Como escolas conectam alunos com problemas de fora da sala de aula: 'Precisam se transformar'
Especialistas apontam que, mais do que transmitir conhecimento, elas precisam fazer a conexão entre a aprendizagem e as demandas da sociedade e do mundo do trabalho
Se antes a escola era vista principalmente como um espaço de alfabetização e preparação para os vestibulares, hoje as instituições ampliam sua atuação e passam a exercer o papel de mediadoras entre o estudante e o mundo exterior. Especialistas apontam que, mais do que transmitir conhecimento, elas precisam conectar a aprendizagem às demandas da sociedade, da comunidade, da cultura, da ciência e do mundo do trabalho.
A professora Cinthia Magda Fernandes Ariosi, do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que o desenvolvimento da tecnologia vem transformando o papel da escola há algumas décadas. "A escola conteudista já não cabe mais nesse contexto, porque o conteúdo está disponível na internet, principalmente com a inteligência artificial", afirma. "Então, a escola precisa se transformar. Ela tem que ser a escola das relações, das interações, da sensibilidade, da criatividade, porque senão vai perder sua função."
No Colégio Miguel de Cervantes, a ponte entre a sala de aula e o mundo real é feita por meio de projetos voltados à solidariedade e à sustentabilidade. Segundo o diretor pedagógico da instituição, Rudney Soares, os programas têm como objetivo fazer com que os alunos reconheçam as necessidades das comunidades no entorno da escola e proponham soluções viáveis.
"A escola sempre tem que ter uma função social, porque ela é um agente de transformação. Então, quando nós pensamos no desenvolvimento dos alunos, a nossa meta é desenvolver cidadãos que consigam reconhecer ou entender seu entorno e intervir com ações mais positivas", afirma Soares.
Para o diretor pedagógico, o maior desafio em um cenário onde as escolas ocupam o papel de central de saberes é enxergar a educação em uma perspectiva de desenvolvimento para a vida em vez de formatação dos estudantes para determinadas profissões ou vestibulares, especialmente em uma realidade onde a informação está na palma da mão.
"Hoje o estudante não precisa ir para todos os lugares que ele gostaria de conhecer, porque consegue conhecer por meios digitais. Eles estão mais conectados com o mundo, mas ao mesmo tempo estão pouco conectados com aqueles que estão mais próximos", afirma. Segundo Soares, a proibição do uso de celulares em escolas - que entrou em vigor no ano passado e é válida para instituições públicas e particulares - ajudou a aproximar o aluno do mundo externo. "A partir da retirada dos celulares das escolas, nós conseguimos fazer com que os alunos se engajem em questões que estão mais próximas deles."
No Colégio Dante Alighieri, os programas estimulam os alunos a buscarem soluções para problemas das cidades. As iniciativas têm frentes variadas, com parcerias com organizações de diferentes setores, como instituições de ensino superior, empresas, hospitais e órgãos públicos, e estimulam tanto o desenvolvimento de ações sociais quanto de pesquisas científicas e startups.
Na prática, a estratégia resultou, por exemplo, na instalação de cisternas em uma cidade do Agreste Pernambucano e no projeto "SafeSkies", que utiliza IA, visão computacional e sistemas de rastreamento automatizado para detectar, acompanhar e prever a trajetória de balões não tripulados em áreas de risco, como aeroportos e unidades de conservação ambiental - este segundo deve ser testado no Parque Estadual do Jaraguá, na capital paulista, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP).
"A escola hoje não pode se expressar apenas pelo vestibular, apenas pela performance de nota. A escola é muito mais do que isso. A escola é vida e a vida pulsa. A vida tem problemas para serem resolvidos e nós temos que trazer isso para a escola de diferentes maneiras", afirma a diretora institucional e de tecnologia do Colégio Dante Alighieri, Valdenice Minatel.
"As parcerias mostram como o mundo fora da escola funciona e que ninguém consegue sozinho fazer algo que é transformador. Essa união de talentos, de saberes e de fazer encontra um lugar profícuo nos colégios."
Iniciativas não podem ser desconectadas
Para Cinthia, a aprendizagem fora da sala de aula permite que os alunos vivenciem experiências contraditórias e diversas que, no contexto tradicional de transmissão de conteúdo, seriam pouco exploradas. Em ações externas, desenvolvidas em parceria com a comunidade, organizações, empresas ou indústrias, o controle didático exercido pelas instituições é menor, o que favorece o contato dos alunos com situações reais, nas quais eles são levados a tentar entender os problemas inseridos naquele ambiente e testar na prática o que já aprenderam. "Por isso, são tão importantes essas outras experiências para a formação do pensamento crítico, para pensar a colaboração e a resolução de problemas."
No entanto, a ponte entre a escola e o mundo real precisa estar alinhada ao currículo educacional ou pode se tornar apenas um conjunto de ações de marketing. A professora aponta que as instituições precisam refletir e analisar os processos e os resultados constantemente, em discussões com o corpo docente e com os alunos.
"Toda vez que não se reflete sobre essas práticas há um grande risco de que elas se desconectem do currículo, da escola e das demandas formativas. Os professores precisam ter consciência da importância dessas reflexões e da discussão entre os pares da escola e com os próprios alunos sobre o andamento das ações e como serão encaminhadas as próximas", afirma.
Vestibulares
As escolas públicas também desenvolvem projetos para aproximar os estudantes do mundo externo, como o Novotec, que oferece cursos técnicos e de qualificação profissional gratuitos para alunos do ensino médio da rede estadual, e o Programa de Pré-Iniciação Científica da USP, por meio do qual alunos do ensino fundamental e médio podem desenvolver projetos de pesquisa em diferentes áreas, com a ajuda de um docente da universidade, que atua como orientador da pesquisa, e um professor da escola onde estão matriculados.
Para Cinthia, o desafio principal para obter sucesso nessas iniciativas é diferente em instituições públicas e privadas. Enquanto as escolas públicas enfrentam limitações em relação à infraestrutura, recursos, equipamentos, laboratórios e orçamento para desenvolver determinados projetos, os colégios privados precisam lidar com a pressão relacionada aos vestibulares e à aprovação em universidades.
Valdenice afirma que a preparação para os vestibulares é parte da essência dos colégios, mas defende que eles não podem ser restringidos à preparação para essas provas. "Depois que o aluno passa no vestibular, a vida continua. E é sobre essa vida que a gente tem que construir habilidades e competências, para que o estudante viva a vida pós-vestibular de uma forma bem bacana."
Já Soares acredita que a ampliação do papel da escola passa por uma transformação nas exigências das universidades. Para ele, as instituições de ensino superior devem propor exames de ingresso que avaliem competências e habilidades em vez de apenas conteúdos.
"As universidades precisam entender que cada escola tem que desenvolver um projeto aderente àquele contexto social em que está inserida", afirma. "Se alguém me perguntar o que tem que caber no currículo, eu digo que a vida tem que caber primeiro", acrescenta.
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