Cluny, a revolução contra a abadia - Parte I

A abadia de Cluny era uma das maravilhas da França Medieval. Até o apronto final da Igreja de São Pedro, no Vaticano, no começo do século XVI, ela seguramente fora o maior complexo arquitetônico da cristandade ocidental e um dos maiores do mundo. Então ocorreu a Revolução de 1789 e a outrora poderosa Cluny, espoliada e vandalizada pela onda descristianizadora, desencadeada na ocasião, deixou de existir.

Origem da abadia
Certamente que o duque da Aquitânia Guilherme o piedoso jamais poderia imaginar que a doação dele a um grupo reduzidos de monges de um pequeno lote de terra com uma modesta edificação pudesse vir a se tornar na mais poderosa abadia do Ocidente cristão de toda a Idade Média, senão que de todos os tempos. Assim, em 11 de setembro de 909 ou 910, nasceu a abadia de Cluny, posta desde o início sob proteção Papal.

Situada no coração da França, na Borgonha, entre Dijon e Macon, nas margens do rio Grosne, local geoestratégico por onde cruzavam caminhos alemães, italianos e suíços, a abadia, a partir do século XI, tornou-se uma segunda Roma, ou como ambicionava, uma Nova Jerusalém. A abadia, com 187 m. de cumprimento, virou polo de atração preferencial dos peregrinos que vinham de todos os cantos da Europa prestar sua devoção a uma impressionante coleção de relíquias ¿ o verdadeiro tesouro de Cluny.

Na metade do século X ela já acumulara notável influência ao ponto do Papado indicá-la como o principal centro da política monacal. Todos os mosteiros, conventos e abadias que foram construídos desde aquele momento passaram a ser de algum modo tributários da abadia¿mãe de Cluny.

Adotando as regras de São Bento a sede borgonhesa serviu de modelo para as demais fortalezas espirituais que a cristandade espalhara pelo campo medieval ainda encharcado de paganismo.

Por alto, sua autoridade, além da França, atingia a península Ibérica, a Inglaterra, e até a vizinha Alemanha. No auge do seu prestigio, durante a arquiabadia de Hugo de Semur, exercia hegemonia sobre mais de 120 edificações cristãs de grande porte (contando-se com as instituições menores, com 5 ou 15 monges cada, Cluny obteve o reconhecimento de outras 800 ou 1100).

Daniel Rops, por sua vez, estimou 10 mil monges distribuídos em 1.450 casas enxameadas por boa parte da Europa Ocidental.

Não é de todo implausível afirmar que a Grande Abadia, entre os séculos XI e XIII, teria lançado as bases de uma República Cristã supra-européia apoiada em inúmeros falanstérios religiosos, unida pela Bíblia, pelo Latim e pelo Direito Canônico. Um complexo de edificações pias cuja ligação desconhecia as fronteiras nacionais, abarcando vários reinos, principados, condados, baronatos e ducados, compondo um embrião precursor da atual Unidade Européia (a qual somente se solidificou mil anos depois da fundação da abadia principal).

Foi nos começos do século XIII que ela transcendeu a posição de Eclesia cluniacensis para vir a ser Ordo cluniacenses - dotada de controle local e regional, governada por um colegiado que fazia o papel de um ministério assessorando o abade-mor, e por um Capitulo Geral definitivo que veio a servir como exemplo (os primeiros estatutos que consagraram o nascimento da ordem foram promulgados em 29 de outubro de 1200). Tornou-se o centro da renovação do medievo cristão e a mais poderosa matriz do poder intelectual e teológico do Ocidente.

As relíquias de Cluny
Por estar ao abrigo das incursões que assolavam a Europa dos séculos X a XIII (árabes na Ibéria e no mar Mediterrâneo, vikings no litoral da França atlântica), Cluny tornou-se um importante relicário. A igreja matriz construída em nome da Virgem e de São Pedro, orgulhava-se de possuir no seu acervo, além de uma lasca da cruz de Cristo, as cinzas dos dois maiores apóstolos: Pedro e Paulo.

Celebravam também ter partes do sepulcro de Cristo e até um pedaço da rocha de onde ele alçou-se aos céus. Também reservaram um espaço para o hábito da virgem e para as lascas da tumba de Lázaro, havendo ainda restos dos "santos inocentes" e dos "40 mártires", como também as cinzas do famoso monge irlandês Columbano, muitas delas acondicionadas em filactérios ricamente decorados com pedras preciosas.

