Escolas estaduais de SP ampliam uso de IA e abrem debate sobre autonomia de professores
Pesquisadora aponta riscos de padronização, vigilância e perda de autonomia docente
O uso da inteligência artificial (IA) já é realidade em muitas escolas pelo Brasil, e na rede estadual de ensino de São Paulo, as plataformas digitais tem mudado a rotina dos professores e alunos, levantando um debate sobre os limites do uso de tecnologia na educação. O processo acelerou após a pandemia de covid-19, e deixou de ser uma solução de emergência para o ensino remoto, passando a fazer parte da política educacional de forma permanente.
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Um artigo publicado na revista Bakhtiniana, da professora Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira, que estuda tecnologia e educação desde 2016, e de Marina Delege, fala sobre os impactos da IA na educação do estado de SP e a autonomia do docente.
Segundo a pesquisa, a criação do Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP), em 2020, marcou o início de um processo contínuo de plataformização da educação pública paulista. O sistema foi criado durante a suspensão das aulas presenciais, mas permaneceu após a retomada das atividades nas escolas. O estudo aponta que, a partir de 2023, houve uma intensificação da integração de plataformas e ferramentas digitais à rede estadual.
Para Ana Elisa, o problema não está no uso da tecnologia em si, mas na transformação da plataforma em elemento central da prática pedagógica. “Eu não sou tecnofóbica, eu não sou contra o uso de tecnologia. Eu acho que a tecnologia dentro da escola é essencial, mas ela tem que ter um princípio pedagógico. A gente tem que trazer a ferramenta para servir o pedagógico e não o pedagógico se basear e se estruturar através da plataforma", pondera.
A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo foi questionada pelo Terra sobre o atual uso das plataformas e da inteligência artificial nas escolas e respondeu que utiliza inteligência artificial como ferramenta de apoio ao trabalho docente com o objetivo de aumentar a eficiência, usando material elaborado por professores especialistas (leia abaixo).
Sistema reúne plataformas
A rede estadual utiliza um conjunto de ferramentas digitais voltadas a diferentes etapas do trabalho escolar. Entre elas estão Diário Digital, Tarefas SP, Slides, Centro de Mídias São Paulo, Redação SP, Sala de Aula Virtual, Education First, Leia SP, Alura, Khan Academy, Matific, Elefante Letrado, EFAPE, SOU, Apoio Presencial e Prova SP.
Essas informações são reunidas pelo painel chamado Super BI - Escola Total. De acordo com o artigo, o sistema centraliza indicadores como frequência dos alunos, participação em avaliações e utilização das plataformas de aprendizagem. Esse modelo de acompanhamento que, na avaliação das autoras do artigo, aumenta a vigilância sobre o trabalho docente.
Risco de padronização das aulas
Ana Elisa explica que um dos principais problemas da plataformização é a perda de espaço para que o professor adapte a aula às características de cada turma. Uma mesma disciplina pode ter alunos com diferentes níveis de conhecimento, dificuldades e contextos sociais. Para a pesquisadora, cabe ao professor fazer essa leitura e adaptar o conteúdo.
“Cada turma é uma pequena comunidade que precisa de uma personalização de ensino que não é a plataforma que vai fazer. A plataforma vai massificar. O professor é um curador, ele vai entender essa troca e ele vai adaptar aquele conteúdo para as necessidades de cada turma", pontua.
Por isso, há uma preocupação sobre a substituição de uma ferramenta por outra, quem define o conteúdo e como ele fica organizado. Além disso, é questionado quanto espaço sobra para o professor tomar decisões.
IA nos materiais
O uso da IA aumentou em 2024 com a utilização do Chat GPT na produção e atualização de aulas digitais na rede estadual. Segundo o artigo, a proposta era que as aulas já produzidas pelos professores fossem aprimoradas pela IA. Na época, a Secretaria de Educação afirmou que os professores não seriam substituídos e que a tecnologia seria uma etapa adicional da atualização de conteúdos.
O artigo, entretanto, questiona os efeitos desse modelo sobre a autoria dos profissionais que produziram os materiais originalmente. Também é feito um apontamento para uma lacuna nos direitos autorais dos professores especialistas responsáveis por criar os conteúdos.
Segundo as autoras, a legislação que criou as funções de Especialistas em Educação estabelece entre suas atribuições a produção de materiais didáticos, mas não determina como esses materiais serão protegidos quando utilizados em repositórios de IA.
