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Doenças do passado: trilobitas feridos, dinossauros mancos e outras enfermidades pré-históricas

Os dinossauros também ficavam doentes? E os trilobitas? O que é a paleopatologia e como ela nos permite inferir as doenças do passado?

28 abr 2026 - 10h30
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Restos de fósiles marinos (Marruecos, Ordovícico), incluyendo trilobites, estrellas de mar, ofiuras, entre otros. Roman Deckert, CC BY-SA
Restos de fósiles marinos (Marruecos, Ordovícico), incluyendo trilobites, estrellas de mar, ofiuras, entre otros. Roman Deckert, CC BY-SA
Foto: The Conversation

Os paleontólogos às vezes descobrem tecidos ou estruturas estranhas nos restos fósseis, o que os leva a suspeitar que os animais estavam doentes. A paleopatologia é a disciplina científica que analisa essas alterações e nos permite saber quais doenças afetavam os organismos que habitaram a Terra em épocas passadas.

Foram identificados processos patológicos em uma grande diversidade de organismos extintos, desde protozoários até vertebrados. Eles são mais frequentes, no entanto, nos grupos que possuem partes duras (mais fáceis de se fossilizar), como ossos ou conchas.

Além de fornecer dados sobre a biologia e a ecologia desses organismos, seu estudo também é relevante para compreender a origem, a distribuição e a evolução das doenças ao longo do tempo.

Como funciona a paleopatologia?

A comparação entre o presente e o passado é fundamental para compreender as doenças que afetaram os seres pré-históricos. Para chegar a um diagnóstico, a paleopatologia se baseia em uma premissa fundamental: as doenças se desenvolvem de forma comparável em espécies atuais e extintas.

Avanços tecnológicos permitiram um importante salto qualitativo nesta disciplina. Assim como na medicina, os fósseis com anomalias são digitalizados em alta resolução, utilizando o que conhecemos como tomografia computadorizada. Com os resultados, é possível observar estruturas e tecidos internos e aprofundar o diagnóstico da doença sem danificar o restante do fóssil.

Diferentes ossos patológicos, incluindo um fêmur de mamute do Pleistoceno com doença infecciosa, folha de sassafrás do Eoceno com danos causados por insetos, fêmures humanos da época romana com malformações e um úmero de dinossauro com marcas de depressão
Diferentes ossos patológicos, incluindo um fêmur de mamute do Pleistoceno com doença infecciosa, folha de sassafrás do Eoceno com danos causados por insetos, fêmures humanos da época romana com malformações e um úmero de dinossauro com marcas de depressão
Foto: The Conversation
A. Osso de elefante, possivelmente de mamute, do Pleistoceno. Observam-se enormes orifícios relacionados a alguma provável doença infecciosa. B. Folha de sassafrás, datada aproximadamente do Eoceno. As áreas ausentes no interior foram causadas por danos de insetos. C. Fêmures de humanos da época romana, com malformações decorrentes de fraturas ou outras lesões. D. Úmero de Saurolophus, do Cretáceo Superior da Mongólia, em diferentes vistas. As setas indicam marcas de mordida feitas por um dinossauro carnívoro.A. Wellcome Library, Londres; CC BY 4.0.; B. Kevmin, CC BY-SA 3.0.; C. Wellcome Library, Londres; CC BY 4.0; D. David W.E. Hone & Mahito Watabe, CC BY 4.0, CC BY-SA

À caça dos trilobitas!

Os trilobitas, com mais de 22.000 espécies descritas, são um símbolo do Paleozóico (539-251 milhões de anos). Esses artrópodes extintos, dotados de uma carapaça dura, habitavam ambientes marinhos em praticamente todo o mundo. Além disso, foram alguns dos primeiros organismos a sofrer predação na própria pele.

Em alguns restos de trilobitas foi possível observar partes truncadas ou lascadas. Cientificamente, essas lesões foram interpretadas como possíveis mordidas de predadores. Em alguns casos, as bordas dessas mordidas mostram sinais de remodelação, sugerindo que foram ataques predatórios malsucedidos. Naquela ocasião, o trilobita se salvou.

Espécime de trilobita com marcas relacionadas à predação. A remodelação sugere que o animal sobreviveu ao ataque.
Espécime de trilobita com marcas relacionadas à predação. A remodelação sugere que o animal sobreviveu ao ataque.
Foto: The Conversation
Espécime TMP.1983.021.0034 de trilobitas Gabriellus kierorum (Cámbrico). Na figura A observa-se o espécime completo, e em B um aumento da anomalia. As setas brancas indicam esse truncamento, com certo grau de remodelação. Interpreta-se como um evento de predação malsucedido.Bicknell e Holland, 2020, CC BY-NC-SA

Mas quem comia esses animais? Acredita-se que o mais provável seja que seus predadores fossem outros invertebrados durofágicos, como cefalópodes (como polvos), asteroides (como estrelas do mar), artrópodes (como carangujos) etc. Alguns possuíam cones orais e outros estavam dotados de espinhos nas patas, semelhantes aos dos atuais caranguejos-ferradura. Havia também aqueles que apresentavam apêndices frontais que funcionariam como martelos. Fosse qual fosse a ferramenta, ela lhes permitia quebrar a carapaça biomineralizada dos trilobitas.

