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Darwin no Brasil - Parte I

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Voltaire Schilling

Charles Darwin, vindo a bordo do brigue HSM Beagle em viagem de estudos ao redor do mundo não ficou muito tempo no Brasil. Teve, todavia, o suficiente para duas coisas; espantar-se com o esplendor da natureza tropical, completamente diversa da européia, e, tendo visto como os negros eram tratados, afirmar ainda mais o seu horror à escravidão.

Embarcando na aventura

Conforme ele confessa nos seus diários (intitulados de Journal of Researches, aparecido em 1839), a publicação dos feitos da longa viagem de cinco anos foi uma sugestão do capitão do navio Robert FitzRoy, um marinheiro inglês que desejava repetir os feitos do capitão Cook, o grande navegador do século XVIII que descobrira a Nova Zelândia e a costa leste da Austrália, em 1770.

Partiram de Devenport/Plymouth Sound, na Cornuália, Inglaterra, no dia 27 de dezembro de 1831 e somente retornaram no dia 2 de outubro de 1836, ancorando no porto de Falmouth. Neste tempo todo Darwin passou três anos e três meses em terra realizando suas desbravações e outros 18 meses no mar.

O material que coletou e as observações que registrou é que serviram como matéria prima para suas teorias expostas mais tarde no seu famoso ensaio "A Origem das Espécies" publicado em 1859, 23 anos após ter encerrado a viagem de circunavegação.

A reprodução dos diários que se segue abrange apenas a parte inicial da aventura, a que narra a visita dele às ilhas da África Ocidental, seguida da travessia atlântica e da chegada a Salvador da Bahia e, em seguida, sua estada de quatro meses no Rio de Janeiro.

Prefácio de Charles Darwin

Expus no prefácio para a primeira edição desta obra, e na parte zoológica da "Viagem do Beagle", que foi em conseqüência de um desejo expresso pelo Capitão FitzRoy, de ter algum cientista a bordo, acompanhado de uma oferta da parte dele de desfrutar de suas próprias acomodações, que ofereci meus serviços, os quais receberam, graças à gentileza do hidrógrafo, Capitão Beaufort, a sanção do Ministério da Marinha.

Permita-se, pois, que eu possa expressar toda minha gratidão ao Capitão Fitz Roy, porque a ele devo a oportunidade de ter podido estudar a historia natural dos diferentes países que visitamos. Acrescentarei que, durante os cinco anos que passamos juntos, tive sempre em sua pessoa um amigo sincero e obsequioso. Também quero manifestar meu agradecimento aos oficiais do Beagle , que sempre me trataram com invariável cortesia durante nossa longa viagem.

Este volume contém, em forma de Diário, a história de nossa viagem e algumas breves observações acerca da história natural e da geologia, que, por seu caráter, me parecem ambas capazes de interessar ao público. Para esta nova edição condensei severamente algumas partes como corrigi outras, assim como adicionei determinados trechos a outras partes, sempre com o fim de tornar mais acessível a obra a todos os leitores.

Confio, porém, que os naturalistas recordarão que, se estiverem em busca de detalhes, será preciso que consultem as publicações maiores, que compreendem os resultados científicos da Expedição. A parte zoológica da Viagem do Beagle contém: um registro do professor Owen a respeito dos mamíferos fósseis; outro do sr. Waterhouse a respeito dos mamíferos vivos; outro do sr. Gould acerca das aves; outro do reverendo L. Jenyns acerca dos peixes, e outro do Sr. Bell sobre os répteis.

Acrescentei à descrição de cada espécie, algumas observações a respeito de seus costumes e o meio em que vivem. Estes trabalhos, dos quais sou devedor tanto no que diz respeito às enormes capacidades de seus distintos autores, quanto ao zelo desinteressado que mostraram, não poderiam ter sido empreendidos sem a liberalidade dos Lordes Comissários do Tesouro de Sua Majestade, os quais, por meio da representação do Excelentíssimo Chanceler de Exchequer, se dignaram a nos conceder a quantia de (1.000 libras esterlinas) para custear parte dos gastos requeridos para essa publicação. (...)

