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Coronavírus

Papo de Fogueira: uma análise por Nilton Bonder

Apreendemos que a luz e a escuridão são parceiras. E se sairmos com uma vela ao sol do meio-dia, sua luz pouco revelará

11 jul 2021 - 07h10
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Desde tempos imemoriais, temos fascínio pelo fogo. Sei que a internet é incrível, mas nenhuma ferramenta se iguala ao fogo. O fogo permitiu aplicações essenciais do cozinhar, ao aquecer, fundir e esterilizar. De todas, o controle da luz é de longe o mais impressionante. Não ter remédio para o escuro é algo inimaginável. Seja o breu da noite, o escuro dos lugares internos ou a treva invernal, subjugar o escuro não foi pouca coisa.

Basta estar diante de uma fogueira e emoções atávicas aquecem nossa alma. Piroefeitos de chamas em dança, colorações típicas de energia, a fronteira entre a matéria e o nada, o turvar de gases em suas bordas, tudo nos encanta. Nada, no entanto, iguala a maestria sobre o escuro e o que ela nos ensina sobre a vida.

Ensina que há coisas que vêm em intensidades diversas, já outras em medida única. A luz tem graduações, a escuridão, não. Há a luz que cega, há a luz que deslumbra e há a luz suave que revela apenas vultos e silhuetas. A escuridão, porém, vem sempre na mesma capacidade.

Assim é com a escuridão da ignorância. Enquanto a sabedoria vem em graus - das pessoas brilhantes às que levam muito tempo para compreender muito pouco -, a estupidez tem medida única. A tolice não tem gradação. Um pouco de ignorância já compromete por inteiro o saber.

Esse é o drama de um mundo infectado de fake news, poluindo o saber em níveis não conhecidos.

Apreendemos que a luz e a escuridão são parceiras. E se sairmos com uma vela ao sol do meio-dia, sua luz pouco revelará. Precisamos da escuridão para enxergar certas coisas. E assim como nossos erros nos permitem ver o bom desconsiderado, a escuridão potencializa a luz focalizada.

Imagine agora que está andando numa casa em pleno dia, mas suas cortinas densas estão hermeticamente seladas. Nenhuma luz entra e você tropeça em objetos e cambaleia pelos cômodos. O tolo corre para acender uma vela para conseguir caminhar por entre as penumbras. Já o sábio abre as cortinas e se beneficia da luz que banha a casa por inteiro, caminhando confidente por todos os lados. A luz e o saber não nos livram da morte, mas nos permitem viver sem medo.

Ardem singelas as fogueiras, emolduradas por ingênuas bandeirinhas. Monumento à memória do primeiro saber que iluminou a humanidade. E uma sanfona as acompanha varando o silêncio escuro do universo.

Estadão
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