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Modelo do IPT Open causa dúvidas entre acadêmicos

Pesquisadores e alunos temem tendência de privatização no ensino superior público e cobram mais diálogo nos processos

26 set 2021 17h06
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A inauguração do Inteli nos arredores da Cidade Universitária da USP e a ocupação de dois prédios do Instituto de Pesquisas Tecnológicas gera críticas por parte da comunidade acadêmica. Alunos e professores temem que a instituição, parte do projeto IPT Open Experience, cujo objetivo é fomentar parcerias com o setor privado, sinalize uma privatização do ensino superior a longo prazo e cobram mais investimentos nas instituições públicas existentes.

"O IPT sempre trabalhou com parceria público-privada, ele nasceu dessa forma para apoiar a indústria da construção civil no século XX, depois a indústria metalúrgica na era Vargas", aponta Priscila Leal, pesquisadora do instituto e diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia (SINTPq). "Mas o que a gente vê com o Inteli e o IPT Open é um arrendamento do instituto. A gente perde assim a liberdade de servir à sociedade como um todo", afirma.

Priscila teme que a instalação de empresas dentro do câmpus faça com que os centros de pesquisa não estejam mais a serviço da sociedade. "Por que abrir uma universidade particular em assuntos que têm aderência dentro da própria USP e por que explorar comercialmente esse nicho educacional para um grupo restrito da sociedade, que vai trabalhar para o mercado financeiro ou interesses dos próprios grupos?", questiona. "Não é a faculdade, mas o modelo que é o problema."

Em carta aberta, o Diretório Central dos Estudantes da USP e outras 40 entidades estudantis ligadas à universidade se posicionaram contra a instalação do Inteli no câmpus. "A nossa questão é por que não investem na USP, nas bolsas de mestrado, doutorado e pesquisa? Está cada vez mais difícil manter e prosperar esses cursos. Por que não olham para os cursos que já existem?", questiona Larissa Alves, de 23 anos, estudante de Matemática e representante do Centro Acadêmico da Matemática, Estatística e Computação do Instituto de Matemática e Estatística. Das 240 vagas do novo instituto, de acordo com sua CEO, Maíra Habimorad, 90 serão para bolsistas, dentre as quais uma parte será especificamente direcionada a candidatos negros e mulheres.

Um dos principais nomes à frente da iniciativa, Patrícia Ellen, secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, defende que a curadoria das empresas e instituições é feita pela própria diretoria do IPT. "O que [os membros do IPT] pediram é tecnologia de ponta, que seja reconhecida globalmente. Com esse objetivo, não tem como não ter cuidado com a curadoria das empresas. Todos os núcleos são geridos por eles", explica. "Mais que empresas, são projetos de alto impacto."

Em nota, o Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), primeira faculdade de computação baseada em projetos do país, reforça que é uma iniciativa filantrópica, sem fins lucrativos, criada pelos sócios do BTG Pactual, André Esteves e Roberto Sallouti, a partir de uma doação de R$ 200 milhões da família Esteves.

O instituto também reforça que a iniciativa não tem vínculo com programas de formação de alunos em tecnologia do Estado de São Paulo. A instalação do Inteli no IPT se dá através da adesão ao chamamento público para instalações de Centros de Inovação publicado em 2019.

Como previsto no chamamento público, entes privados (com ou sem fins lucrativos) que desenvolvam P&D ou promovam a capacitação de recursos humanos podem submeter um plano de trabalho e percorrer o rito do chamamento público para instalação de um Centro de Inovação no IPT. Se necessário para a consecução do objeto do plano de trabalho, os entes privados poderão contar com a cessão de uso de espaço, devidamente remunerada ao IPT.

Os projetos privados ali desenvolvidos fazem parte do IPT Open, mas não são iniciativas do governo do Estado.

Estadão
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