Ao longo desta obra, terei o prazer de indicar a grande ajuda que me foi prestada por outros naturalistas. Desejo, porém, que aqui se me permita prestar meus mais sinceros agradecimentos ao professor Henslow, pois foi ele que, quando eu estudava na Universidade de Cambridge, fez com que eu me apaixonasse pela história natural; foi ele que, durante minha ausência, encarregou-se das coleções que, de tempos em tempos, eu remitia a Inglaterra; foi ele que, com suas cartas, dirigiu minhas investigações, e quem, desde meu retorno, ofereceu-me toda assistência, sendo para mim o amigo mais afetuoso que se poderia desejar.

DOWN, BROMLEY, KENT, Junho de 1845.

Começando a viagem

Porto-Praia - Ribeira Grande - Poeira atmosférica com infusórios - Hábitos de um nudibrânquio e uma lula - Rochas de São Paulo, não-vulcânicas - Incrustações singulares - Insetos, os primeiros colonizadores das ilhas - Fernando Noronha - Bahia - Penhascos polidos - Costumes de um Baiacu - Confervae oceânico e infusórios marinos - Causas da cor do mar.

Depois de ser duas vezes rechaçado por terríveis tempestades de sudoeste, o barco de Sua Majestade Beagle, brigue de dez canhões, sob o comando do capitão Fitz Roy, da marinha real, zarpou de Devonport em 27 de dezembro de 1831.O objetivo da expedição era: completar o estudo das costas da Patagônia e da Terra do Fogo (estudo começado sob as ordens do Capitão King, de 1826 a 1830) - mapear as costas do Chile, do Peru e de algumas ilhas do Pacífico, e, por último, fazer uma série de tomadas cronométricas ao redor do mundo.

Em 6 de janeiro chegamos a Tenerife, onde fomos impedidos de desembarcar, graças ao temor de que trouxéssemos o cólera. Na manhã seguinte vimos a alvorada atrás da linha irregular da ilha Grande Canária, iluminando subitamente o pico de Tenerife, enquanto a parte inferior da ilha permanecia ainda oculta por vapores ligeiros. Esta foi o primeiro de tantos dias deliciosos para nunca mais serem esquecidos. Em 16 de janeiro de 1832, ancoramos em Porto-Praia, em Santiago, a maior das ilhas do arquipélago de Cabo Verde.

Vistas do mar, as cercanias de Porto-Praia têm um aspecto desolador. As erupções vulcânicas do passado e o calor ardente de um sol tropical fizeram do solo, em quase todas as partes, impróprio para a acomodar qualquer tipo de vegetação. O território se eleva em sucessivas mesetas, cortadas por algumas colinas em forma de cones truncados; e uma cadeia irregular de montanhas grandiosas quase encobre a linha do horizonte.

A paisagem, contemplada através da atmosfera nebulosa peculiar deste clima, é de grande interesse; se é que, um homem que acaba de desembarcar e cruza pela primeira vez um bosque de coqueiros, pode ser juiz de outra coisa que não seja a felicidade que experimenta. A ilha seria considerada, em geral, como muito pouco interessante, mas para alguém acostumado apenas às paisagens inglesas o aspecto tão novo de uma terra completamente estéril possuía a grandeza que talvez uma vegetação mais luxuriante pudesse arruinar.

Uma simples folha verde somente com muita dificuldade poderia ser encontrada durante longas extensões de planícies formadas pela lava. Ainda assim, rebanhos de cabra, somados a umas poucas vacas, conseguiam sobreviver. Raramente chove por aqui, embora, durante um curto período do ano, as precipitações sejam torrenciais, e imediatamente após a chuva uma leve vegetação emerge de cada ranhura do terreno.

Esta vegetação logo definha; e é desse pasto formado de modo tão natural que os animais se alimentam. No momento, faz mais de um ano que não chove. Quando a ilha foi descoberta, os arredores mais próximos de Porto-Praia estavam cobertos de árvores*, cuja derrubada, praticada com tamanha negligência, causou aqui, assim como em Sta. Helena e em algumas das Ilhas Canárias, uma esterilidade quase que completa do solo. Os vales, amplos e profundos, muitos dos quais servem durante os poucos dias da estação de chuvas como rios, estão cobertos com moitas de arbustos desfolhados.

Poucos seres vivos habitam esses vales. A ave mais comum é o Martim-pescador (Dacelo Iagoensis), que tranqüilamente pousa sobre os galhos do mamoneiro, e dali se lança sobre gafanhotos e lagartixas. É uma ave de um colorido brilhante, mas não tão bonito quanto o das espécies européias: no seu modo de voar, nas suas maneiras e no que diz respeito ao local que habita, que é geralmente o vale mais seco, estabelece-se, também, uma enorme diferença.

