Devolver terras indígenas para seus povos originários pode restaurar a memória biocultural de diversos biomas
Expulsão de povos indígenas de seus respectivos territórios gera degradação ambiental e dos conhecimentos ancestrais.Mas reverter esse processo é possível, com benefícios sociais e ambientais
O papel indígena na conservação é amplamente reconhecido nos dias atuais, mas pouco se sabe sobre como a expulsão dessas comunidades de seus territórios se conecta com a degradação ambiental. Além disso, também pouco se sabe sobre os impactos nos ecossistemas de processos de reterritorialização de populações indígenas, ou seja, quando esses povos retornam para seus territórios ancestrais.
Apesar do reconhecimento sobre a importância dos povos indígenas na conservação da biodiversidade, ainda há uma lacuna significativa na compreensão de como os danos ambientais e a perda de biodiversidade em territórios são frequentemente precedidos ou acompanhados pela expulsão das comunidades de suas terras. E ainda, como a reterritorialização de povos indígenas pode gerar cascatas socioecológicas positivas.
É a partir dessa perspectiva que propomos pensar a noção de extinção biocultural como uma chave interpretativa central. Essa ideia nos permite compreender que o desaparecimento de povos e a degradação dos biomas não são processos separados, mas profundamente interligados.
Estudos e pesquisas realizados ao longo da minha trajetória enquanto uma indígena pesquisadora tiveram como foco os legados, aprendizados e ensinamentos das comunidades na relação com os ambientes, a partir do olhar das mulheres, muitas vezes, guardiãs de saberes milenares.
Atentei-me para comunidades que, na base de seus princípios, tivessem valores de coletividade e reciprocidade de humanos com outros seres. Para ter um olhar diverso perante as práticas diárias, analisei comunidades indígenas pelo reconhecimento ancestral e científico, enquanto povos que produzem florestas a partir dos modos de vida. E pesquisei também comunidades intencionais ecológicas, pois essas comunidades têm a sustentabilidade entre os compromissos de fundação.
O ponto de partida aqui, é que, diante das vivências e experiências podemos propor que a expulsão de povos indígenas de seus respectivos territórios gera, em consequência, a degradação ambiental e dos conhecimentos ancestrais. Mas o movimento inverso também é verdadeiro. Quando povos indígenas retornam aos seus territórios, mesmo em áreas degradadas, eles podem induzir processos de regeneração. A esse fenômeno temos chamado de cascatas socioecológicas, mobilizadas pela restauração da memória biocultural.
Neste sentido, a degradação dos biomas, a perda de espécies e o colapso dos ciclos ecológicos não podem ser compreendidos sem considerar as violências coloniais que incidiram, e ainda incidem sobre os povos indígenas e seus territórios. Essa é uma lógica de controle e destruição.
Quando falamos da crise contemporânea da biodiversidade, não estamos tratando apenas de um problema ecológico isolado. O que vivemos hoje é uma crise profundamente enraizada em processos históricos, políticos e epistemológicos.
A crise ambiental global tem sido descrita por indicadores como desmatamento, mineração, expansão agroindustrial e urbanização acelerada. Esses processos que avançam drasticamente sobre territórios indígenas, fragmentam ecossistemas, reduzem a biodiversidade e desestruturam ciclos fundamentais para a manutenção da vida.
No entanto, limitar a análise a esses fatores é insuficiente. O que está em jogo é também a dissolução de redes complexas que conectam seres humanos, outros humanos, mais que humanos, territórios e culturas.
Nesse sentido, a extinção biocultural aponta justamente para essa interdependência. Quando uma cultura é apagada, não se perde apenas um conjunto de práticas ou identidades, perde-se também um sistema de conhecimento ecológico, um modo de relação com o território, uma forma de cuidar da vida. Portanto, podemos dizer que a invisibilização de um povo está intrinsecamente associada à degradação do bioma ao qual ele se relaciona historicamente.
Essa destruição tem raízes profundas no projeto colonial. A colonização impôs uma lógica de monoculturalidade, baseada na hierarquização dos saberes e na inferiorização dos povos indígenas. Linda Smith defende que territórios passaram a ser vistos como espaços de exploração, e não como redes vivas de relações.
Nesta lógica, povos inteiros foram classificados como atrasados, primitivos ou mesmo como parte da natureza. O que para nós indígenas é orgulho; para a lógica ocidental, é motivo suficiente para legitimar nossa subjugação.
Borum-Kren
No caso do povo Borum-Kren, do qual faço parte, essa história é concreta e contínua. Somos originários da grande nação Borum, com raízes Krakmum, historicamente vinculados aos territórios do Alto Rio Doce, das Velhas e Paraopeba, em Minas Gerais.
Nossos territórios, ricos em recursos minerais, tornaram-se alvo de intensos processos de exploração e violência. Durante as chamadas "guerras justas", fomos perseguidos, mortos, deslocados, declarados extintos e reduzidos a categorias genéricas como "Botocudos"e "Cataguases".
Ainda assim, resistimos. Hoje, reafirmamos nossa identidade enquanto povo Borum-Kren, com territorialidade viva e organização própria. Estamos presentes em diferentes localidades, incluindo cinco aldeias principais, distribuídas entre os municípios de OuroPreto, Mariana, Itabirito, Barra Longa e adjacências. Ainda enfrentamos enormes desafios como a falta de reconhecimento territorial formal, a pressão secular da mineração e a ausência de políticas públicas adequadas.