Para os mesmos santos, Pedro e Paulo, foi erguido o priorado feminino de Marcigny, em 1055, acolhendo em seu interior as relíquias da virgem romana Agnes. Fixaram sua habitação em 99 monjas, cabendo a centésima vaga à Virgem, denominada por isto mesma de La Centisima.

Numa época dominada pela devoção extrema, as relíquias tinham papel fundamental na atração dos fiéis e dos pagadores de promessa. Graças ao fluxo constante de peregrinos que Cluny acolheu foi possível ampliar imensamente a construção original (denominada de Cluny I), transformando-a num vasto complexo de edificações voltadas para a celebração da glória de Deus e do poder da Igreja, composto por 5 naves, sendo das quais 2 transversais, 7 torres e 5 capelas, e diversos estabelecimentos menores (Cluny II e Cluny III).

Não tardou para que Cluny não só superasse Roma, como fizesse esquecer o Mosteiro de Monte-Cassino, situado na Itália, tido até então como "a luz do Ocidente" e de onde importara as Regras dos Monges que São Bento legara a cristandade em 534.

Entregue originalmente à soberania Papal, dois séculos e meio depois, com a emergência da monarquia francesa, Cluny entregou-se à proteção do rei Luís IX, em 1258.

Poder e prestígio
Certamente que o crescimento extraordinário de Cluny, estendendo-se por parte considerável da Europa Ocidental, deveu-se a certo vazio político, característico da Alta Idade Média. O Sacro Império Romano-Germano, fundando por Otão I, em 962, dava seus primeiros passos e estava bem longe de estender sua soberania um tanto além das fronteiras da Alemanha, ou melhor, do eixo Alemanha-Itália. O Papado, por seu lado, traçava forças com o imperador em sua luta para se impor como o verdadeiro Príncipe Perfeito da Cristandade Ocidental.

Ambos, Pedro e Cesar, se desgastaram como no famoso episódio das Investiduras demonstrara (conflito entre o Papa Gregório VII e o Imperador Henrique IV que, iniciado em 1075, estendeu-se com outros até 1122).

Neste episódio, Cluny, encabeçando a reforma, abertamente manifestou-se pela soberania espiritual, apoiando o Papado na sua ambição de liderar a cristandade. Opôs-se abertamente contra vigência do Sistema Carolíngio (que afirmava a saliência da coroa sobre a mitra), defendendo o Sistema Monástico (a proeminência do Papa sobre qualquer outra autoridade). Neste quadro é que adotou e difundiu definitivamente a necessidade do voto de castidade para os padres e freiras.

Foi esta atuação reformista, erguendo a bandeira da teocracia mais firme do que a própria Cúria Romana, é que fez por projetar um dos seus arquiabades, Eudes de Chatillon, ser sagrado depois em Roma como Urbano II, o papa que iria deflagrar a Primeira Cruzada (em Clermont-Ferrant, em 1095). Esta 'classe que ora', institui-se num verdadeiro supraestado, ainda que não tenha fronteiras nem disponha de exércitos ( não deixa de impressionar o fato que numa época que celebrava o feito do guerreiro, os monges que não dispunham nem cultivavam as armas tivessem tal ascendência sobre a sociedade).

O ataque dos iluministas
Somente a partir de 1750 - assegura Daniel Mornet em sua obra clássica -, é que as criticas ao cristianismo e à Igreja Romana em geral começaram a tomar vulto na França. Os filósofos iluministas eram confessadamente anticlericais e apontavam a corporação clerical e suas instituições como fonte de grande parte dos males nacionais: o fanatismo religioso, o estímulo à crendice e à intolerância.

As obras então se sucedem: a 'História natural' de Buffon, 'Espírito' de Helvécio, a 'Enciclopédia' de Diderot e d´Alembert, e os inúmeros escritos de Voltaire que, do seu retiro em Les Délices e, depois, em Ferney, obediente ao lema 'a incredulidade é a base de toda a sabedoria', bombardeia incessantemente a sociedade culta com seus panfletos pregando a tolerância e o bom censo no trato das questões religiosas.

O filósofo travava uma guerra particular contra a Igreja Católica (écrasez la infâme!), a quem apontava como a principal responsável pela abrumadora ignorância das gentes, por fazê-las temerosas das forças sobrenaturais.

