Cirurgia robótica ganha espaço até nas graduações em Medicina
Experiências do tipo costumavam ser mais restritas a profissionais formados; instituições públicas e privadas têm investido em simulares virtuais
Dezoito anos após o primeiro procedimento do tipo no Brasil e com a área em plena expansão, o ensino de cirurgia robótica tem deixado de ser restrito apenas a profissionais formados. A mudança ocorre com a implantação de laboratórios e centros de pesquisa voltados a atividades de simulação virtual, com práticas que incluem médicos ainda na etapa de formação (até mesmo nos anos iniciais).
Grande parte dos espaços voltados à prática de cirurgia robótica para graduandos foi inaugurada nos primeiros meses deste ano e em 2025, tanto em instituições públicas quanto privadas. Práticas do tipo entre estudantes não formados também são incomuns no exterior, embora também estejam ganhando espaço.
Esse tipo de procedimento tem ganhado espaço na rede privada e, aos poucos, na saúde pública. A realização demanda o uso de joystick (controle), no qual o cirurgião comanda todos os movimentos em incisões pontuais no corpo do paciente, ao mesmo tempo em que a máquina tem maior precisão na aplicação de força e estabilidade.
Desse modo, é um método com cortes menores (o prosseguimento é guiado com o uso de uma câmera inserida em uma das incisões, como em uma laparoscopia) e um pós-operatório que tende a ser menos desconfortável. Esse tipo de cirurgia é utilizado em diferentes especialidades, como urológica, ginecológica, cardíaca, pediátrica e oncológica, entre outras.
O custo milionário continua a ser, contudo, um dos principais impedimentos para uma utilização em maior escala. E, em paralelo, essa área também deve passar por transformações.
No ano passado, por exemplo, ganhou repercussão um procedimento experimental (em cadáver de porco) realizado por um robô com inteligência artificial, que realizou uma cirurgia em tecidos reais nos Estados Unidos.
Universidades lançam novos laboratórios de cirurgia robótica
Uma das instituições que se voltou a essa área é a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, que inaugurou o Centro de Simulação e de Inovação Tecnológica em Treinamento Cirúrgico (CSITC) em janeiro. O espaço é voltado a estudantes de graduação e residentes, com equipamentos de simulação em videocirurgia, cirurgia robótica e outras tecnologias.
Outra inauguração recente foi na Universidade Federal de Goiás (UFG), com a abertura do Laboratório de Simulação Robótica e Cirurgia Minimamente Invasiva em novembro. O espaço é voltado a estudantes de diferentes períodos, incluindo os do primeiro ano, com um simulador com mais de 80 exercícios, desde sutura até diferentes tipos de cirurgias, como de vesícula, útero e próstata.
Coordenadora do laboratório e professora do Departamento de Cirurgia da UFG, Fatima Mrue conta que o simulador traz uma precisão de movimentos e imagens muito semelhante a uma cirurgia robótica real. "E é isso que traz mais segurança e delicadeza na cirurgia", conta. Antes, a instituição alugava um equipamento, de modo que era mais restrito.
A médica explica que o contato com esse tipo de equipamento é importante mesmo para alunos que não vão se especializar em cirurgia. Como exemplo, cita um profissional que atenderá um paciente com complicações. "Vai saber o que esperar, diferenciar se foi uma cirurgia por vídeo, corte ou robô."
Na Universidade de São Paulo (USP), o Centro de Treinamento em Procedimentos Minimamente (Promin) Invasivos recebeu um simulador de cirurgia robótica no ano passado, que será voltado a atividades da graduação. O equipamento de alta precisão custou cerca de R$ 1 milhão, de acordo com a instituição.
Há, também, experiências do tipo em instituições privadas. A Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais tem, por exemplo, uma disciplina optativa de cirurgia robótica. Além das aulas teóricas (como sobre funcionamento do sistema e tipos de procedimentos), realiza atividades em laboratório de simulação e permite o acompanhamento supervisionado de operações no bloco cirúrgico.
No interior de São Paulo, o Grupo UniEduK utiliza simuladores para treinamento de cirurgias robóticas e minimamente invasivas (como laparoscopias). As atividades envolvem tanto o Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ) quanto o Centro Universitário Max Planck (UniMAX), de Indaiatuba.
Reitor das duas instituições, o médico Nuno Sousa considera que a inclusão da cirurgia robótica é importante diante dos seis anos que os estudantes para completar a graduação, sem contar o tempo posterior de residência. Ou seja, estão sendo preparados para o que ainda está por vir em um momento de avanço tecnológico.
"Precisamos projetar a medicina para daqui a 20, 25 anos", justifica. "Hoje em dia, muitas cirurgias já são mediadas por robô. É uma realidade do presente que, provavelmente, estará mais disseminada em 20 anos mais", completa.
Segundo o reitor, os simuladores permitem atividades seguras e protegidas para os estudantes desenvolverem suas competências, independentemente de optarem por atuar na área cirúrgica futuramente. "A formação médica tem que ser global", resume.
Como exemplo, cita um médico da família que terá essa referência ao aconselhar, recomendar e discutir abordagens com um paciente. Além disso, atividades com simulação também são voltadas a estudantes de outras áreas da saúde.
Para além da inserção na grade obrigatória, a cirurgia robótica também está em disciplinas eletivas. "É uma oportunidade de contato com esse trabalho, uma 'degustação' daquilo que podem vir a fazer se tiverem interesse nessa área", explica.
Ensino para além dos laboratórios
Em outras instituições, a cirurgia robótica entra na formação dos médicos de outras maneiras. A Faculdade Sírio-Libanês — ligada ao hospital que fez o primeiro procedimento cirúrgico com robôs no País — aborda o tema de outras formas, ainda mais porque seus alunos ainda são iniciantes (a graduação começou no ano passado).
Há atividades, por exemplo, de visitas ao centro cirúrgico e outros ambientes com amplo uso de tecnologia. Nesses casos, para além da técnica em si, é feita uma problematização.
"Na formação do aluno de medicina, mais importante do que o contato com as tecnologias, sejam robóticas ou de inteligência artificial, é que ele seja treinado para desenvolver análise crítica sobre essas tecnologias e, principalmente, para avaliar publicações médicas, identificando vieses, erros metodológicos e conflitos de interesse", defende Sérgio Samir Arap, diretor médico adjunto do Centro Cirúrgico, Centro de Endoscopia e Centro de Ortopedia do Hospital Sírio-Libanês.
O médico avalia, contudo, que o contato com procedimentos robóticos será realizado em outros momentos da formação, como por meio do acompanhamento de procedimentos (como observador, por exemplo). Para os novatos, há apenas visitas guiadas.
Para ele, o contato com a tecnologia é essencial, mas não o mais importante. "A cirurgia, como um todo, não é o foco principal para os acadêmicos de medicina. Costumamos dizer que o mais importante é a 'clínica cirúrgica': quais são as doenças, como é feito o diagnóstico, quais exames precisam ser realizados e quais casos necessitam de ação médica imediata", pondera.