Nosso território, além de ancestral, é ecologicamente estratégico. Abriga nascentes fundamentais para o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte e remanescentes importantes da Mata Atlântica. Sua destruição não afeta apenas nosso povo, afeta toda a sociedade.
Não existem biomas "intocados"
Essa realidade evidencia como a organização colonial do espaço, que separa natureza e sociedade, humano e não humano, desestruturou profundamente as relações socioecológicas indígenas. Essa fragmentação permitiu não apenas o avanço da exploração ambiental, mas também o apagamento dos sistemas de conhecimento que sustentavam o equilíbrio desses territórios.
Por outro lado, durante séculos, territórios indígenas foram tratados como laboratórios científicos e fontes de extração de dados. Os conhecimentos foram reduzidos a "saberes locais", descontextualizados e fragmentados.
Ao mesmo tempo, a ciência ocidental operou como ferramenta colonial, promovendo extrações e intervenções que frequentemente resultaram em desequilíbrios ecológicos, como a introdução de espécies exóticas e a disseminação de doenças.
Até hoje, mesmo abordagens que se apresentam como preservacionistas mantêm essa lógica. Ao tentar "proteger" a natureza, muitas vezes excluem os povos que historicamente a mantiveram viva.
Criaram-se áreas de conservação baseadas na ideia de natureza intocada, ignorando que muitos desses ecossistemas são, na verdade, paisagens moldadas por interações multigeracionais entre humanos e não humanos.
Por isso afirmamos: não existem biomas "intocados". A separação entre natureza e cultura é uma construção ocidental que não se sustenta diante das cosmologias indígenas. Para nós, território é relação. É memória. É vida.
E quando essas relações são interrompidas, seja pela expulsão de um povo, seja pela impossibilidade de exercer seu manejo, os impactos são imediatos. Interrompem-se sistemas de cuidado da paisagem, ciclos de regeneração, redes de sementes, práticas de proteção das águas. A degradação ambiental, portanto, não é apenas um efeito colateral, ela é parte estrutural desse processo de violência.
Essa relação já é reconhecida por diversos estudos que mostram que territórios indígenas apresentam, em média, níveis maiores de conservação ambiental. Por outro lado, quando os direitos desses povos são negados, os índices de degradação aumentam significativamente. Ou seja, a invisibilização dos povos indígenas é também um fator de produção da crise ecológica, dado o papel que desempenham na conservação da biodiversidade e no manejo sustentável da terra.
Essas contradições mostram que ainda operamos sob uma lógica profundamente antropocêntrica, que trata a natureza como recurso e não como relação.
Retomadas indígenas
É nesse contexto que as retomadas indígenas emergem como um movimento fundamental, não apenas político, mas também ecológico e epistemológico.
As retomadas não são apenas a recuperação de um território físico. Daniela Alarcon em seus estudos pôde demonstrar que as retomadas indígenas são processos de reconstrução de vínculos: com a terra, com os ancestrais, com os saberes, como seres visíveis e invisíveis. São também processos de etnogênese, de rearticulação identitária, de reexistência.
Há também uma dimensão que escapa às metodologias científicas convencionais. É aí que entra a ideia das retomadas como cosmometodologias de pesquisa.
Pesquisadores indígenas, como Iarú Tacarijú, nos mostram que as formas indígenas de produzir conhecimento não se limitam à observação empírica. Envolvem memória, oralidade, sonhos, espiritualidade, relações com os encantados. Envolvem outras temporalidades, outros modos de existir.
Nesse sentido, a noção de "floresta genealógica", proposta por Márcia Mura, amplia profundamente o conceito de parentesco. Não se trata apenas de relações entre humanos, mas de uma rede que inclui rios, plantas, animais, montanhas, espíritos. Restaurar o território é também restaurar essa rede.
Reflorestar, portanto, não é apenas plantar árvores. É reativar relações interrompidas. É reconectar histórias, práticas, afetos e responsabilidades.
A memória biocultural torna-se, então, uma ferramenta central. É ela que orienta quais espécies plantar, quais áreas cuidar, quais práticas retomar. É ela que conecta passado, presente e futuro.
Como a sábia conselheira Wayrakuna, Nádia Akawã Tupinambá, sempre diz: é olhando de onde vem, que se sabe pra onde vai!!
É revitalizando a memória biocultural dos povos originários de cada território,que poderemos direcionar ações efetivas de conservação ambiental e no enfrentamento das crises da biodiversidade e climática atuais.
A pesquisa que gerou este artigo é desenvolvida com o apoio do Instituto Serrapilheira.
Bárbara Flores Borum Kren têm vínculo institucional com a Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) como pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório de Ecologia da Conservação e recebe financiamento do Instituto Serrapilheira e da FAPESB - Fundo de Pesquisa do Estado da Bahia. Integra o Grupo de Pesquisa Wayrakuna (UFOP/ UNIDAS) - rede de pesquisadoras indígenas membras do Movimento Plurinacional Wayrakuna e o CWIAS - Center Wayrakuna of Indigenous Ancestral Sciences (University of Colorado/ EUA).
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