Carreira de palhaço exige estudo e aceitação de defeitos
- Cartola - Agência de Conteúdo
- Especial para o Terra
Sapatos grandes, nariz vermelho e roupas coloridas: todo mundo sabe quando encontra um palhaço pela frente. Há quem acredite que basta se vestir de forma engraçada e fazer caretas para ser a tal figura. Até pode ser, mas para se tornar um verdadeiro palhaço também é necessário muito treino e estudo. Existe inclusive um nome específico para quem quer estudar a carreira: palhaçaria.
Diferentemente da maior parte dos atores, o palhaço não pode simplestemente "entrar no personagem". Ele precisa "ser" o personagem.
"Não construímos outra pessoa. A matéria-prima é você mesmo", explica Charles Oliveira, 25 anos, coordenador do projeto Ospália, coletivo de palhaços em pesquisa, que ministrará uma oficina até junho na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Itajaí (SC).
De acordo com Oliveira, que também é conhecido como Palhaço Pimentão e Mestre Banana, o palhaço é como uma lente de aumento de cada pessoa. "Se sou gordinho e tento esconder isso, o meu palhaço vai querer mostrar", exemplifica.
O pesquisador conta que alguns alunos, durante os seus cursos, tiveram resistência para conseguir fazer a interpretação e desistiram das aulas, já que é necessário entrar em contato com os seus defeitos.
"Trabalhamos muito a aceitação. Depois que descobri o palhaço, lido com a minha vida de maneira muito mais tranquila", afirma.
O professor de palhaçaria também é instrutor de ioga, mas conta que muitos colegas conseguem se manter apenas da carreira de palhaço. Muitos trabalham no teatro, no circo ou nas ruas. Outros ainda lidam com surdos e mudos através das libras, e alguns levam alegria a crianças doentes.
Existe até a organização internacional Palhaços Sem Fronteiras, que atua em zonas de conflito e exclusão. "Eu sempre digo que trabalho com prevenção", brinca Oliveira, que faz espetáculo e intervenção urbana.
Nas artes cênicas há 10 anos, Oliveira descobriu a palhaçaria há apenas três. "Apareceu num momento de crise com o teatro, eu estava começando a me dedicar apenas à ioga. De repente, entrei em um universo de aceitação. Ali, se você errou, que ótimo. Dá para fazer outras coisas com o erro", diz.
Contrário à opinião dos companheiros de profissão mais velhos, o professor acredita que as pessoas podem ser muitos palhaços diferentes, ressaltando características diferentes do indivíduo. "Além disso, as pessoas mudam, então o clown (palhaço) muda também."