Visitando ruínas

Certo dia, dois dos oficiais e eu seguimos até Ribeira Grande, povoado situado a uns poucos quilômetros a leste de Porto-Praia. Até chegarmos ao vale de São Martim, a região apresentava seu costumeiro aspecto de um marrom monótono; mas aqui, um pequeníssimo riacho produz margens vívidas com a mais luxuriante das vegetações. No período de uma hora, chegamos a Ribeira Grande e ficamos surpresos diante da visão das portentosas ruínas de um forte e de uma catedral. Esta pequena cidade, antes que seu porto secasse, tinha sido o lugar principal da ilha: agora era um povoado de aparência melancólica, ainda que bastante pitoresca.

Tendo tomado como guia um padre negro e um intérprete espanhol que serviu na guerra peninsular, visitamos uma série de construções, das quais a antiga igreja formava o eixo principal. É aqui que foram enterrados os governadores e os capitães-general da ilha. Algumas das lápides traziam datas do século XVI**. Os ornamentos heráldicos eram as únicas coisas neste local retirado que nos faziam lembrar da Europa. A igreja ou capela formava um dos lados de um quadrilátero, no meio do qual crescia um enorme bananal. No outro lado, havia um hospital, contendo aproximadamente uma dúzia de internos de aparência desoladora.

Voltamos à Venda para jantar. Uma enorme multidão de homens, mulheres e crianças, todos mais negros que o pez, se une para nos examinar. Nosso guia e nosso intérprete, faceiros, riam de cada coisa que fazíamos, cada palavra que pronunciávamos. Antes de deixar o povoado, visitamos a catedral, que não nos pareceu tão rica como a igreja, embora se orgulhasse de possuir um pequeno órgão de sons nada harmoniosos. Demos alguns xelins ao sacerdote negro; e o espanhol, dando-lhe uns tapinhas na cabeça, disse-lhe, com muita candura, que considerava que a cor da pele era algo de pouca importância. Regressamos então, na velocidade máxima de nossos cavalos, a Porto-Praia.

Aves da Guiné

Outro dia, seguimos até a vila de São Domingo, localizado quase no centro da ilha. Enquanto cruzávamos uma pequena planície, avistamos algumas acácias atarracadas; os ventos alí¬sios, soprando continuamente na mesma direção, haviam dobrado de tal modo as árvores a partir das copas, que às vezes estas formavam um ângulo reto com o tronco. A direção dos galhos é exatamente NE. para N. e SO. para S.; estas curvaturas naturais devem indicar a direção dominante dos ventos. O rastro dos viajantes deixava tão poucas marcas neste solo árido que acabamos nos perdendo por ali, e, pensando ir a Santo Domingo, acabamos nos dirigindo a Fuentes.

Só percebemos nosso erro ao chegarmos lá. No fim, acabamos por ficar muito satisfeitos com nosso equívoco. Fuentes é um bonito povoado, às margens de um pequeno riacho, e tudo ali parecia prosperar de modo correto, excetuando-se, de fato, o elemento mais importante: os habitantes. Vimos numerosas crianças negras, completamente desnudas e que pareciam muito miseráveis; carregando achas de lenhas quase do tamanho de seus corpos.

Avistamos, próximo a Fuentes, numerosos bandos de aves de Guiné ¿ um número em torno de cinqüenta ou sessenta. Eram extremamente ariscas e não permitiam nenhum tipo de aproximação. Evitavam-nos, como se fossem perdizes num dia de setembro, fugiam de nós com as cabeças erguidas. E se nos púnhamos a persegui-las, imediatamente alçavam vôo.

A paisagem de São Domingos possui uma beleza totalmente inesperada, destoando por completo do caráter lúgubre do resto da ilha. A aldeia, localizada no fundo de um vale, acha-se cercada por altas e rugosas muralhas de lava estratificada. Os rochedos negros formam um notável contraste com o verde vivo de uma vegetação que costeia os bancos de um pequeno riacho de água cristalina. Era dia de festa e a cidadezinha fervilhava. No nosso retorno, alcançamos um grupo alegre, composto de cerca de vinte jovens negras, vestidas com excelente gosto.

