Doadores prometem US$1,5 bi para ajudar população no Sudão
Conferência em Berlim junta 55 países, enquanto guerra no país africano entra no quarto ano. Pelo menos 59 mil pessoas já foram mortas, e 30 milhões precisam de assistência humanitária.Uma conferência internacional realizada em Berlim nesta quarta-feira (15/04) resultou em 1,5 bilhão de dólares (R$ 7,49 bilhões) prometidos em doações para ajudar a população do Sudão. O valor foi anunciado pelo ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, no dia em que se completa o terceiro ano da guerra que assola o país africano.
O montante deste ano superou o bilhão de dólares arrecadado na conferência de doadores do ano passado, que aconteceu em Londres.
"Essa grande crise humanitária na África não pode ser esquecida", disse Wadephul à emissora pública alemã Deutschlandfunk. O evento foi sediado pela Alemanha, com a organização também de França, Reino Unido, Estados Unidos, União Africana e União Europeia (UE), e reuniu 55 países.
A Alemanha anunciou ajuda superior a 270 milhões de dólares, incluindo 250 milhões do Ministério das Relações Exteriores e 23 milhões do Ministério do Desenvolvimento.
De acordo com a ONU, cerca de 34 milhões de pessoas no Sudão precisam de ajuda humanitária, 19 milhões enfrentam fome e 10 milhões de crianças estão fora da escola. Um plano das Nações Unidas pretende prestar assistência a 14 milhões de pessoas, mas requer 2,2 bilhões de dólares em financiamento.
EUA deixam lacuna de financiamento
Wadephul afirmou que, apesar das rígidas restrições orçamentárias, o governo alemão precisa tentar preencher a lacuna de financiamento deixada pelos cortes massivos na ajuda externa dos Estados Unidos realizados durante o governo Trump. "Vamos unir forças para que a ajuda humanitária e a diplomacia humanitária possam salvar vidas."
Outras promessas de financiamento também vieram do Reino Unido e da Noruega. A ministra das Relações Exteriores britânica, Yvette Cooper, prometeu cerca de 198 milhões de dólares, enquanto seu homólogo norueguês, Espen Barth Eide, anunciou aproximados 50 milhões de dólares.
Cooper também pediu um esforço internacional para conter o fluxo de armas para o Sudão e pressionar por um cessar-fogo.
"Países de todo o mundo estão se reunindo aqui em Berlim para discutir como, francamente, a comunidade internacional falhou com o povo do Sudão", afirmou ela, às margens da conferência. "Precisamos garantir que toda a pressão possível seja exercida sobre as partes em conflito para que se chegue ao cessar-fogo urgente que tanto precisamos ver."
ONU: "Pesadelo precisa acabar"
As Forças Armadas do Sudão, lideradas por Abdel-Fattah Burhan, travam um conflito contra as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), grupo paramilitar comandado por Mohamed Hamdan Dagalo.
As guerras no Irã e na Ucrânia desviaram a atenção internacional do conflito no Sudão, mas o impacto da guerra não diminuiu. Após três anos de conflito, pelo menos 59 mil pessoas foram estimadamente mortas, segundo o Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), um projeto internacional que reúne dados publicados sobre conflitos armados. O número real, no entanto, pode ser muito maior.
"À medida que a ajuda ao Sudão diminuiu, as necessidades só aumentaram. Por trás desses números há vidas reais, pessoas reais que perderam suas casas, seus entes queridos e seus meios de subsistência, e que lutam para sobreviver à guerra, às doenças e à fome que ela traz," disse Tigere Chagutah, diretor regional da Anistia Internacional na África Oriental e Austral, antes da conferência.
Aproximadamente 9 milhões de pessoas foram deslocadas internamente, e outras 4,5 milhões fugiram para países vizinhos. Além disso, cerca de 217 unidades de saúde foram alvo de ataques verificados, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O secretário-geral da ONU, António Guterres, também participou da conferência por meio de uma mensagem em vídeo. "As consequências não se limitam ao Sudão. Elas estão desestabilizando toda a região," ele disse. "Este pesadelo precisa acabar."
Conflito internacional
O conflito teve início após a destituição, em 2019, do ditador de longa data Omar al-Bashir. A transição política esperada foi minada pelo conflito interno entre Burhan e Dagalo, então seu vice, enquanto ambos tentavam preencher o vácuo de poder.
Atualmente, o país está dividido entre o Exército, sediado em Cartum, que controla grande parte das regiões norte, leste e central — incluindo os portos no Mar Vermelho e refinarias de petróleo - e as RSF, que dominam Darfur e partes da região de Kordofan, no sul e oeste do país.
A guerra adquiriu caráter internacional devido ao interesse nos campos de petróleo e nas minas de ouro do Sudão. As Forças Armadas contam principalmente com o apoio do Egito, enquanto as RSF recebem apoio, segundo evidências crescentes, dos Emirados Árabes Unidos, o que o país nega.
Milhões de pessoas foram afetadas pela violência, incluindo casos generalizados de violência sexual. Isso é particularmente grave em Darfur, onde as RSF são acusadas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
ht (ots, dpa)
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