Historicamente, pensava-se que os principais predadores eram os anomalocarídeos. Hoje, no entanto, existem dúvidas a esse respeito. Sugere-se que eles os predavam apenas logo após o processo de muda, quando a carapaça dos trilobitas ainda não estava endurecida.

Além de lesões relacionadas à predação, foram identificadas nos trilobitas anomalias associadas a outros processos. Por exemplo, alterações no desenvolvimento, complicações durante a muda ou doenças causadas por parasitas.

Mancos no Jurássico

Já foram identificadas inúmeras alterações patológicas nos restos ósseos e dentários de dinossauros mesozóicos. Algumas são interpretadas como traumatismos (fraturas, amputações, etc.), outras como infecções, e também foram documentadas doenças degenerativas ou alterações no desenvolvimento.

Mas os dinossauros não nos deixaram apenas restos esqueléticos. Eles também deixaram evidências de sua atividade. Pegadas ou rastros (conhecidos como icnitas) podem fornecer informações sobre sua locomoção, como, por exemplo, a velocidade com que se deslocavam, ou sobre seu comportamento, se se moviam em manada ou sozinhos.

Além disso, algumas icnitas sugerem que certos dinossauros apresentavam problemas ao caminhar. Nesses rastros, observa-se uma assimetria no comprimento dos passos. Ou seja, eles alternavam passadas longas com outras mais curtas. Uma hipótese sugere que esse padrão poderia indicar uma marcha irregular, possivelmente para evitar sobrecarregar um dos membros. A origem, entre outras causas, poderia ser uma lesão ou uma artrite. Embora não sejam tão comuns quanto as patologias nos ossos e dentes, foram identificadas marchas irregulares em diferentes tipos de dinossauros.

Fragmento do rastro de pegadas de dinossauro saurópode no Colorado do Jurássico Superior, com possíveis problemas na marcha, e parâmetros de estudo.
Fragmento do rastro de pegadas de dinossauro saurópode no Colorado do Jurássico Superior, com possíveis problemas na marcha, e parâmetros de estudo.
Foto: The Conversation
Fragmento de trilha de pegadas de dinossauro saurópode no Colorado (EUA), sítio West Gold Hill do Jurássico Superior, com possíveis problemas na marcha. Em C são mostrados os parâmetros medidos para estudar o rastro.Romilio et al. (2025), CC BY

Por outro lado, estudos das pegadas também puderam observar malformações nos dedos e nas palmas. Foram identificadas icnitas de dinossauros com dedos ausentes, fraturados ou deformados, bem como extremidades curvadas ou irregulares. Também alguns com excrescências anômalas e até mesmo pegadas completamente torcidas. Essas formas aberrantes provavelmente refletem lesões no animal (fraturas, infecções, etc.) ou alterações durante seu desenvolvimento.

Evidências que o tempo apagou

Nem todas as doenças que afetaram os organismos do passado podem ser detectadas no registro fóssil. A escassa preservação dos tecidos moles gera um viés significativo, já que a maioria das lesões e doenças não deixa vestígios nas estruturas duras nem nos resíduos de sua atividade. Além disso, as respostas do tecido ósseo costumam ser lentas e, em alguns casos, podem levar anos ou até décadas para se desenvolver. Por isso, muitas doenças, especialmente as de caráter letal, não deixam nenhum vestígio nos fósseis e permanecem fora do nosso conhecimento no tempo profundo.

Outro problema é o mimetismo tafonômico.. Durante o enterramento e outros processos tafonômicos, podem ocorrer alterações semelhantes a lesões patológicas, como abrasões ou fraturas. Por isso, a equipe de pesquisa responsável pelo estudo deve ser cautelosa e prestar atenção especial aos detalhes para evitar identificar doenças onde elas não existem.

A paleopatologia nos ensina que a doença existe desde o início da própria vida. Embora raramente deixe marcas no registro fóssil, quando o faz nos permite vislumbrar as histórias dos organismos de uma maneira completamente incomum: não apenas como viviam, mas também como adoeciam, resistiam ou não conseguiam sobreviver. Mesmo no passado mais remoto, a vida nunca esteve isenta de suas próprias fragilidades.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Blanca Moncunill Solé recebe financiamento da Agência Estatal de Pesquisa e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades por meio de um contrato Ramón y Cajal (RYC2023-045129-I), bem como da Xunta da Galícia, no âmbito do programa "Apoios para a consolidação e estruturação de unidades de pesquisa competitivas e outras ações de fomento nas universidades do Sistema Universitário da Galícia (SUG)" (ED431B 2024/03).

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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