A principal peça de ataque que ele escolheu foi um 'dicionário portátil', denominado Dictionaire Philosophique, impresso em Genebra, no ano de 1764, no qual, por meio de verbetes selecionados e contundentes, tratou de humanizar o debate, abordando os assuntos religiosos pelo lado humano e histórico e não pelo sagrado.

O fato de ele preferir como veículo das suas ideias um dicionário de bolso indicava o intento de alcançar um público leitor o mais amplo possível e que assim pudesse acolher a mofa que ele fazia dos milagres, da superstição e das relíquias. Denunciando os mosteiros (presididos por abades, uns hipócritas que faziam voto de pobreza em meio a riqueza da ordem) como edifícios erguidos pela crendice em honra a um reino inexistente.

A religião natural
Crescia entre os iluministas a necessidade de contrapor-se à religião revelada (entendida por eles como uma sucessão de contos de terror, e de ameaças de sofrimentos sem-fim, liderada por um Deus vingativo), com a que denominavam de "religião natural".

Uma crença que levasse em consideração as fraquezas humanas e inspirasse a tolerância nos homens. Em geral, manifestavam-se pelo Deísmo, pela existência de um criador original, mas que não intervinha nos destinos humanos ou naturais (era-lhes impensável a ideia de um Deus generoso provocando a ocorrência de um terremoto, como aquele que destruíra Lisboa, em 1755). Outros, ainda, como La Mettrie (L´homme machine, 'o Homem Máquina') e o barão d´Holbach (Système de la Nature, 'Sistema da Natureza'), eram abertamente ateístas e materialistas.

Porta-voz de uma burguesia audaz, sequiosa de autonomia, o iluminista apostava na vida aqui e agora, na crença inabalável no progresso, na filosofia individualista, na independência material que poderia auxiliar o povo na sua emancipação e no melhor entendimento da natureza da sociedade, empenhando-se pela gradativa dessacralização do mundo.

O crescimento da incredulidade
Com a aproximação do fim do Século das Luzes, mais e mais a opinião pública deixava-se permear pela crítica anticlerical. Uma perceptível transformação da consciência religiosa acelerou a difusão da incredulidade e a descrença nos poderes da fé, formando o clima psicológico favorável a que mais tarde explodisse a violenta descristianização imprimida pela Revolução de 1789, e que terminou por engolfar Cluny.

Contra a veneranda abadia pesou sem dúvida a íntima ligação que se estabelecera ao longo da história, desde os reis merovíngios, entre a Monarquia Francesa e a Igreja Católica. Quando a primeira se viu sitiada em Versalhes não tardou para que o edifício clerical também fosse cercado. Decapitado o Bourbon abandonou-se o Papado. Tratava-se de uma erupção em massa contra a Casa do Senhor, que fez com que a imensa abadia fosse desmantelada, pedra por pedra, entre 1791 e 1812.

Nicolas-Antoine Boulanger, ao estudar as origens da religião, já havia denunciado a cumplicidade dos tiranos com os sacerdotes para explorar a credulidade dos povos. 'Os sacerdotes', escreveu ele, "os fazem crer que a tirania é divina, e os tiranos exterminam os inimigos dos sacerdotes"(in L'Antiquité dévoilée, par ses usages - Le Christianisme dévoilé. Amsterdam, Londres, Marc Michel Rey, 1775. 4 vol. in-8).

Bibliografia
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Dècarreaux, Jean - Les Moines et la Civilisation em Occident: des invasions à Charlemagne. Paris: Arthaud, 1962.
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Kaufmann, Walter - Critica de la religion y la filosofia. México: Fondo de Cultura Econômica, 1983.
Mornet, Daniel - Los Orígenes intelectuales de la revolución francesa. Buenos Aires: Paidós, 1969.
Roche, Daniel - France in the Enlightenment. Cambridge, Mass. Harvard University Press, 1998.
Rops, Daniel - História da Igreja de Cristo: Igreja Das Catedrais E Das Cruzadas. Lisboa; Quadrante, 1993. A - V.3.
Roux-Perino, Julie - Cluny. Vic-en-bigorre; MSM, 2008.
Voltaire - Dictionnaire philosophique. Paris: Garnier-Flammarion, 1964Vovelle, Michel - Religion et Révolution : la déchristianisation de l'an II, Paris, Hachette, 1976.
Vovelle, Michel - A Revolução Francesa contra Igreja : da razão ao Ser Supremo. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 1989.

Fonte: Redação Terra

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