O linho branco de suas roupas caia muito bem sobre suas peles escuras. Usavam ainda como adorno turbantes e mantas de cores vistosas. Assim que nos aproximamos, elas subitamente deram meia-volta e, estendendo as mantas no caminho, começaram a cantar com grande vigor uma canção selvagem, marcando o ritmo com as mãos contra as pernas. Nós lhes demos algumas moedas, que foram recebidas com risadas estridentes, e as deixamos envolvidas entre a algaravia de sua canção.

Primeiras amostras

Certa manhã, o dia estava singularmente limpo. As montanhas ao longe se projetavam com fantástica nitidez contra uma densa massa de nuvens azul-escuras. A julgar pela aparência, e baseado em casos similares ocorridos na Inglaterra, supus que o ar estava saturado pela umidade. De fato, porém, dava-se justamente o contrário. O higrômetro acusou uma diferença de 29,6 graus entre a temperatura do ar e o ponto de orvalho. Essa diferença era de aproximadamente o dobro das observações feitas nas manhãs anteriores. A grau de secura incomum da atmosfera era acompanhando de uma série contínua de relâmpagos. Não é, todavia, incomum encontrar um caso de notável transparência do ar em tal estado de tempo?

A atmosfera geralmente é fosca e isto é causado pela queda de uma poeira fina e impalpável. Descobriu-se que tal poeira havia provocado um pequeno estrago nos instrumentos astronômicos. Na manhã anterior, ao ancorarmos em Porto Praia, coletei uma pequena amostra desse pó fino e de cor parda, que havia sido filtrada do vento pela gaze fixada no topo do mastro da embarcação. Mr. Lyell também me forneceu quatro amostras do pó que tinham sido coletadas de um vaso a poucas centenas de quilômetros ao norte dessas ilhas.

O professor Ehnberg* acredita que este pó é constituído em grande parte de infusórios com proteção silícica e de tecidos silícicos de plantas. Em cinco pequenas amostras que lhe enviei, ele constatou nada menos que sessenta e sete diferentes formas orgânicas! Os infusórios, com a exceção de duas espécies marinhas, são todos habitantes de água doce. Encontrei nada menos que quinze diferentes registros de pó caído sobre embarcações em regiões afastadas do Atlântico. Em função da direção do vento, sempre que o fenômeno é observado, e levando-se em consideração que o pó sempre cai durante os meses do harmatão, vento conhecido por erguer nuvens de poeira até a alta atmosfera, podemos ter certeza de que todo esse pó vem da África.

É, contudo, fato bastante singular que o Professor Ehrenberg, embora profundo conhecedor das espécies de infusórios peculiares à África, não tenha encontrado nenhuma dessas espécies nas amostras que lhe remeti. Por outro lado, ele ali encontrou duas espécies que ele tinha como nativas da América do Sul.

O pó cai em tamanha quantidade que chega a sujar tudo a bordo, irritando, inclusive, os olhos das pessoas. Sabe-se também de embarcações que tiveram que ancorar dado o grau de obscuridade da atmosfera.Este pó tem freqüentemente caído sobre navios a várias centenas, e até mesmo a mais de mil e seiscentos quilômetros da costa africana. Em alguns pontos, passa de dois mil quilômetros numa direção norte-sul. Surpreendeu-me encontrar no pó, colhido num vaso a trezentos quilômetros da terra firme, partículas de pedra medindo mais do que a milésima parte de 6,5cm quadrados vinte e cinco micra, misturada com substâncias mais finas. Depois disto, ninguém precisa se admirar com o poder de difusão dos esporos de plantas criptógamas, que são muito mais leves e menores.

Descrição geológica

A geologia desta ilha é a parte mais interessante de sua história natural. Logo que se entra no porto, vê-se uma faixa branca perfeitamente horizontal, estendendo-se ao longo de vários quilômetros de costa, a uma altura de cerca de quatorze metros do nível do mar. O exame deste estrato branco revela uma massa de matéria calcária contendo numerosas conchas, a maioria das quais, quando não todas, podendo ser encontradas como espécie viva nas costas vizinhas.

Este estrato branco repousa sobre antigas rochas vulcânicas e está coberto por uma corrente de basalto, que deve ter penetrado no mar quando o leito do oceano era formado por este estrato branco cheia de conchas. É interessante observar as modificações produzidas pelo calor da lava sobrejacente na massa friável, convertendo-a, em alguns lugares, em pedra calcária cristalina e, em outros, em pedra compacta manchada. Onde o calcário foi detido pelos fragmentos de escoriação na superfície inferior da corrente, formaram-se grupos de fibras radiadas de grande beleza que se assemelham à aragonita.

