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Como faculdades de hospitais criam 'campo de estágio' e de formação de médicos

Infraestrutura de alta complexidade permite vivenciar realidade da profissão, oferecendo uma preparação mais ampla

26 fev 2026 - 05h41
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Hospitais de referência deixaram de ser apenas campos de estágio para assumir o papel de protagonistas na formação na área da saúde. A expansão de instituições de ensino superior ligadas a grandes complexos hospitalares, como a Faculdade Sírio-Libanês e a Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, aproxima desde o início da graduação o aprendizado teórico da prática clínica em ambientes de alta complexidade.

Quando não é este o caso, as instituições de ensino superior precisam oferecer hospitais universitários ou fazer parcerias com redes hospitalares para garantir que os estudantes tenham acesso à infraestrutura para as aulas práticas e oportunidade de vivenciar os desafios reais da profissão.

Segundo as novas diretrizes curriculares nacionais para Medicina, homologadas pelo Ministério da Educação, em setembro de 2025, o estágio obrigatório, conhecido como internato médico, deve corresponder a no mínimo 35% da carga horária total da graduação em Medicina, com duração mínima de dois anos. Além disso, as atividades devem ser integralmente supervisionadas por professores da instituição de ensino, com a participação de profissionais experientes.

Einstein tem salas de aula que simulam UTIs, bonecos realísticos e computadores de última geração.
Einstein tem salas de aula que simulam UTIs, bonecos realísticos e computadores de última geração.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Para Luiz Fernando Lima Reis, diretor de Ensino e Pesquisa no Sírio-Libanês, o grande desafio do ensino médico é inserir os alunos no ambiente assistencial e relacionar os conceitos à prática clínica, transmitindo conhecimento aliado ao desenvolvimento de habilidades.

"Para isso, é fundamental que os profissionais estejam capacitados para as atividades de ensino e aprendizagem, exercendo o papel de preceptores e tutores. Quando os alunos ficam dispersos em diferentes serviços de saúde, sob a orientação de profissionais sem vínculo com a instituição de ensino, o processo perde qualidade e capacidade crítica, comprometendo o desenvolvimento do estudante", afirma ele.

Criada em 2023, a Faculdade Sírio-Libanês possui 673 estudantes nos cursos de Medicina, Psicologia, Fisioterapia, Enfermagem e Biomedicina. Toda a infraestrutura do hospital é disponibilizada aos alunos como parte do campo para as atividades práticas. Os estudantes também atuam em equipamentos públicos que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como o Hospital Rota dos Bandeirantes, em Barueri.

Segundo Reis, historicamente, as escolas médicas brasileiras estavam, em sua quase totalidade, associadas a grandes hospitais. Mas o cenário mudou. "Em determinado momento, se passou a permitir a criação de cursos desvinculados de instituições de saúde. As faculdades de Medicina passaram a 'contratar leitos' de terceiros e, não raramente, os alunos de um mesmo curso ficam distribuídos em diversos serviços, sem preceptores preparados e comprometidos com os padrões de qualidade da instituição de ensino", diz.

O complexo do Einstein Hospital Israelita também integra o campo de estágio dos mais de 2 mil alunos matriculados em oito cursos de graduação da Faculdade Einstein, que estão divididos entre os cursos de Medicina, Enfermagem, Engenharia Biomédica, Fisioterapia, Nutrição, Odontologia, Psicologia e Administração.

A trajetória acadêmica do Einstein começou em 1989 com a inauguração da Faculdade de Enfermagem e da Escola Técnica. Em 2004, foi inaugurado o Centro de Educação em Saúde Abram Szajman, dedicado exclusivamente ao ensino. Nos anos de 2022 e 2023, foram abertos os Centros de Ensino e Pesquisa Albert Einstein - Câmpus Cecília e Abram Szajman e a Unidade Ensino Einstein Goiânia, integrada ao complexo hospitalar do Einstein na cidade.

Alexandre Holthausen, diretor-superintendente de Ensino do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, explica que as atividades práticas começam de forma precoce em todos os cursos. Em Medicina, por exemplo, os alunos iniciam as atividades práticas já no primeiro semestre, com vivências em unidades básicas de saúde. A partir do segundo ano, eles passam a frequentar semanalmente os hospitais para atividades práticas supervisionadas.

"Grandes hospitais de qualidade podem levar vantagem por ter, em um mesmo lugar e ao mesmo tempo, ótimos profissionais, densidade acadêmica, volume e diversidade de pacientes e infraestrutura de ponta, componentes essenciais de uma graduação de Medicina."

A complexidade dos serviços hospitalares é diferencial para o médico e pesquisador Vitor Ulisses Monnaka, que fez a graduação no Einstein e hoje cursa o doutorado no exterior por um programa da faculdade. Para ele, a complexidade dos serviços hospitalares ofertados é um dos fatores de maior impacto para formação dos estudantes de Medicina.

"Por um lado, temos contato com tecnologias médicas de ponta e acompanhamos condutas baseadas em protocolos utilizados em países de primeiro mundo. Por outro, desenvolvemos a capacidade de atuar em cenários com limitações estruturais características do nosso sistema de saúde", comenta Monnaka.

O médico diz que essa combinação prepara os estudantes para "atuarem com excelência em diferentes contextos, conciliando alto rigor técnico com adaptabilidade e senso de responsabilidade social." Hoje, enquanto pesquisador, ele aproveita sua formação científica para a validação de tecnologias inovadoras em saúde. "Meu objetivo é contribuir para que soluções com potencial de impacto real cheguem à prática assistencial."

Diogo Sampaio, do Conselho Federal de Medicina (CFM), atribui o desempenho insatisfatório no Enade à baixa qualidade dos campos de estágio oferecidos por parte das instituições de ensino — o que não ocorre em faculdades vinculadas a hospitais que são capazes de garantir melhor estrutura para a formação prática. "Se não há um campo de estágio adequado, você não consegue formar um bom médico."

Estadão
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