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Drogas sintéticas da Europa chegam à América Latina

16 set 2026 - 11h01
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Resumo
Relatórios da União Europeia revelam a consolidação de uma rota inversa no narcotráfico: o envio de drogas sintéticas europeias, como o MDMA, para a América Latina, frequentemente trocadas por cocaína via escambo entre redes transnacionais. Embora o impacto desse fluxo ainda seja considerado marginal frente à produção local, a dinâmica evidencia a atuação globalizada do crime organizado, facilitada pelo acesso a precursores químicos asiáticos e portos estratégicos na Europa.

Relatórios de autoridades europeias revelam que drogas sintéticas produzidas no Velho Continente são traficadas para o mercado latino-americano, ampliando alianças transnacionais e esquemas de troca.A América Latina continua sendo a principal fornecedora da cocaína que chega à Europa. No entanto, relatórios recentes revelam a existência de uma "rota inversa": o tráfico de drogas sintéticas, principalmente MDMA (conhecido popularmente como ecstasy), produzidas no Velho Continente e destinadas aos mercados da América Latina.

Em seu Relatório Europeu sobre Drogas de 2025, a Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA) e a autoridade policial europeia, Europol, alertaram que redes criminosas europeias e latino-americanas utilizaram, por exemplo, acordos de escambo nos quais MDMA foi trocado por cocaína.

Segundo dados da Organização Mundial das Alfândegas (OMA) citados no relatório, entre 2019 e 2022, foi interceptada pelo menos 1,2 tonelada de MDMA enviada da Europa para a América Latina, tendo Chile (372 kg), Peru (160 kg), Brasil (141 kg), Colômbia (136 kg) e Argentina (117 kg) como principais destinos.

Sem distinção entre produtores e consumidores

Essa dinâmica do narcotráfico altera os esquemas tradicionais. "O que essa rota inversa nos mostra é que já não existem apenas países produtores ou países consumidores. Agora, os atores participam de toda a cadeia de produção, transformação ou consumo", explica Zara Snapp, diretora do Instituto RIA, associação civil mexicana que busca mudar as políticas de drogas com foco em direitos humanos, saúde pública e justiça social.

"Estamos enfrentando um cenário em que os grupos têm maior coordenação, comunicação, e a diversidade de substâncias nos mercados é mais ampla", acrescenta Snapp.

Segundo Mariano Bartolomé, especialista em Segurança Internacional e Defesa da Universidade Camilo José Cela, de Madri, já há algum tempo "fala-se de um tráfico bidirecional de drogas entre a América Latina e a Europa. No sentido inverso, o que circula são drogas sintéticas como metanfetaminas ou MDMA".

Pontos logísticos e a rota dos precursores químicos

Segundo a EUDA, os epicentros da fabricação de drogas sintéticas na Europa são sobretudo a Holanda, a Bélgica, a Alemanha e a Espanha. A produção se beneficia da infraestrutura de megaportos como Antuérpia, Roterdã e Hamburgo, portas de entrada da cocaína sul-americana, além da disponibilidade de insumos químicos.

"Os precursores vêm da Índia e da China. O MDMA seria produzido na Europa e exportado para a América Latina porque é mais fácil para esses precursores químicos chegarem ao território europeu do que ao continente americano", especialmente sob a atual política de vigilância adotada pelo governo de Donald Trump, esclarece Bartolomé.

A esse esquema soma-se a atuação direta de redes transnacionais. De acordo com Carlos Antonio Flores Pérez, pesquisador do Centro de Investigações e Estudos Superiores em Antropologia Social (CIESAS), do México, existe uma cooperação entre organizações criminosas de diferentes continentes.

"Operadores do tráfico de drogas mexicanos foram presos na Europa, e também integrantes de organizações europeias foram detidos no México, o que permite considerar que, de fato, existe cooperação e negócios entre algumas delas", detalha.

Uma rota real, mas de impacto limitado

Apesar das apreensões e das alianças entre grupos criminosos, Flores Pérez relativiza o volume real desse comércio em direção à América Latina. "O tema não está muito documentado", adverte o pesquisador do CIESAS, destacando que o impacto das drogas sintéticas europeias na região "seria marginal em comparação com o comércio e a produção local de drogas sintéticas".

Em mercados de grande escala, como o mexicano, a oferta de drogas sintéticas continua sendo majoritariamente abastecida internamente. "Aqui no México, as drogas ilícitas mais consumidas continuam sendo maconha, cocaína e metanfetaminas. Estas últimas são produzidas essencialmente no próprio país", conclui Flores Pérez.

A chamada rota inversa é um sinal de algo mais profundo: os grupos criminosos já não operam a partir de um único país nem apenas com recursos locais, mas em vários continentes ao mesmo tempo, por meio de redes de colaboração que vão muito além da capacidade de controle dos marcos institucionais.

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