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'Sistema não cria líderes para cuidar dos liderados', diz CEO

Para o americano Bob Chapman, é preciso ensinar habilidades comportamentais e de liderança humanizada desde a universidade; resultado vai além do trabalho e melhora relações familiares

6 nov 2021 05h11
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Se o que faz uma empresa funcionar são as pessoas que nela trabalham, é indiscutível dizer quão importante é o papel da liderança em cuidar dessas pessoas para que estejam satisfeitas com seus trabalhos e obtenham bons resultados. Infelizmente, não são todos os ambientes corporativos que compreendem essa relação, ainda que a pandemia tenha evidenciado a necessidade de líderes com uma abordagem mais humanizada.

A intersecção entre uma liderança centrada em pessoas e boas estratégias de negócio é a base do trabalho de Bob Chapman como CEO e presidente do conselho de administração da Barry-Wehmiller, empresa norte-americana de fornecimento de peças e tecnologia. O que ele chama de "liderança verdadeiramente humana" conversa com o conceito de capitalismo consciente, que reflete a necessidade tipicamente capitalista de obter lucro, mas com um olhar atento à jornada humana e à preocupação em ter impactos positivos na sociedade e no ambiente.

A pauta é urgente dentro das discussões sobre questões sociais, ambientais e de governança (os princípios ESG) e, segundo o executivo, coautor do livro Todos São Importantes (ed. Alta Books), o papel do líder é essencial para essas mudanças, que se estendem para além das paredes da empresa. "A maneira como tratamos aqueles que temos o privilégio de liderar tem um profundo impacto na maneira como os membros de nossa equipe tratam seus cônjuges ou parceiros, seus filhos e se comportam em nossas comunidades. Quando as pessoas se sentem genuinamente cuidadas, descobrimos que elas naturalmente se importam com os outros", disse ele ao Estadão, em entrevista por e-mail.

Chapman, que tem vivenciado e falado sobre esse modelo de liderança há mais de duas décadas, participou na última semana do 2º Fórum Brasileiro do Capitalismo Consciente, organizado pelo Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Na ocasião, ele abordou a pobreza de dignidade, que explica como a desvalorização das pessoas por quem são e o que fazem. Para mudar essa percepção, ele acredita que o significado de sucesso deve mudar: deixar de ser sinônimo de dinheiro e poder para ser a "maneira como tocamos a vida dos outros".

Na entrevista abaixo, o executivo aborda, ainda, as habilidades necessárias para a liderança humana a partir de um olhar para o sistema educacional e fala o que é preciso para implementá-la e construir confiança.

Você vem falando sobre um tipo diferente de liderança desde o fim dos anos 1990. O que mudou desde então? Quais são suas percepções sobre a liderança atual?

Minha transformação pessoal de gestão para liderança começou em 1997, continuou até o início dos anos 2000 e veio como resultado de uma série de despertares sobre o impacto que eu tinha sobre aqueles que tive o privilégio de liderar. Meu foco inicial estava no mundo dos negócios, mas tive a oportunidade de falar em todos os setores da sociedade - saúde, educação, governo, organizações sem fins lucrativos - e vejo a mesma coisa: líderes focados em seu 'sucesso' enquanto usam as pessoas em suas organizações simplesmente como um meio para seu sucesso. Essa doença do interesse próprio parece estar progredindo.

Hoje, nos vemos em um mundo educacional e profissional que tem gerentes, chefes, supervisores, administradores, mas não líderes que têm a habilidade e a coragem de cuidar daqueles que têm o privilégio de liderar. Infelizmente, não temos uma "liderança". Temos uma "gestão" que, pela minha experiência, é a "manipulação de outros para o meu sucesso". Então, tivemos sucesso econômico, mas não sucesso humano, em que as pessoas se sentem valorizadas, cuidadas e sabem que quem são e o que fazem é importante.

Bob Chapman, CEO e presidente do conselho de administração da Barry-Wehmiller, viu na empresa os resultados de implementar uma liderança verdadeiramente humana.
Bob Chapman, CEO e presidente do conselho de administração da Barry-Wehmiller, viu na empresa os resultados de implementar uma liderança verdadeiramente humana.
Foto: Divulgação / Estadão

Quando você fala de uma liderança humana, que tipo de habilidades e comportamentos estão envolvidos?

As habilidades para ser um líder estão centradas em ser capaz de dar às pessoas sob sua responsabilidade um senso de esperança para o futuro. Líderes verdadeiramente humanos projetam ambientes onde suas equipes se sentem seguras sobre seu futuro, inspiradas a compartilhar seus dons em direção a uma visão organizacional inspiradora, ouvidas para que sintam que fazem parte da construção desse futuro e deixam o trabalho todos os dias sabendo que o que fazem importa. E a base disso é ver sua missão principal de dar às pessoas sob seus cuidados um futuro que engaje suas cabeças, corações e mãos.

O livro que você escreveu com Raj Sisodia, 'Todos são Importantes', fala sobre o poder de cuidar das pessoas como se fossem da família. Quais são os resultados dessa atitude dentro das empresas?

