"Abaixo a vacina!", a maior revolta popular do RJ

29 jan 2018
18h01
atualizado às 18h04
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Entre os dias 10 e 15 de novembro de 1904, durante quase uma semana, o Rio de Janeiro, então capital federal da República do Brasil, tornou-se uma praça de guerra. De um lado, alinhavam-se a polícia, as tropas do exército, pelotões de marinheiros e os agentes da saúde pública; do outro,  um povo inteiro em fúria, alçado contra a lei da vacinação obrigatória, aprovada na Câmara Federal no dia 31 de outubro de 1904. Foi a maior revolta popular do Rio de Janeiro e talvez a maior insurgência urbana da história do Brasil.

Um déspota romano impõe a vacinação (charge de 1904)
Um déspota romano impõe a vacinação (charge de 1904)
Foto: Reprodução

Rio, hospital a céu aberto

Se bem que o Rio de Janeiro daqueles tempos não tivesse nenhum buraco negro como em Calcutá, um sumidouro abrasante de homens brancos, a capital do império em termos de higiene e saúde pública era um pavor. A paisagem sim, belíssima, de extasiar, mas as condições de vida para quem vinha da Europa eram de assustar. O Conde Gobineau, embaixador francês no Brasil e amigo do imperador D. Pedro II, mal desembarcou em 1869,  foi derrubado por uma febre que o prostrou por seis meses. Deixou dito que o Rio de Janeiro era um “deserto povoado de malandros” e passou boa parte do tempo alarmado em contrair um febrão mortal. Podia ter sido eleito por qualquer das desgraças tropicais: a peste bubônica, a febre amarela ou a varíola, entre tantas outra mais, visto que a cidade acolhia todas as pandemias existentes. Era um hospital a céu aberto.

Os cortiços e as febres

Salvando-se o bairro do Botafogo, morada do Conselheiro Aires de Machado de Assis, e o bairro do Flamengo, o centro da cidade era medonho. Ali, da beira do cais estendendo-se até os morros da Saúde e da Providência, concentrava-se a republica dos cortiços. Um mar de casebres, colados uns aos outros, que parecia não ter fim. Com abolição de 1888, a situação urbana piorara. Milhares de ex-escravos, largados sem nada do eito, deram  com os costados por lá. Viviam ao deus-dará. É possível que eles perfizessem um terço dos 720 mil habitantes da capital federal. O ponto determinante que levou as autoridades republicanas a dar um basta, a por  um fim  naquele matadouro invisível,   foi a morte em massa de marinheiros italianos.

Em 1895, 240 tripulantes da fragata “Lombardia”, em visita à cidade,  caíram atacados pela febre amarela. Em uma semana 144 deles morreram, inclusive o comandante da nave. Como chamar imigrantes ( então política oficial de Estado retomada pelo regime de 1889),  para virem para o Brasil  com aquilo? Ainda assim,  qualquer ação mais enérgica terminou adiada. Na Bahia, o Conselheiro punha fogo no sertão, e com isso, por um tempo,  foram-se os recursos da república.

Prudente de Morais faz a reforma

O dr.Oswaldo Cruz ( 1872-1917)
O dr.Oswaldo Cruz ( 1872-1917)
Foto: Reprodução

Precisou-se esperar pela presidência de Rodrigues Alves, o “soneca”, que, negando o apelido, resolveu detonar.

Em 1903, deu carta branca ao engenheiro Pereira Passos como Prefeito plenipotenciário para desmantelar os pardieiros e quiosques imundos que espalhavam-se pelas ruelas e becos de boa parte da cidade  e  construir uma Paris tropical sob seus destroços. Em seguida, indicou o dr. Oswaldo Cruz, vindo do Instituto Pasteur, da França, e diretor do Instituto Manguinhos, como Diretor Geral da Saúde Pública para acabar com os “micro-assassinos”, geradores das doenças (não era o calor, nem a maresia quem provocava as febres e pestes, mas sim os insetos e os ratos).

Então, batalhões de operários seguidos por pelotões de mata-mosquitos desabaram sobre o grande mocambo de madeira e latão do centro do Rio de Janeiro. Em pouco tempo uma boa parte da antiga capital do Brasil Colonial foi se transformando num enorme entulho, com avenidas rasgando os planos e edifícios alterando a paisagem .

Com a picareta e a pólvora do “bota-abaixo”, somada à fumaça contra os pernilongos, esperava-se que a cidade deixasse de ser o que Olavo Bilac chamou de “cemitério dos vivos”. Naturalmente que a população pobre, aquela imensa plebe miserável, sem eira nem beira, que habitava o miolo da capital,  não gostou nada daquilo. Explodiram quando deu-se a aprovação da obrigatoriedade da vacina contra a varíola, em 31 de outubro de 1904.

