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É o Brasil o país mais corrupto?

PARTE II | EDUCAR E PUNIR - Por Edgardo Martolio

10 mar 2026 - 13h06
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Corrupção pode existir em governos, empresas, polícia, tribunais, partidos políticos e organizações privadas. Ou seja, não é exclusiva do Estado, embora seja mais grave quando envolve recursos públicos. E é aí que o Brasil parece se destacar. Não é à toa que, nas últimas três décadas, o país encarcerou três presidentes eleitos pelo voto popular — nenhum ditador ou alguém que tenha chegado ao poder pela força das armas, via golpe de Estado. (Apenas o Peru encarcerou mais presidentes: seis; a Coreia do Sul, dois; assim como o Paquistão e a Tailândia, que condenaram dois primeiros-ministros cada um). Ainda assim, e não apenas naqueles governos tupiniquins que sofreram impeachment, houve abuso de autoridade, uso indevido do poder e tomadas de decisões arbitrárias, de forma injusta ou ilegal, visando benefício privado, distribuição de dinheiro, favores, vantagens ou proteção a si próprio ou a terceiros coligados.

O Brasil é o país mais corrupto? Veja o que pensa Edgardo Martolio
O Brasil é o país mais corrupto? Veja o que pensa Edgardo Martolio
Foto: Gemini / Perfil Brasil

A lista dos últimos tempos, apenas para refrescar a memória, é a seguinte:

  • Mensalão: Pagamento mensal a deputados para votarem com o governo. Escândalo histórico e ainda relevante nos debates políticos. R$ 30 mil por mês a parlamentares.

  • Emendas "Pix": Investigações recentes sobre o uso de emendas parlamentares sem controle; suspeitas de uso político e falta de fiscalização. Valores na casa dos bilhões de reais em transferências diretas a municípios.

  • Operação Carne Fraca: Investigação sobre corrupção na fiscalização sanitária; propinas para liberar carne imprópria para o consumo. Dezenas de empresas e funcionários investigados.

  • Lava Jato (ainda com desdobramentos): Cartel de empreiteiras e propinas em contratos da Petrobras. A maior investigação anticorrupção da história do Brasil até hoje. Bilhões de dólares em propinas e desvios.

  • Caso Queiroz / "Rachadinhas": Investigação envolvendo gabinete político no Rio de Janeiro; funcionários devolveriam parte do salário ao político. Movimentação de R$ 1,2 milhão.

  • "Rei do Lixo": Escândalo envolvendo contratos de coleta de lixo em municípios; superfaturamento e pagamento de propinas. Contratos suspeitos de centenas de milhões de reais.

  • Orçamento Secreto / Emendas Parlamentares: Investigação sobre a distribuição de recursos públicos por parlamentares; falta de transparência e possível compra de apoio político. Dezenas de bilhões de reais distribuídos arbitrariamente.

  • Nova condenação de Fernando Collor (2023): O ex-presidente foi condenado no Supremo Tribunal Federal por receber propina para facilitar contratos da Petrobras. R$ 20 milhões em subornos.

  • Fraude no INSS (2019-2024): Esquema envolvendo descontos ilegais em aposentadorias; associações cobravam taxas indevidas de aposentados. R$ 6 bilhões desviados.

  • Escândalo do Banco Master (2025-2026): Investigação envolvendo o banco privado Master e autoridades financeiras; lavagem de dinheiro e suspeita de suborno a políticos de toda laia e autoridades do Banco Central. Fraude estimada em R$ 40 bilhões.

Isso é o que torna o Brasil corrupto sistemicamente. Mas por que o Brasil é assim? Que ele o é, não há dúvidas; restará ver se é o "mais" ou se está entre os primeiros. Para dimensionar a corrupção sistêmica no Brasil, é preciso ponderá-la em relação ao restante do mundo. Comparar, medir, analisar. Sabe-se que nada é casual; tudo é consequência de circunstâncias próprias, alheias, coincidentes ou derivadas. O suborno, o peculato, a fraude pública, a extorsão e até o nepotismo têm alguma origem. Viajemos pela corrupção global.

A Venezuela figura, ainda hoje, entre os países mais corruptos do planeta; porém, deve-se considerar que o país tornou-se corrupto no último meio século. Antes, em épocas como o governo de Carlos Andrés Pérez, a Venezuela era um exemplo de democracia para a América Latina e para o mundo. Portanto, não podemos falar de uma "corrupção sistêmica" histórica na Venezuela. Já no Brasil, salvo alguns anos pinçados — como poderiam ser os do governo de Fernando Henrique Cardoso —, sua história o condena. O país classifica-se, sim, em corrupção sistêmica, como a maioria das nações latino-americanas, com exceção, talvez, do Uruguai, o "mais limpo" deles.

