Como projetos que abrem as escolas para a comunidade podem beneficiar os alunos: 'Sucesso acadêmico'
Programação voltada à cultura, ao esporte e ao lazer pode facilitar o processo de aprendizagem, mas há desafios estruturais e de governança a serem superados
Frequentar a escola aos finais de semana pode parecer uma ideia pouco atrativa para muitos estudantes. No entanto, iniciativas que abrem os portões das instituições para a comunidade vêm transformando essa percepção. No lugar de aulas, lições e provas, alunos, familiares e moradores do entorno encontram uma programação voltada à cultura, ao esporte e ao lazer.
Nesse contexto, a comunidade deixa de ser vista apenas como destinatária das ações escolares ou local de origem dos estudantes e passa a ocupar o espaço de parceira na construção de conhecimento, explica Luciana Szymanski, coordenadora do grupo de pesquisa Práticas Educativas e Atenção Psicoeducacional na Escola, Família e Comunidade (ECOFAM), ligado à Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Para ela, escolas que buscam conhecer o território onde estão inseridas e dialogar com famílias e equipamentos culturais, esportivos e sociais da região tendem a dar mais sentido ao aprendizado dos alunos. "O bairro é um currículo vivo, é a vida acontecendo. Quando a escola se abre e se disponibiliza para o território - sua história, suas memórias, seus saberes, suas tensões, suas lideranças -, ela amplia imensamente o repertório educativo."
Segundo Luciana, pesquisas mostram que escolas abertas nos finais de semana sofrem menos agressões e depredações. Ela aponta ainda que os efeitos positivos de operar como um centro comunitário podem ser percebidos tanto em instituições públicas quanto em privadas. "Vemos isso em áreas periféricas, mas também em zonas privilegiadas economicamente, onde escolas que incorporam a realidade local às suas práticas pedagógicas criam um aprendizado muito mais significativo do que aquele que chega pronto nos livros didáticos."
O ponto de vista é reforçado por Felipe Pregnolatto, coordenador do Middle Years Programme do IB da Beacon School. Ele afirma que projetos como esses democratizam o acesso a capital cultural e social e jogam luz sobre vulnerabilidades estruturais. Na visão dele, para alunos em contextos mais vulneráveis, o modelo oferece redes de apoio, mentorias e visibilidade, enquanto estudantes em contextos privilegiados são levados a desenvolver a capacidade crítica de reconhecer seus próprios privilégios e agir de forma ética para ajudar na construção de uma sociedade mais justa.
Pregnolatto também aponta que iniciativas que aproximam a comunidade das escolas fazem parte do conceito de território educativo, que transforma o bairro em uma extensão da sala de aula e propõe que o entorno também exerça um papel educador na vida dos alunos. "A vizinhança oferece estudos de caso vivos: dados demográficos reais para a Geografia e a Matemática, fontes de história oral para as Linguagens e desafios de infraestrutura para o Design."
Escola Aberta e Escola 360
Na capital paulista, a aproximação da comunidade com as escolas ocorre por meio do programa Escola Aberta, iniciado pela Secretaria Municipal de Educação (SME) em 2022. Atualmente, 30 unidades da rede municipal participam do projeto, além dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), com oferta, aos finais de semana, de refeições e oficinas culturais, esportivas, recreativas e de capacitação profissional.
Segundo o secretário municipal de Educação de São Paulo, Fernando Padula, o programa foi inspirado em ações apoiadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em outros Estados e no projeto Parceiros do Futuro, desenvolvido pelo governo de São Paulo nos anos 1990. O objetivo era alcançar regiões vulneráveis e que estavam fora da área de influência dos CEUs.
"Essas unidades têm justamente esse objetivo de ser um centro da comunidade, de aumentar o pertencimento da comunidade com aquele equipamento público, que já é dotado de quadra coberta, é dotado de infraestrutura e que pode, sim, ser usado em todo o seu potencial", afirma. A gestão do programa é feita por Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que devem estar alinhadas às diretrizes pedagógicas, ao currículo e à matriz dos saberes da SME.
Em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o programa Escola 360 também abrange regiões onde o entorno apresenta indícios de vulnerabilidade socioambiental e oferece atividades educativas, culturais e esportivas em 20 centros educacionais. "O programa geral tem como premissa proporcionar acesso qualitativo para o desenvolvimento integral da comunidade local por meio de atendimento gratuito com respeito às características do território e à diversidade humana", afirma o secreta´rio municipal de Educac¸a~o de Guarulhos, Rafael Carvalho.
Para ele, a oferta de atividades para todas as idades possibilita uma participação mais ampla da comunidade e ajuda a valorizar a cultura e a identidade local. Segundo Carvalho, o principal desafio é a organização estrutural e pedagógica, o que exige uma reavaliação constante para atender às necessidades da comunidade, que é estimulada a fazer sugestões. "É importante também ressaltar que a comunidade participa ativamente do conselho deliberativo dos centros educacionais e essa contribuição é essencial para o planejamento das ações", diz.
Desafios
Luciana aponta que a pandemia acelerou a percepção da importância de transformar as escolas em hubs comunitários, mas que essas iniciativas não podem ser projetos isolados. "Escola como hub comunitário não pode depender do voluntarismo de um diretor comprometido", afirma.
Para ela, os principais desafios são estruturais, já que muitas escolas não têm infraestrutura, tempo ou pessoal para sustentar essa abertura, e de governança, porque é preciso construir relações de confiança com a comunidade, que podem não se sustentar quando há mudanças na gestão ou no financiamento. A professora também indica um desafio cultural, porque as escolas ainda são vistas como transmissoras de conteúdo: "Essa separação é o problema: ela faz com que aquilo que vem do entorno seja tratado como ruído, como distração, quando, na verdade, é exatamente o chão sobre o qual o aprendizado precisa ser construído."
Já Pregnolatto aponta que a consolidação desses formatos é irreversível, especialmente com o avanço da inteligência artificial e a automação de conteúdos teóricos, o que deve exigir que as escolas exerçam papéis que a tecnologia não consegue desempenhar, como a articulação comunitária e a resolução de problemas em cenários reais. "A escola do futuro não será apenas um local onde se consome informação, mas o hub de desenvolvimento social, humano e sustentável de seu território."
Os especialistas afirmam que a conexão entre a escola e a comunidade tende a ser uma estratégia para lidar com problemas como a evasão. As instituições passam a atuar também como uma rede de proteção ao oferecer oportunidades que alunos, familiares e vizinhos não encontrariam em outros espaços.
Para Pregnolatto, isso ocorre porque o sentimento de pertencimento está diretamente ligado à segurança emocional e à motivação intrínseca. "Quando um estudante percebe que sua identidade, sua história e sua comunidade são valorizadas e integradas ao ambiente escolar, ele se sente validado. O acolhimento reduz a evasão, mitiga conflitos e cria um clima de cooperação que potencializa o foco e o sucesso acadêmico."
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