Mundo se abre com Enem, diz publicitária que se tornou a primeira da família a se formar
Maria Luiza, 24, usou a nota do exame para conseguir bolsa integral no ProUni, construir carreira e até realizar o sonho da casa própria
Publicitária e artista visual, Maria Luiza Santos Costa, de 24 anos, deve muito de seu sucesso profissional à oportunidade de ter feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2016. O exame foi uma porta de entrada para a graduação, que possibilitou que a jovem, que veio da periferia de São Paulo, pudesse transformar a própria vida e a da família.
Com a nota do exame, a menina preta e periférica --como Maria Luiza se define-- conseguiu uma bolsa de 100% para estudar em uma renomada instituição particular e se tornou a primeira pessoa de sua família a ter um diploma no ensino superior. Com o dinheiro de seu primeiro estágio, conseguiu comprar uma geladeira nova para mãe. Hoje, ela é publicitária em uma das maiores agências do Brasil e do mundo e alcançou até o sonho da casa própria.
Esse é o quarto episódio da série de reportagens Onde o Enem me levou?, que conta a história de vários brasileiros que, a partir do exame, conquistaram marcas profissionais, pessoais e financeiras transformadoras. Ao todo são cinco episódios que serão publicados no Terra ao longo das próximas duas semanas. Acompanhe e se inspire nesses relatos.
Mas a jornada de conquistas da paulistana também foi marcada por muitos desafios. Em meio à atarefada rotina de estudos e trabalho, ela também precisou enfrentar um câncer raro e agressivo, porém nunca perdeu a esperança e sempre manteve o foco em seus objetivos.
"As bolsas de estudo me levaram em lugares que eu jamais sonhei que eu ia poder participar, ou ver, ou ocupar. E quando eu percebi a alegria de poder viver essas coisas diferentes das coisas que dizem que a gente tem que viver, por vir de onde a gente veio, por ser quem a gente é, pela nossa raça, pelo nosso gênero e tudo mais, depois que eu aprendi a ocupar esses lugares, eu aprendi que tem um horizonte, que tem espaço, que tem como. Eu quero muito que todo mundo da minha família faça o mesmo".
O início do processo
A publicitária se considera privilegiada por ter conseguido estudar o ensino médio em uma escola particular com 100% de bolsa. "Tive que estudar pra essa bolsa", lembra ela, que aproveitou todo o conhecimento e conteúdo didático adquirido nessa experiência para se preparar para o Enem.
Sem ter condições de frequentar um cursinho preparatório, Maria Luiza contou com o auxílio de amigos, assim como ofereceu ajuda aos colegas que tinham menos acesso ao ensino de qualidade. Ela se juntava a um grupo de estudantes que incluía bolsistas e estudantes de escolas públicas, onde todos compartilhavam seus materiais e se preparavam para o ensino superior.
Mas, para conseguir ter acesso ao Enem, a publicitária precisou recorrer à isenção da taxa de inscrição, já que, na época, não tinha condições de pagar pelos R$ 180, uma quantia muito alta que faria muita falta para família. E, a partir de seu bom desempenho na prova, a publicitária conseguiu uma bolsa integral no (Programa Universidade para Todos) Prouni, no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.
Veja o gráfico que mostra o número de isenções da taxa do Enem por ano:
Ela também chegou a passar na Universidade Federal de São Carlos, no curso de Biomedicina. No entanto, decidiu abrir mão da oportunidade por não ter condições de se manter em outra cidade, uma mudança que exigiria mais gastos.
Inspiração para a família
Maria Luiza foi a primeira da família, e até da família estendida, a entrar em uma universidade, o que fez com que ela desenvolvesse um senso de responsabilidade maior, já que agora desejava mostrar para toda a família que ser uma universitária era possível e que isso poderia transformar vidas.
"Meu pai foi preso muito cedo. Ele se envolveu com crime e foi preso, não terminou a escola, mas ele sempre foi muito inteligente, lia bastante, ainda lê livros, discute assuntos de política, está sempre muito antenado. E a minha mãe terminou o ensino médio supletivo, e quando eu entrei na faculdade, ela pensou: ‘Talvez eu possa fazer uma faculdade também'", conta a publicitária.
Inspirada pela conquista da própria filha, a mãe de Maria Luiza cursou Logística por meio do ensino à distância, e se formou em um curso tecnólogo, o que encheu a filha de orgulho.
"Depois de mim, agora, eu tenho primos e outras pessoas da família que estão estudando, que estão interessadas, que perguntam para mim como foi, se eu posso dar os meus livros. Eu guardei todos os papéis que eu tinha, eu tinha muitas apostilas da escola particular de matérias, então eu guardei todas e peço pra elas cuidarem e passar para os próximos, porque são coisas que elas também não têm acesso."
Por ser uma mulher negra e periférica, Maria Luiza conta que, inicialmente, teve medo dos preconceitos que poderia enfrentar estudando em uma universidade particular. No entanto, encontrou também pelo caminho o acolhimento de outros estudantes e professores.
