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Transgênero vê barreira no mercado desde educação formal até soft skills

População trans enfrenta preconceito ainda que tenha diploma na mão; desenvolvimento de habilidades comportamentais evidenciam contextos de poucas oportunidades

25 out 2021 05h11
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Adaptabilidade, inteligência emocional, resiliência. As chamadas soft skills vieram para ficar. Mas se a falta de definição do que elas são para alguns serve como meio de entrada no mercado de trabalho, para outros elas fecham ainda mais portas. "A gente desenvolve soft skills o tempo todo", diz Vitor Martins, especialista em diversidade e inclusão no Nubank. "A diferença é que algumas pessoas desenvolvem resiliência fazendo um intercâmbio na Flórida, e outras pessoas desenvolvem resiliência tentando superar a expectativa de vida de 35 anos", diz, citando dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Para Vitor - que pede para ser definida não como mulher ou homem, mas como pessoa transgênero - cabe às empresas rever não o que elas consideram como soft skills, mas os vieses que atravessam a leitura dessas habilidades. "Eu gostaria de dizer que minha capacidade de resiliência veio do meu intercâmbio em Dublin", diz Vitor, perto de completar 29 anos no país que mais mata transgêneros no mundo, também segundo a Antra.

"Também não é negar as skills que essas pessoas adquiriram em função das experiências de vida de cada sujeito. As empresas precisam considerar essas skills a partir de outras narrativas, das mesmas que elas consideraram para recrutar."

Maite Schneider, cofundadora da TransEmpregos, banco de vagas voltado para pessoas transgênero, considera que não faltam soft skills a essa fatia da população. "Essa pessoa tem que ter inteligência emocional, porque senão ela dá um tiro na cabeça, é pedrada de todos os lados. É todo dia gente fechando as portas, fazendo piadinha."

Para Gabriela Augusto, fundadora da Transcendemos, consultoria para inclusão de grupos minorizados no mercado de trabalho, as pessoas trans carregam em geral uma vivência de outros contextos, como das artes ou dos movimentos sociais. E, ao se depararem com o ambiente corporativo tradicional, acontece um desencontro de soft skills. "Elas se deparam com muita dificuldade que, na minha visão, vem desse contexto diferente, que talvez leve a um gap de soft skills."

Evasão escolar

Mais do que soft skills, no entanto, Gabriela considera que a maior barreira para a contratação de pessoas trans ainda é a falta de acesso à educação e a alta taxa de evasão escolar. Segundo dados do 1º Mapeamento de Pessoas Trans da Cidade de São Paulo, que entrevistou 1.788 pessoas trans e travestis entre dezembro de 2019 e novembro de 2020, 51% dos entrevistados tinham concluído o ensino médio, dentre os quais apenas 12% cursaram ensino superior. Ao todo, no grupo, 58% trans realizam trabalho informal ou autônomo. Para as travestis, essa estatística sobe para 72%.

Quando era mais nova, Vitor costumava ouvir que seria prostituta ou cabeleireira. "Eu não tenho problema nenhum com essas profissões. O problema é quando essas narrativas têm por objetivo limitar quem nós somos."

A especialista do Nubank conta que foi graças aos investimentos da mãe na sua educação, além do acesso à universidade pública, que pôde passar por duas graduações, Administração e Psicologia. Atualmente, é mestranda na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde estuda "Estratégias de enfrentamento ao racismo implementadas por empresas privadas no Brasil".

Mesmo após superar as estatísticas da educação, o ingresso de trans no mercado ainda conta com outros percalços, como questões de raça. Para Maite Schneider, quanto mais barreiras sociais, mais difícil é a contratação. "As empresas não conseguem nem lidar com as questões de gênero e você quer falar em identidade de gênero?", questiona a consultora.

Falta de inclusão

De acordo com dados da TransEmpregos, dos 22.537 cadastrados na plataforma, 40,2% têm graduação, mestrado ou doutorado, o que demonstra que o problema para contratar pessoas trans vai além da educação e esbarra em preconceitos. "A gente ainda brinca de fazer diversidade, mas falta muito para que esse interesse (das empresas) seja maduro", afirma Maite.

Vitor também lembra que, muitas vezes, as vagas de emprego reservadas a pessoas trans divulgadas na internet não chegam ao seu público-alvo, devido à situação socioeconômica da maior parte dessa população. "90% estão na prostituição. Não adianta ficar só no LinkedIn", diz, referindo-se aos dados da Antra.

Na opinião da especialista do Nubank, uma das soluções para atrair o público é as empresas fazerem parcerias com ONGs e órgãos ligados a comunidades LGBT e trans.

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Estadão
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