Numa análise mais filtrada, entende-se que, nos países mais pobres, são os governos que tornam a corrupção sistêmica um modus operandi hereditário. Eles dão continuidade a uma prática que se demonstrou a maneira mais "apropriada" de enriquecerem à custa do país e do setor privado. Nessas "republiquetas", onde o crime de corrupção compensa, encontram-se cinco fraquezas no ambiente propício para o corrompimento de pessoas e a deturpação do sistema:

  1. Instituições frágeis, desequilibradas e não democráticas;

  2. Mínima liberdade de imprensa;

  3. Poder Judiciário atrelado ao poder político;

  4. Escassa fiscalização do erário;

  5. Zero transparência pública.

Por outro lado, por que não acontece o inverso nos países mais ricos? Não seriam eles os menos corruptos? Não necessariamente; pois não é apenas a riqueza que planta a corrupção e permite que ela floresça. No ranking das 15 nações menos corruptas, há apenas duas que estão na lista das dez mais ricas: Alemanha (3ª mais rica e 9ª menos corrupta) e Canadá (10º mais rico e 12º menos corrupto). Então, o que inflama a corrupção, se não é apenas a tentação pelo enriquecimento rápido — elemento observável em países democráticos onde governantes duram pouco tempo no poder? A falta de educação e cultura é o princípio dessa doença moral.

Não deve ser por acaso que, entre as 14 nações com melhor educação e cultura (segundo os índices Human Development Index, Education Index e PISA), figuram as sete nações menos corruptas do mundo e com menor corrupção sistêmica entre os 180 países medidos: Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça e Países Baixos. Diferentemente do Brasil, todas elas possuem educação pública universal muito forte, alto investimento em ciência, universidades de qualidade, vasta produção cultural e alta taxa de leitura. Nos sete países com menos corrupção, a média de leitura é de 15 livros completos por habitante ao ano (na Islândia, chega a 50); no Brasil, essa média é de apenas 4,5 livros.

Por que o Brasil chega a esse patamar tão insuficiente? Porque é estressado por problemas estruturais, como a desigualdade educacional regional, a baixa qualidade do ensino básico, a formação insuficiente de professores e o investimento mal distribuído. A boa notícia é que houve avanços, como o maior acesso à escola e a quase universalização do ensino fundamental. Porém, a esperança ainda está longe de ser sólida enquanto a corrupção drenar os cofres públicos e o governo repartir dinheiro como guloseimas em festa de aniversário.

Além de menos corrupção, esses países com melhor educação normalmente apresentam maior inovação científica, estabilidade social, qualidade de vida, menor criminalidade e maior renda média. No Brasil, segundo dados da UNESCO e do IBGE, ainda há 10 milhões de adultos analfabetos (6%), enquanto na Argentina e no Uruguai esse índice é de 1%. Na América do Sul, o Brasil só supera a Bolívia e o Suriname em alfabetização.

Dirão alguns que não são os analfabetos os corruptos. É verdade. Os corruptos, normalmente, possuem pós-graduações e estudos no exterior. Então, onde aprenderam a roubar? A corrupção se "mama"; tem a ver com o histórico recente e com fatores que a alimentam. Os analfabetos não são os corruptos do empresariado ou do governo, mas são eles que, involuntariamente, facilitam o roubo do dinheiro público. Sua falta de instrução faz com que políticos que deveriam estar presos sejam reeleitos; sua ignorância impede o protesto por falta de argumentação e baixa autoestima. No Brasil, instituiu-se que o endinheirado tem mais direitos que o pobre e que quem ostenta cargo público decide na obscuridade. O obscurantismo é a luz do ladrão de colarinho branco.

Não podemos esquecer que o Brasil foi o último país a libertar seus escravos: 1888 foi ontem. Isso gerou uma das maiores concentrações fundiárias do mundo. De lá para cá, os "senhores" — sejam marajás, coronéis ou barões do poder — continuaram ostentando o arbítrio com leis e tribunais a seu dispor. A mudança começa pela educação e segue pela punição.

A combinação desses dois elementos evita a corrupção. Os sete países citados têm, em média, três anos a mais de estudo médio por aluno do que o Brasil: 13,5 anos na Suíça contra 9,5 anos aqui. O Brasil perde historicamente para os 11 anos da Argentina e do Chile, apesar de possuir a melhor universidade da América Latina (USP) e liderar a produção científica da região.

Ainda que especialistas enfatizem que a corrupção não dependa da cultura, mas de instituições e leis, estas só se constroem a partir da educação de todos, e não apenas das elites. É por meio dela que se escrevem leis comuns, alcançam-se igualdades e instrumentalizam-se os controles ao poder. Quem tem conhecimento dificulta o roubo de quem governa (no Brasil, governar passou a ser sinônimo de roubar). O conhecimento salva. Ganham os corruptos porque conhecem as leis, sabem driblar fiscalizações e como se defender para se livrar da "cana".

Perfil Brasil
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