“Eu senti o preconceito, tanto no ensino médio quanto no Mackenzie, de classe, de raça e até de gênero, mas eu já estava um pouco treinada, para ser sincera, porque eu vim da escola particular, esse universo já era muito conhecido para mim. Mas, na faculdade, eu me senti muito mais empoderada a me impor, me defender, exigir respeito, exigir que respeitassem o que eu estava fazendo naquele lugar, justamente porque tinha muitos coletivos, que era uma coisa que eu não tinha no ensino médio. Tinha muita organização social, organização política”, relembra.
O maior desafio da publicitária foi em 2019, quando a jovem foi diagnosticada com um tipo de câncer incomum. Ela, no entanto, decidiu seguir em frente, dar sequência ao último ano da graduação e até encarrar o temido Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
"Fui diagnosticada com câncer de nasofaringe --super raro e em estágio 4-- em ano de TCC e pandemia. Fiquei devastada. Foi uma experiência intensa, mas, ao mesmo tempo, só me mostrou o quão feliz eu estava por ter as pessoas que tinha em volta de mim. Tanto os professores quanto os meus amigos do TCC foram muito flexíveis. Eu continuei, não parei em nenhum momento, porque se parasse, sentia que viveria só a parte ruim disso tudo. Queria estar com os meus amigos, gosto muito de publicidade, então queria estar fazendo o TCC, por mais que tenha um corre."
Maria Luiza enfrentou o tratamento e, hoje, ainda faz acompanhamento médico para avaliar sua saúde com frequência, já que o câncer que ela teve é considerado raro, e ainda não há muitas evidências sobre como ele se comporta ou se ele pode voltar. Apesar disso, ela diz estar muito melhor atualmente.
E, no fim de 2021, a publicitária se formou com honras e com um emocionante discurso como oradora da turma. As noites mal dormidas, o tempo gasto no transporte para o trabalho e para a faculdade, a rotina intensa de estudos, a superação do câncer... tudo passou a valer a pena quando ela olhou para trás e viu o que tinha conquistado, bem como de onde veio e aonde chegou.
"Tudo isso se pagou. Eu tive um momento um pouco catártico, porque foi um momento que eu estava um pouco sob pressão também, estava trabalhando muito e eu não sentia que as coisas voltavam para mim. Depois eu sentei e pensei: ‘Não, espera, olha esse tanto de coisa que aconteceu na minha vida em seis, sete anos’. E eu fiquei muito feliz", conta.
Hoje, Maria Luiza trabalha como publicitária estrategista na agência David, considerada uma das maiores do País. O emprego é recente e a jovem sonhava com a vaga desde a faculdade, já que sempre gostou de fazer o que faz atualmente. Um dos sonhos que se tornou possível graças ao trabalho como publicitária foi o de dar entrada em um apartamento próprio, pelo programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal. Ela lembra que, ainda enquanto estudante, quando ganhou o primeiro salário, comprou uma geladeira nova para a mãe, e hoje pode dar um passo maior rumo à independência.
Ela, inclusive, pretende viajar pelo mundo e conhecer muitos lugares. Um país que conheceu recentemente foi a Colômbia, motivada por um teste de DNA ancestral, que apontou que ela poderia ter genes ligados a indígenas do país latinoamericano. Para ela, a viagem foi importante para mostrar para a família que é possível ser uma pessoa da periferia e viajar, conhecer novos lugares.
"Não é sobre o material. É sobre experiências, e isso, para mim, é muito importante. Foi uma coisa que eu aprendi, principalmente durante a pandemia e durante a minha doença, eu percebi que eu amo o que eu faço, eu gosto muito de trabalhar com o que eu trabalho, mas o que me deixa feliz é poder cozinhar, poder pintar, poder viajar e ver os meus amigos. Então eu aprendi a conciliar minha carreira com as coisas que também me fazem feliz. Porque tendo uma carreira que me habilite essas coisas, que deixe isso possível, é o suficiente", diz.
Para Maria Luiza, o Enem mudou sua vida “100%”. No começo, ela achava que não iria passar de primeira, ou que precisaria de muitas tentativas, mas foi surpreendida, encontrando pelo caminho e pela carreira pessoas que a ajudaram. Mais inesperado ainda foi ter conseguido uma bolsa integral em uma universidade de prestígio que, em outra situação, ela não teria como pagar para estudar.
"Para mim, era essencial. Sempre foi uma vontade, era tipo ‘eu vou passar por aquela porta do Enem e o mundo vai se abrir, um mundo de possibilidades para mim’. Então foi, com certeza, um ponto, uma chavinha virou ali."
Ainda assim a jovem publicitária acredita que a prova exige dos alunos um preparo que está além do que os estudantes de escolas públicas são ensinados, fazendo com que sejam necessárias horas de estudos e até acesso a materiais e conteúdo que não são disponibilizados na rede pública.
"É uma chance de avançar, progredir socialmente, de experienciar coisas novas na vida, de sair do ciclo de trabalhar, trabalhar e sobreviver. Eu tinha acesso, eu tinha muitos privilégios e acessos a coisas que outros nunca nem viram. Ainda é uma prova muito difícil, mas hoje em dia é a melhor porta que a gente tem. É a única e melhor porta que a gente tem pra conseguir uma ascensão", resume.