As camadas de lava se erguem em planos sucessivos de pequenos declives em direção ao interior, de onde devem ter sido expelidos primeiramente os dilúvios de pedra fundida. Dentro dos tempos históricos, nunca se manifestou, que eu saiba, em parte alguma de Sto. Jago, nenhum sinal de atividade vulcânica. Mesmo a forma de uma cratera só raramente pode ser descoberta no topo das muitas colinas de cinza vermelha: ainda assim, as correntes mais recentes podem ser discriminadas na costa, formando linhas de despenhadeiros menos altos, mas ultrapassando os oriundos de séries mais antigas: a altura dos despenhadeiros, deste modo, pode oferecer uma medida rudimentar da idade das correntes.

Moluscos e polvos

Durante a nossa permanência, observei os hábitos de alguns animais marinhos. É muito comum se avistar uma grande Aplísia. Este molusco tem cerca de doze centímetros de comprimento e possui uma cor de amarelo sujo, com veias púrpuras. De cada lado da superfície inferior, ou pé, existe uma larga membrana que parece algumas vezes agir como ventilador para dirigir uma corrente de água sobre as brânquias dorsais, ou pulmões. Alimenta-se de algas delicadas que crescem entre as pedras de água rasa e lamacenta. Encontrei em seu estômago vários seixos diminutos, como ocorre na moela dos pássaros. Este molusco, quando perturbado, segrega um fluído vermelho-púrpura muito fino, que tinge a água numa extensão de trinta centímetros ao seu redor. Além deste meio de defesa, possui ainda uma secreção acre sobre toda a superfície do corpo, que causa uma sensação de ferroada aguda semelhante à da fisália, ou à da caravela-portuguesa.

Estive muito interessado, em várias ocasiões, nos hábitos de um Octopus, ou polvo. Embora comuns nas poças deixadas pela retração da maré, estes animais não se deixavam apanhar com facilidade. Com o auxílio de seus longos tentáculos e de suas ventosas, conseguiam se esgueirar pelas fendas mais estreitas. Uma vez ali fixados, é necessária uma força enorme para retirá-los. Ás vezes, porém, rápidos como uma flecha, lançavam-se para a outra extremidade da poça, soltando, ao mesmo tempo, uma tinta castanho-escuro que turvava a água por completo.

Estes animais conseguem ainda passar despercebidos pela extraordinária e camaleônica propriedade de mudar de cor. Parecem variar de tonalidade de acordo com a natureza do ambiente em que se encontram: quando em água profunda, assumem uma tonalidade pardo-purpúrea; em água rasa, tornam-se amarelo-esverdeados. A cor, examinada mais atentamente, revelava-se de um cinza-chumbo, salpicada por minúsculos pontos amarelos brilhantes. Estes pontos apareciam e desapareciam alternadamente sobre o fundo cinzento, cuja intensidade era igualmente instável.

Essas mudanças se operavam de tal forma que, sobre o corpo do animal, passavam continuamente nuvens que iam do vermelho-violeta ao castanho-escuro*. Qualquer parte do corpo a que se aplicasse um pequeno choque galvânico se tornava quase negra: um efeito similar, mas em menor grau, produzia-se ao lhe arranhar a pele com uma agulha. Estas nuvens coloridas, ou manchas como também podem ser chamadas, segundo se acredita, são produzidas pela expansão e contração alternadas de minúsculas vesículas contendo uma variedade de fluidos coloridos.

Um octopus

Este polvo deu mostra de suas propriedades camaleônicas tanto quando se movia na água como quando estacionava no fundo. Muito me divertiram os vários esforços que um deles empregou para fugir às minhas vistas ao perceber que eu o estava espiando. Depois de permanecer imóvel durante certo tempo, avançou cautelosamente cinco ou dez centímetros, como um gato que perseguisse um rato, às vezes mudando de cor. Assim prosseguiu até que, tendo alcançado uma parte mais funda, zarpou veloz, deixando atrás de si um rastro de tinta preta que escondia a entrada do buraco em que havia se metido.

