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Número de mortes na Itália é 4 vezes maior, diz estudo

Crescimento de óbitos supera o total oficial de casos oficiais de covid-19

27 mar 2020
08h55
atualizado às 08h56
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Um estudo sobre o número de mortes registrados em quatro cidades da Lombardia e do Marche - região do norte e do centro da Itália - mostra que elas tiveram de 1.º janeiro a 24 de março um crescimento de até 4 vezes em relação ao total do mesmo périodo do ano passado, sem que existisse outra explicação além da epidemia de coronavírus (Sars-Cov-2). O problema é que os números oficiais de mortos na pandemia nesses municípios são bem menores do que a diferença de óbitos de um anos para outro, o que indicaria que muitas pessoas morreram e foram enterradas sem que se verificasse se elas também foram vítimas da covid-19.

Um comboio de caminhões do Exército italiano carregando corpos de vítimas de coronavírus que vinham de Bergamo é descarregado no Cemitério de Ferrara, na Itália.
Um comboio de caminhões do Exército italiano carregando corpos de vítimas de coronavírus que vinham de Bergamo é descarregado no Cemitério de Ferrara, na Itália.
Foto: Massimo Paolone/ Dia Esportivo/ Estadão Conteúdo / Estadão Conteúdo

A análise consta de artigo publicado nesta quarta-feira, dia 26, no Corriere della Sera e indica um caminho para que a Itália e outros países europeus tenham um retrato mais fiel do alcance da epidemia. Com base na análise dos números do serviço funerário, os autores defendem a tese de que, proporcionalmente, o total de mortos na Itália não estaria acima do que se observou em outros países, apenas que a cifra de infectados teria sido muito maior e, na ausência de testes, permaneceria desconhecida. Os autores ainda indicam a necessidade de uma análise da causa da morte registrada pelos médicos desses óbitos para compreender melhor o fenômeno.

Assinam o estudo o médico Luca Foresti, administrador delegado do Centro Médico Santagostinho, e o físico Claudio Cancelli, prefeito de Nembro, uma das cidade analisadas. Situada na província de Bérgamo - 1,1 milhão de habitantes e 1.328 mortos até o dia 25 de março -, Nembro tem 11 mil moradores. As ruas da cidade estão desertas, não há carros circolando, com a exceção de ambulâncias. Trata-se da cidade com a maior taxa por habitante de casos da covid-19 de toda a província, a mais atingida pela epidemia no País.

"Não sabemos exatamente quantas pessoas foram cantagiadas, mas sabemos que o número de mortos oficialmente atribuídos à covid-19 são 31", escreveram os autores. Os dois recolheram o total de mortos em anos precedentes na cidade e chegaram á conclusão de que, em média, os óbitos no período entre janeiro e 24 de março eram 35. Neste ano, foram registrados 158, uma diferençã de 123 casos a mais em relação à média dos anos anteriores sem que nada, além da pandemia justificasse esse crescimento.

"O número de mortes anômalas em respeito à média é várias vezes maior do que as oficialmente atribuídas à covid-19", afirmam. De acordo com eles, na hipótese, que não é remota, que os cidadãos de Nembro tenham sido todos infectados, com muitos casos assintomáticos, os 158 óbitos representariam uma taxa de letalidade de cerca de 1%, não muito diferente daquela alemã e da coreana ou da registrada entre os passageiros do cruzeiro Diamond Princess, na Coréia do Sul, o que explicaria a diferença entre a ação do vírus nos diferentes países. Ela seria apenas índice da falta de testes, o que criaria uma cifra escondida, uma subnotificação da doença.

Cálculo. O mesmo cálculo foi feito com as cidades de Cernusco sul Naviglio, na província de Milão, e Pésaro, no Marche. Em Cernusco, o total de óbitos anormais registrados neste ano foi 6,1 vezes maior do que o oficialmente atribuído ao coronavírus. Maior ainda a diferença em Pésaro, que registra 10,4 vezes mais mortes anormais do que os dados oficiais de covid-19. "Uma grande parte dessas óbitos são de pessoas idosas ou frágeis, que morrem em casa ou em estruturas de abrigo (asilos), sem serem internadas ou mesmo submetidas a teste", afirmam os autores.

Para eles, Nembro representa em um pequeno universo o que estaria acontecendo em toda Itália. "Os números sugerem que devemos pegar o total de mortes por covid-19 e multiplicá-lo por 4."Eles indicam que o governo deve analisar os dados de cada cidade em que tenham ocorrido mais de dez mortes de covid-19 e verificar se o número corresponde ao total real de mortes. Nosso temor é que não somente o número de contagiados, mas também o de mortos esteja subestimado."

Em Bérgamo (120 mil habitantes), foram reconhecidos oficialmente 48 mortos pelo Sars-Cov-2, mas o total de vítimas fatais na cidade saltou de uma média de 628 no período para 1.128 neste ano. "Estamos diante de um evento histórico e, para combatê-lo, precisamos de dados confiáveis, difundidos com transparência entre os especialistas e as pessoas com responsabilidade de gerir a crise. Somente com dados corretos podemos decidir o que é justo fazer no tempo em que a crise requer."

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Estadão
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