Qual é o risco?
Ana Elisa chama atenção para os efeitos do excesso de telas sobre a formação dos estudantes. Segundo ela, a escola não tem apenas a função de transmitir conteúdos, mas é um espaço para conviver, criar vínculos e para as crianças se desenvolverem. Com um ensino mediado por plataformas, isso não acontece.
A interação entre os alunos e professores diminui, e o pensamento crítico pode ser afetado diretamente. “A escola é muito mais do que o conteúdo em si. A escola também é um lugar de socialização. Então assim, o maior perigo é a gente ficar cada vez mais treinando aquele aluno para pensar por meio das telas".
A pesquisadora ressalta, porém, que a crítica não significa rejeição à tecnologia. Para ela, o debate deve ser sobre como e por que essas ferramentas são utilizadas.
O que pode mudar?
O artigo mostra algumas iniciativas de contestação e propostas para alterar esse modelo. Uma delas é o Projeto de Lei nº 305/2024, apresentado na Câmara dos Deputados em maio de 2024. A proposta busca impedir que conteúdos gerados por plataformas digitais ou aplicativos de IA sejam utilizados como referência ou métrica para o desenvolvimento de materiais didáticos.
Segundo a publicação, o projeto tem entre seus objetivos preservar a autonomia pedagógica dos professores, proteger direitos autorais e evitar o aumento da carga de trabalho decorrente da necessidade de revisar e adaptar conteúdos produzidos por IA.
O artigo também defende a criação de políticas que valorizem a autoria e a autonomia dos professores, além de uma regulamentação ética e crítica do uso de IA nas escolas. Entre as medidas apontadas estão a limitação do uso intensivo de telas e a revisão dos sistemas de monitoramento de desempenho.
Para Ana Elisa, a resposta é evitar que a tecnologia seja tratada como inevitável ou neutra. “A gente tem que mostrar ao aluno o quanto essa inteligência artificial vai consumir de recurso do meio ambiente, o quanto ela vai se tornar uma bengala para esse aluno não pensar, só conseguir formular através desse, dessa plataforma".
“O que não pode faltar dentro da sala de aula é um debate crítico sobre o uso de inteligência artificial”, afirma.
O que diz a Secretaria de Educação de São Paulo
"A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) utiliza inteligência artificial como ferramenta de apoio ao trabalho docente. Os materiais digitais para estudantes e professores, assim como os materiais impressos entregues aos alunos, são produzidos pela Diretoria de Materiais Didáticos (DIMAD), que conta com mais de 100 especialistas de diferentes áreas do conhecimento.
Os conteúdos são elaborados por professores especialistas, e a IA é utilizada principalmente para tornar mais eficientes os processos de produção editorial. Quando a tecnologia contribui para o desenvolvimento de conteúdos, os materiais passam por pelo menos três etapas de análise, curadoria e validação realizadas por especialistas dos respectivos componentes curriculares. A produção também inclui revisão de texto, verificação de direitos autorais e intervenções de design, acompanhadas pelas equipes responsáveis. As atualizações consideram avaliações dos materiais e pesquisas com professores da rede, contribuindo para o aprimoramento contínuo dos conteúdos.
A IA também é utilizada na correção de redações e atividades e no apoio à personalização de exercícios para diferentes níveis de aprendizagem dos estudantes. Essas ferramentas geram informações que auxiliam o acompanhamento da aprendizagem. Cabe ao professor analisar os resultados, considerar o contexto de cada estudante e definir as intervenções pedagógicas.
As plataformas educacionais da rede complementam o trabalho realizado em sala de aula. Os indicadores do Super BI ajudam a identificar necessidades e orientar ações de apoio, como formação, desenvolvimento profissional e acompanhamento pedagógico. Já a política de bonificação da Seduc-SP considera um conjunto de critérios relacionados aos resultados e à evolução da aprendizagem dos estudantes, à frequência e à participação nas avaliações, além de aspectos relacionados à atuação dos profissionais da rede.
A rede estadual adota medidas para promover o uso responsável da tecnologia. São Paulo foi pioneiro na proibição do uso de celulares nas escolas, preservando o ambiente de aprendizagem e permitindo o uso de recursos digitais para finalidades pedagógicas, conforme as regras vigentes."
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