Enquanto andava à procura de animais marinhos, com minha cabeça a meio metro acima das pedras da praia, fui, mais de uma vez, saudado por um jato de água, seguido de um ruído que se fazia ouvir, lembrando um roçar surdo. A princípio, eu não podia imaginar o que era. Mais tarde, porém, verifiquei que eram os polvos que, embora escondidos em buracos, inúmeras vezes eram por mim descobertos. Que eles possuem a propriedade de produzir jatos de água não há dúvida, e me pareceu que, poderiam fazer ótima pontaria dirigindo o tubo ou sifão pela parte inferior do corpo. Por causa da dificuldade que têm de sustentar suas cabeças, não podem se locomover desembaraçadamente quando colocados no chão. Observei que um polvo que eu guardava em minha cabine era ligeiramente fosforescente no escuro.

Cruzando o Atlântico

Rochedos de S. Paulo - Ao atravessarmos o Atlântico, na manhã de 16 de fevereiro, aproamos para o vento, aproximando-nos da ilha de São Paulo. Este agrupamento de rochedos está situado entre a latitude 0°58' norte e longitude 29° 15' oeste. A distância que os separa do continente americano é de mil quilômetros, e da ilha Fernando de Noronha, seiscentos e cinqüenta. O ponto mais elevado está somente a quinze metros acima do nível do mar, e todo o perímetro não chega a mil e duzentos metros. Esta pequena ponta se ergue abruptamente das profundezas do oceano.

Sua constituição mineralógica não é simples; em algumas partes, o rochedo apresenta uma natureza quartzosa; em outras, feldspática, incluindo finos veios de serpentina. É fato de se admirar que, inúmeras ilhotas, distantes de qualquer continente, nos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico, com exceção das Seychelles e desta pequena ponta de rochedo, são, creio, compostas por coral ou matéria proveniente de erupções. A natureza vulcânica destas ilhas oceânicas é evidentemente uma extensão dessa lei, e efeito dessas mesmas causas, quer mecânicas ou químicas, das quais resulta que a vasta maioria dos vulcões ainda em atividade esteja situada junto ao litoral ou às ilhas no meio do mar.

Da distância, os rochedos de São Paulo são de uma cor branca e brilhante. Isto se deve por um lado aos excrementos de uma vasta multidão de gaivotas, e, por outro, a uma camada dura e polida de uma substância com um lustre perolado, que está intimamente ligada à superfície dos rochedos. Esta camada, quando examinada com uma lente, revela em sua consistência numerosas camadas muito finas, sobrepostas, cada qual tendo cerca de dois milímetros e meio. Muita matéria animal está ali contida, e sua origem, sem dúvida, deve-se à ação da chuva ou à ação das ondas sobre o esterco das aves.

Ilhas de Ascensão e Abrolhos

Sob pequenas massas de guano, encontrei em Ascensão e nos Abrolhos certos corpos com ramificações estalactíticas, formados, aparentemente, da mesma maneira que a tênue película sobre esses rochedos. Tal era a semelhança entre o aspecto geral destes corpos ramificados e o de certos nulliporae (uma família das plantas marinhas calcárias) que, quando mais tarde eu examinava apressadamente minha coleção, não percebi a diferença. As extremidades globulares das ramificações são de uma textura que se assemelha à da pérola, como o esmalte dentário, mas com tal grau de dureza que poderiam riscar o vidro.

Poderei mencionar aqui que, numa parte da costa de Ascensão, onde se encontram vastas acumulações de areia coberta de conchas, a água do mar deposita sobre os rochedos cobertos pela maré uma incrustação, , que faz lembrar certas plantas criptógamas (Marchantiae) que se vêem ocasionalmente sobre as paredes úmidas, conforme a gravura sobre madeira aqui reproduzida. A superfície da fronde possui um brilho magnífico. As partes formadas em plena exposição à luz são de cor preta, enquanto as que se formaram à sombra são apenas cinzentas. Mostrei espécimes desta incrustação a vários geólogos e todos foram da opinião de que eram de origem vulcânica ou ígnea!

Em sua dureza e translucidez - em seu polimento, igual ao das mais belas conchas de Oliva - no mau cheiro que exalava, e na perda de cor sob a ação do maçarico, revelava uma íntima semelhança com as espécies de conchas vivas. Além disso, como se sabe, nas conchas as partes habitualmente cobertas pelo manto do animal são mais pálidas que as porções completamente expostas à luz, tal como sucede no caso desta incrustação.

