quando ela não estiver mais presente. A ONG, que sobrevive de doações e não recebe subsídio governamental, tem como objetivo construir moradias compartilhadas, adaptadas às necessidades dos assistidos.

A assistência da ONG é importante para todos os que estão ao redor das pessoas com deficiência intelectual. "Um filho especial absorve toda a nossa energia, e somos muito sozinhas", conta Sandra, mãe de Gabriela. "Foi muito bom achar um lugar que me entende e ajuda na educação da minha filha." O próximo passo da ONG, em estudo, é a inserção dos participantes no mercado de trabalho.

* É finalista do 13º Prêmio Estado de Jornalismo

Estadão

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