Em primeiro lugar, quando você cuida de pessoas no trabalho como gostaria que seus filhos fossem cuidados, você vai melhorar a saúde delas. O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) nos disse que a pessoa a quem você se reporta no trabalho é mais importante para sua saúde do que seu médico de atenção primária.

A maneira como tratamos aqueles que temos o privilégio de liderar tem um profundo impacto na maneira como os membros de nossa equipe tratam seus cônjuges ou parceiros, seus filhos e se comportam em nossas comunidades. Quando as pessoas se sentem genuinamente cuidadas, descobrimos que elas naturalmente se importam com os outros.

Existem desafios para implementar um modelo de liderança mais humana nas companhias?

Temos uma sociedade construída em torno do "sucesso" como sendo dinheiro, poder e posição e não importa realmente como você o consegue, desde que seja legalmente. E então você pode preencher um cheque valioso para a caridade e ser celebrado por sua bondade e generosidade. O que aprendi nesta jornada para uma liderança verdadeiramente humana é que o maior ato de caridade é a maneira como tratamos as pessoas sob nossa responsabilidade.

Aprendemos que, ao ajudar outras organizações que "acreditam no que acreditamos", estamos tratando a doença do interesse próprio, não estamos curando. A cura para esse foco global no interesse próprio, para passar de um mundo centrado em 'eu' para um mundo centrado em "nós", é abordar como educamos nossos alunos. Temos um sistema educacional movido pela ideia de que uma boa educação apoiará uma sociedade livre, mas precisamos transformar a educação para ensinar habilidades humanas, de modo que o foco principal da educação seja formar líderes que tenham as habilidades humanas e profissionais para atuar em todas as profissões de nossa sociedade com as habilidades e coragem para cuidar daqueles que eles irão liderar.

Descobrimos que a habilidade mais importante de que todos precisam como base para uma vida com significado, propósito e "sucesso verdadeiro" é ouvir com empatia. Essa é a capacidade de ouvir para entender, não para debater ou julgar. Não há dúvida de que essa é a maior de todas as habilidades para uma vida verdadeiramente bem-sucedida. E a segunda é a habilidade de reconhecer e celebrar a bondade nos outros. Os futuros líderes podem aprender essas habilidades humanas poderosas e transformadoras e os graduados podem se tornar a "vacina" para lidar com a doença do interesse próprio. Nós não temos "maus gerentes"; temos um sistema educacional que não está criando líderes com habilidades humanas para cuidar dos liderados.

Nesse processo de implementar uma liderança mais humana, funcionários podem ficar um pouco céticos quando os líderes começam a ser 'bonzinhos'. Como engajá-los e construir confiança?

Não é mais uma questão de ser "bonzinho", trata-se de compreender a profunda responsabilidade da liderança. Certifique-se de que você tem um modelo organizacional bem projetado para dar àqueles sob seus cuidados um senso de esperança para o futuro e, em seguida, inspire-os a trazer seus dons para realizar a visão da organização e o resultado será confiança. Mas essas são habilidades que não são ensinadas e decidimos ensinar na Universidade Barry-Wehmiller, nossa instituição interna, para transformar gerentes em líderes que têm as habilidades para cuidar de seus liderados, criando uma cultura de confiança, respeito, colaboração e cuidado.

Sua palestra no Fórum Brasileiro do Capitalismo Consciente falou sobre a pobreza da dignidade. O que isso significa quando falamos de liderança?

Quando você olha para o estado da sociedade e da cultura nos EUA, antes da pandemia, tínhamos o menor nível de desemprego em 50 anos, um mercado de ações forte e não estávamos enviando nossos jovens para lutar em conflitos globais. Portanto, tínhamos paz e prosperidade, mas experimentávamos o mais alto nível de ansiedade e depressão. E pela minha exposição por meio de minhas conversas em todas as partes de nossa cultura, minha observação é que, embora as pessoas tenham riqueza econômica, elas não se sentem valorizadas. Elas sentem que são apenas um meio para o sucesso de outra pessoa.

Então, quando as pessoas não se sentem valorizadas pelo que são e pelo que fazem, elas se sentem humilhadas. O escritor e jornalista do The New York Times Thomas Friedman diz que não temos pobreza de dinheiro, temos pobreza de dignidade, e isso se alinha exatamente com o que estamos experimentando. Quando ensinamos os fundamentos da "liderança verdadeiramente humana" em nossa Universidade Barry-Wehmiller, 90% do feedback de nossos graduados dizem que isso causa um impacto dramático em seus relacionamentos pessoais com seus cônjuges, parceiros e filhos.

Quando nos importamos com aqueles que lideramos, eles naturalmente começam a se preocupar com aqueles que encontram no trabalho, em casa e em nossas comunidades. Podemos criar um mundo onde "todos são importantes", mas isso começa com o ensino das habilidades de liderança e cuidado e definindo o sucesso na vida como a maneira como tocamos a vida dos outros.

Começa conosco, como líderes, que criamos ambientes onde honramos a dignidade das pessoas e damos a elas significado e propósito por meio de empregos onde podem contribuir com seus dons e talentos e fazer parte de algo maior do que eles. É assim que começamos a perceber o mundo que imagino.

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Estadão
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