Enem dos professores: 'Formação no Brasil está na UTI', avalia especialista sobre resultado da prova
Dados do Ministério da Educação mostram que 35% dos docentes não atingiram o nível básico na Prova Nacional Docente; área de Matemática é mal avaliada
BRASÍLIA - Dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) nesta quarta-feira, 20, sobre a formação de professores acenderam o alerta em especialistas na área.
Os pesquisadores ouvidos pela reportagem do Estadão afirmam que é urgente corrigir os rumos da formação docente no País para garantir que o Brasil consiga evoluir na promoção de aprendizagem dos estudantes.
Os dados da Prova Nacional Docente (PND) - conhecido como "Enem dos Professores" - mostram que mais de um terço (35%) dos docentes que fizeram o exame do MEC não alcançaram o nível básico. O diretor-executivo do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira, explica, no entanto, que o cenário é mais grave do que mostra este dado.
Isso porque o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) estabeleceu dois padrões dentro da proficiência. No chamado "padrão 1? estão aqueles professores que têm as condições mínimas para planejar e avaliar, mas ainda precisa de orientação para conduzir determinadas ações pedagógicas. Esse padrão, segundo nota técnica do Inep, é considerado "básico".
Já no "padrão 2? estão os professores que já têm competências sólidas e são capazes de planejar, aplicar metodologias e avaliações com fundamentos éticos e pedagógicos, e propor estratégias reflexivas. De acordo com o Inep, quem chega nesse nível alcança o patamar "adequado" para a formação docente.
Sob essa perspectiva, o cenário se torna muito pior: cerca de dois em cada dez professores avaliados na PND têm o aprendizado "adequado" para lecionar.
"Quando a gente olha para esse dado, não é exagero dizer que, com raríssimas exceções, a formação inicial de professores no Brasil está na UTI", analisa Nogueira.
Ele chama atenção para o quadro ainda mais preocupante no ensino a distância, o que, segundo ele, torna a modalidade na área de formação de professores "sinônimo de precarização".
No caso do EAD, apenas um em cada dez docentes avaliados consegue alcançar o nível considerado adequado.
"O que a gente tem que defender é que o governo federal tem que investir recursos para viabilizar cursos presenciais de alta qualidade. Tem que induzir e incentivar que o ensino superior privado ofereça cursos fortemente presenciais", diz o especialista. "Se não colocar um olhar muito prioritário para a formação inicial, a educação brasileira não vai sair de onde está", avalia.
Para Fabio Perboni, professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), coordenador estadual da Associação Nacional Pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope), o ideal seria reavaliar a formação via EAD: "Ensino a distância não é para ser reproduzido de uma forma padronizada com vídeos gravados, em que a pessoa assiste e depois não tem com quem dialogar. Na verdade, isso é um processo de uma formação de baixíssima qualidade. Então, controlar essa formação de professores de baixa qualidade é o primeiro ponto."
Perboni também chama a atenção para a ausência de profissionais futuramente: "A gente tem uma previsão, chamada por alguns de "apagão docente", que nos próximos dez, 15 anos, a gente não vai ter professores em sala de aula, porque as pessoas adentram a sala de aula em número insuficiente para repor aqueles que saem, se aposentam, ou abandonam a carreira".
Matemática
Outro ponto de atenção destacado pelos especialistas é o mau desempenho na área de Matemática. Segundo os dados, 54,1% dos avaliados não são proficientes na área.
"As licenciaturas têm tido dificuldade de atrair candidatos para matemática, mas temos que atrair e formar bem. Uma das coisas que não passa só pela formação dos professores é o tempo de aula. Temos que caminhar mais rápido para tempo integral, com carga horária maior e com professor preparado para prática", analisa a especialista em políticas educacionais e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, Cláudia Costin.
Ela explica que a dificuldade de Matemática se expressa no desempenho dos estudantes na área.
"Se você olha para o resultado dos alunos, só 5% da terceira série do ensino médio sabem o suficiente em matemática. Se olhar para o Pisa de 2022, o último com resultados, 73% dos estudantes brasileiros estão abaixo do básico em matemática, que seria abaixo da nota 3. Temos uma crise na matemática que se se reflete na avaliação do Enade das licenciaturas", opina.
A Prova Nacional Docente
Os resultados do "Enem dos professores" foram divulgados nesta quarta-feira, 20, pelo MEC. Essa é a primeira edição da PND e teve adesão de 1508 municípios do País (incluindo 18 capitais) e 22 redes estaduais.
A prova, criada pelo MEC, não é uma condição para acessar a carreira, mas pode ser utilizada pelas redes escolares para selecionar os docentes. No ano passado, 17 licenciaturas foram avaliadas na prova. Concluintes e profissionais já formados participaram da avaliação.
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