Quando nos lembramos de que o cálcio, seja na forma de fosfato ou de carbonato, entra na composição das partes duras de todos os animais vivos - como os ossos e as conchas - é fato* fisiológico interessante se encontrarem substâncias mais duras que o esmalte dentário, e superfícies coloridas e lustrosas como as das conchas frescas, que, por processos inorgânicos, foram reconstituídas de matéria orgânica morta - imitando ironicamente, inclusive, formas vegetais rudimentares.

Mergulhões e andorinhas

Encontramos nos rochedos de São Paulo somente dois tipos de aves - mergulhões e andorinhas-do-mar. Ambos se mostraram mansos e estúpidos, e estavam tão pouco acostumados a visitantes, que eu poderia ter abatido quantos quisesse com meu martelo geológico. A fêmea do mergulhão depositava os ovos sobre a rocha nua, mas a andorinha-do-mar construía um ninho muito simples com algas. Ao lado de muitos desses ninhos, podia se ver um pequeno peixe voador, ali deixado pelo macho, eu suponho, para sua companheira. Era muito divertido observar a rapidez com que um caranguejo grande e ativo (Graspus), morador das fendas dos rochedos, roubava o peixe do lado do ninho, logo que espantávamos as aves. Sir W. Symonds, uma das poucas pessoas que aqui desembarcaram, disse-me ter visto esses caranguejos chegar mesmo a arrastar do ninho os filhotes e os devorar.

Nem uma simples planta, nem um líquen sequer, cresce nesta ilhota. Ainda assim, isso não impede que seja habitada por vários insetos e aranhas. A lista que segue, creio, completa a fauna terrestre: uma mosca (Olfersia) vivendo às custas do mergulhão e um carrapato que deve tez vindo aqui como parasita das aves; uma pequena mariposa parda, pertencente a um gênero que se alimenta de penas; um besouro (Quedius) e um piolho, que vive em meio ao esterco; finalmente, numerosas aranhas que, segundo me parece, são predadoras destes pequenos seguidores das aves marinhas. Dar a descrição, já tão repetida, da majestosa palmeira e de outras plantas tropicais tão nobres, seguida pela descrição das aves, e, por fim, dos homens, tomando posse das ilhas de coral, logo que estas se formaram, no Pacífico, não será, talvez, o modo correto de proceder. Receio que isto destruirá a poesia desta história, mas será preciso admitir que os primeiros habitantes de uma terra oceânica recém-formada serão aranhas, insetos e parasitas coprófagos.

O menor rochedo nos mares tropicais que der base para o crescimento de inúmeras variedades de algas e animais compostos servirá igualmente de suporte ao desenvolvimento de grande número de peixes. Os tubarões e os marinheiros nos botes mantinham um combate constante para decidir quem levaria vantagem sobre a posse dos peixes apanhados no anzol. Ouvi dizer que um rochedo perto das Bermudas, muitas quilômetros mar adentro e a uma profundidade considerável, deveu sua descoberta à circunstância de ter sido notada a presença de peixes em suas imediações.

Nas águas do Brasil

Fernado de Noronha, 20 de fevereiro - Tanto quanto me foi possível observar durante as poucas horas em que permanecemos neste lugar, a constituição da ilha é vulcânica, mas provavelmente não de data recente. O que há de mais notável em seu caráter é uma colina de forma cônica que se eleva à cerca de trezentos e dez metros de altura, cujo cume é excessivamente escarpado, projetando-se, num dos lados, para fora da base. A rocha é monolítica e se divide em colunas irregulares.

Ao se olhar uma dessas massas isoladas, tem-se a princípio a impressão de que ela teria sido lançada bruscamente para cima num estado semifluido. Em Santa. Helena, no entanto, constatei que alguns pináculos de constituição e aspecto quase idênticos haviam sido formados pela intromissão de rocha fundida em estratos maleáveis que, por esta razão, teriam servido de moldes para esses gigantescos obeliscos. Toda a ilha está coberta de arvoredos; mas, devido ao clima seco, a vegetação não se mostra luxuriante. A meio caminho da montanha, grandes colunas de massa rochosa, à sombra de loureiros e ornadas de lindas flores rosadas - de árvores sem folhas -, davam à paisagem do entorno um efeito muito encantador.

Fonte: Redação Terra
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