A revolta da plebe

“Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados."

Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904.

Os ajuntamentos e os protestos se multiplicaram a partir do dia 10 de novembro quando fundou-se a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Multidões furiosas reuniam-se no Largo São Francisco para protestar. A obrigatoriedade, entendiam eles, era uma monstruosidade.  Uniram-se a eles os poucos  positivistas, denunciando o “ despotismo sanitário” do dr. Oswaldo. Num zaz os bondes começaram a ser atacados. As lojas do centro foram varridas à pedradas. Nas ruas,  colchões ardiam em meio a  latas viradas. Escaramuças contra a polícia se multiplicavam por todos os lados. Barricadas surgiram do nada. O grito de guerra era  “Abaixo a Vacina!”

Outras vítimas foram os lampiões. Do desembarcadouro da cidade até Copacabana ( despovoada na época) não sobrou nenhum deles para alumiar as noites. Cada parte da turbamulta entrou na batalha a seu modo e gosto. Os trabalhadores alegaram que defendiam suas famílias da intromissão dos vacinadores, o populacho queixava-se do abandono e  dos maus tratos e os estudantes por  amor à baderna. Até a rapaziada do Colégio Militar, os cadetes da Praia Vermelha, insuflados por remanescentes do jacobinismo e por positivista radicais, pegou em armas contra o govenro (*). Por cinco dias deu-se um pandemônio no Rio de Janeiro, que sucumbiu ao império da desordem.

O governo reagiu trazendo tropas de fora, de Niterói e até de S.João del Rei, regimentos aptos a disparar nas turbas. Obuses foram lançados sobre o morro da Gamboa e da Saúde ( sinta-se a ironia do nome). Somou-se quase mil presos, 30 mortos e uns 200 feridos. Assim, ao troar das canhonadas, a “ Metrópole dos desocupados”, em mãos da “matula desenfreada”, como Bilac chamou a cidade revoltada,  voltou à calma no dia 15 de novembro, justo quando a república completava 15 anos. Revogou-se a obrigatoriedade no dia seguinte.

As causas profundas da revolta

Tal reação popular, anárquica, desesperada e brutal, nos força a considerar que o levante , entre tantas causas apontadas, representou por igual a defesa coletiva de um modo de vida que tinha suas raízes fincadas no Brasil Colonial e que, num repente, foi  violentamente sacudido pela conjunção da reforma urbana com a reforma sanitária. A dinamite de Pereira Passos e a lanceta do dr. Oswaldo Cruz, agindo paralelas,  representaram uma aberta ameaça a uma rotina firmemente entranhada na população carioca no mínimo há três séculos e meio. Sublevaram-se, de um modo bronco e doido,  na proteção de uma ecologia fétida, insalubre e pestilenta que os cercava e que viu-se  violada pela racionalidade republicana a favor do progresso da  imigração européia.  De certo modo, a Revolta da Vacina  pode ser entendida como uma rebelião “ nativista” contra a “europeização” ou “ branquização” programada pela elite republicana como solução para arrancar o Brasil do marasmo herdade do império.

 A vacinação, todavia,  “pegou”. O diretor do Instituto Manguinhos, que fora moralmente linchado, apelidado de “Czar dos mosquitos” e como  tirano da vacina,  terminou por ser reconhecido ao acabar com a febre amarela em 1906,  e Pereira Passos, por seu lado,  conseguiu levar a diante seu sonho de estender bulevares parisienses em meio à miséria carioca. Viabilizaram o Rio de Janeiro de hoje.

(*) A revolta dos Cadetes rendeu-lhes como punição a transferência deles para o Realengo, bairro bem afastado do Palácio do Catete, sede da presidência. José Murilo de Carvalho que fez uma minuciosa análise das motivações da revolta,  apontou, entre tantos outros,  um fator moral para aquela rebelião. Correra o boato que os agentes de saúde aplicariam a vacina não no braços como de fato era, mas na coxa ou na altura da virilha das mulheres, fazendo com que uma onda de indignação mobilizasse os operários em defesa da honra doméstica ( “Cidadãos Ativos: a revolta da vacina, in Os Bestializados, SP. Cia das Letras, pág. 91-139).

Bibliografia

Carvalho, José Murilo de – Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi, São Paulo, Cia. das Letras, 1987.

Raeders, Georges – O inimigo cordial do Brasil:  O Conde Gobineau no Brasil, Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra,1988.

Scliar, Moacyr - Oswaldo Cruz e Carlos Chagas: o Nascimento da Ciência no Brasil, São Paulo: Editora Odisseus

Veja também

 

Fonte: Especial para Terra

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